Artigo da seção obras Literatura e Sociedade: Estudos da Teoria e História Literária

Literatura e Sociedade: Estudos da Teoria e História Literária

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Literatura  
Data de criaçãoLiteratura e Sociedade: Estudos da Teoria e História Literária: 1965 | Antonio Candido
Livro

Análise

Publicado em 1965, Literatura e Sociedade é um livro do escritor e crítico literário Antonio Candido (1918-2017). Estuda as relações entre a arte e o meio social. Nele, o autor esclarece o sentido da crítica dialética (texto e contexto), que analisa como o elemento externo, social, ao lado do psicológico e do linguístico, dialeticamente, integram-se como forma artística, constituindo a estrutura das obras.

Dedicado aos intelectuais Maria Amélia (1910-2010) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), o livro tem duas partes: a primeira, com três ensaios-capítulos e a segunda, com cinco. No prefácio à terceira edição, de 1973, Antonio Candido funde-os em três grupos. O capítulo inicial, “Crítica e Sociologia”, o terceiro, “Estímulos da Criação Literária”, e o último, “Estrutura Literária e Função Histórica” são marcados por maior empenho teórico. O quinto capítulo, “Letras e Ideias no Período Colonial”, o sexto, “Literatura e Cultura de 1900 a 1945”, e o sétimo, “A Literatura na Evolução de uma Comunidade” constituem estudos de história literária. Já o segundo e o quarto capítulos, “A Literatura e a Vida Social” e “O Escritor e o Público”, detêm-se em aspectos sociais do processo literário.

Em “Crítica e Sociologia”, Candido explica que, na interpretação de uma obra, é preciso levar em conta as circunstâncias históricas de sua composição e as operações formais que a constituem, de modo a compreender e descrever sua integralidade. Conforme a crítica dialética, o elemento externo, social, interessa como parte da estrutura literária, não como causa ou significado. Sem admitir visões dissociadas, a organicidade da obra demanda uma “interpretação dialeticamente íntegra”, capaz de fundir texto e contexto. Candido comenta o trabalho de críticos dessa orientação sociológica e estética: o húngaro Georg Lukács (1885-1971), o britânico Arnold Kettle (1916-1986), o romeno Lucien Goldmann (1913-1970), o alemão Erich Auerbach (1892-1957), o austríaco Otto Maria Carpeaux (1900-1978).

“O Escritor e o Público” teoriza e propõe questões sobre a formação do público no Brasil, como o gosto literário, os instrumentos de divulgação, as academias e a distância entre o escritor e as massas iletradas. Vincula-se a “Letras e Ideias no Período Colonial”, em que Candido diferencia, no processo formativo da tradição literária brasileira, um momento de manifestações literárias e, posteriormente, a articulação da literatura enquanto “sistema” de escritores, obras e leitores – como em Formação da Literatura Brasileira (1959).

Outro ensaio de história literária, “Literatura e Cultura de 1900 a 1945” oferece um “panorama para estrangeiros”, depreendendo três fases na literatura brasileira da primeira metade do século XX. A primeira, de 1900 a 1922, é a “literatura de permanência”, convencional, academista, de modelo europeu. Por oposição a ela, a segunda fase, de 1922 a 1945, e a terceira, a partir de 1945, integram o período de renovação, iniciado com o Modernismo. Observando que a vida espiritual brasileira se alicerça na dialética entre local e cosmopolita, Candido destaca o modernismo, em que a integração nacional/ europeu permite o amadurecimento cultural do país, a superação do recalque de ser mestiçado, e ressalta o equilíbrio dos anos 1930, da ficção e do ensaio voltados para a compreensão dos problemas do país e sua especificidade. Por fim, aponta a volta ao cosmopolitismo com a “geração de 45”.

Na esteira do espírito inconformista de Mário de Andrade (1893-1945)1, Candido propõe uma reflexão que reconhece o valor da ruptura libertária modernista, contra o convencionalismo. Assinala a importância da literatura de base sincrética na cultura brasileira e a retração sofrida com as especializações e o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa.

Tamanha é a força da obra, que seu título denomina uma linha de pesquisa de estudos literários e uma revista, criada em 1996, pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da USP, fundado por Candido em 1961. A teoria apresentada em “Crítica e Sociologia” materializa-se no ensaio “Dialética da Malandragem” (1970), que integra o livro O Discurso e a Cidade. No ensaio, Antonio Candido apreende, na estrutura de Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), a “dialética da ordem e da desordem” como ritmo da sociedade brasileira. Chama de “redução estrutural” o processo de interiorização estética da realidade. No mesmo livro, esse ensaio e “De Cortiço a Cortiço” – sobre O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo (1857-1913) – inauguram um caminho de crítica dialética, inspirando trabalhos como os de Roberto Schwarz (1938) a respeito de Machado de Assis (1839-1908). A contribuição de Literatura e Sociedade envolve, pois, a crítica literária, a sociologia e a história. Sua recepção inclui paralelos com críticos como Walter Benjamin (cerne do livro A Aprendizagem da Crítica, de Érica Gonçalves de Castro), Erich Auerbach e Roberto Schwarz (em A Passagem do Três ao Um: Crítica Literária, Sociologia, Filologia, de Leopoldo Waizbort).

A obra oferece, assim, reflexões e conceitos para o trabalho crítico e conhecimento da realidade histórica: a internalização estética do elemento social, a importância do público leitor e de seu contexto, a consciência do esforço artístico da literatura brasileira quando internaliza os problemas da realidade do país e a distância entre o escritor e a massa no Brasil.

Nota

 1. Cf. ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. In: Aspectos da literatura brasileira. 5 ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974, p. 231-255.

Ficha Técnica da obra Literatura e Sociedade: Estudos da Teoria e História Literária:

  • Data de publicação
    • 1965
  • Autores
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (3)

  • ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. In: ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins, 1974.
  • CASTRO, Érica Gonçalves de. A aprendizagem da crítica: literatura e história em Walter Benjamin e Antonio Candido. São Paulo: Intermeios: Fapesp, 2014.
  • WAIZBORT, Leopoldo. A passagem do três ao um: crítica literária, sociologia, filologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LITERATURA e Sociedade: Estudos da Teoria e História Literária. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70774/literatura-e-sociedade-estudos-da-teoria-e-historia-literaria>. Acesso em: 18 de Fev. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7