Artigo da seção obras O Ébrio

O Ébrio

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoO Ébrio: 1946 | Gilda Abreu
Filme

Histórico

O Ébrio, dirigido por Gilda Abreu (1904-1979) em 1946, é um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro. Estima-se que tenha sido visto por mais de 12 milhões de pessoas desde seu lançamento. Baseia-se na canção homônima de Vicente Celestino (1894-1968), de 1936, e na peça teatral, de 1942. O filme conta a história de Gilberto Silva (Vicente Celestino), um homem do interior que chega à cidade e, no auge de seu desamparo, é acolhido por um padre. Com garra e talento, Gilberto consegue se recuperar, tornando-se um fenômeno de popularidade como cantor. Forma-se médico, bastante requisitado em sua profissão e, com a vida renovada, casa-se com Marieta – uma enfermeira do hospital em que trabalha. Seus parentes passam a assediá-lo, e ele, cirurgião famoso, diverte-se despistando-os em seus intentos de se aproveitarem da fortuna que fez. Um deles, porém, toma-lhe a mulher e parte de sua fortuna. Deprimido com a traição e morte do pai, Gilberto troca de identidade com um mendigo e entrega-se ao álcool, perambulando pela cidade. Por fim, num encontro inesperado, diz que perdoa a mulher, mas não a aceita de volta: “eu disse que perdoava, mas não disse que reconciliava”.

Trata-se de um melodrama que, por tradição, toca nas questões em pauta na sociedade de modo maniqueísta e moralizador, combinando sentimentalismo, personagens estereotipadas, ação rica em peripécias e vitimização. Em O Ébrio, uma trilha sonora melodiosa (o melos) embala o drama, reforçando a intensidade dos sentimentos. É o que se vê com a canção-tema instrumental, utilizada desde que o protagonista se torna um bêbado, até que, no ápice, ele a cante. 

A sequência de abertura resume a junção das composições de Vicente Celestino com esse gênero cinematográfico1. Os letreiros surgem junto com a música “Porta Aberta”, que antecipa o fim da sequência. Uma série de planos estáticos de Gilberto errante pela cidade é comentada por uma voz off. Com impostação solene, a narração descreve o infortúnio de quem se encontra numa cidade desconhecida, “sem amigos e sem recursos”. Utilizam-se planos fixos de Gilberto caminhando sem direção, mendigando, dormindo em banco de praça até se deparar com a única porta aberta, a entrada de uma igreja. Com a câmera posicionada no altar, vê-se Gilberto entrar, e outra voz off, ainda mais solene, afirma conhecer seus pensamentos. Gilberto encara a imagem do Cristo crucificado e pede ajuda, sendo interrompido pelo padre, que lhe dá abrigo. Esse início melodramático apresenta os procedimentos narrativos desenvolvidos ao longo do filme, como a voz off que comenta de maneira redundante as imagens, a música que envolve a atmosfera rumo ao fracasso e a fixidez dos enquadramentos que afirma a herança teatral em detrimento de uma decupagem clássica.

Os diálogos abusam de construções metafóricas, em tom de prosódia portuguesa ainda em voga no teatro da época – um teatro no estilo do diretor Leopoldo Fróes (1882-1932), com quem Celestino ganha experiência nos palcos, projetando a voz em retórica solene, radiofônica, quase operística. Há ainda, na transposição do palco para a tela, personagens estereotipados. Um apelo visual dos tipos, sem que a interpretação dos atores tenha unidade de registro. Também os gestos e expressões faciais são produto de convenções de gênero e sublinham uma intenção ou ação da personagem em expressão direta dos sentimentos na superfície do corpo. O Ébrio tem todos os ingredientes de um melodrama tradicional: a vítima emociona ao oferecer seu sofrimento, feito de gestos e palavras que evocam a virtude de maneira óbvia, num percurso de peripécias, até o ponto catártico da proclamação de suas intenções. Da mesma forma, o vilão vai encantando o público, à medida que move a trama a cada gesto ou fala sua proclamando suas intenções.

Tudo isto leva o crítico Gray a dizer no ano seguinte à estreia: "Com sucessivas enchentes, superlotadíssimo em todas as sessões, o Coliseu está apresentando O Ébrio. (...) O argumento não encerra a menor dose de espírito, uma nota, sequer, de originalidade. O sentimentalismo – apesar de mal refinado – com que Gilda de Abreu impregnou o filme, capta as suas imensas falhas a benevolência da platéia”2

A postura impiedosa do crítico expõe os excessos do olhar melodramático, sem lugar para sutilezas nem profundidade dramática, apesar da afluência do público. Constituiu-se como referência da cultura popular. Saudando o êxito de público, Marcelo Torres, articulista da revista A Cena Muda, comenta: “Isso mostra que o cinema brasileiro pode ser um excelente negócio, quando filma temas populares, com figuras populares e com o necessário apuro”3.

Quando Gilda Abreu adapta O Ébrio às telas, vale-se da boa acolhida da peça, ainda em 1946. O filme arrebata plateias e torna-se o maior sucesso do cinema brasileiro nos anos 40, superando filmes norte-americanos. O êxito também se deve ao imaginário criado em torno do casal Gilda-Celestino, inseparável na vida e na arte. Atuam juntos em várias operetas de sucesso entre os anos 1930 e 1950, idealizados pelo senso comum, ambos no auge de popularidade. O prestígio de Celestino é conquistado na rádio e nas peças em que atua por mais de 30 anos4, e Gilda vive o clímax de sua popularidade como atriz e cantora5.

O Ébrio dá novo alento à Cinédia e faz com que se invista no modelo de produção industrial norte-americano de filmes para o consumo popular. Adhemar Gonzaga (1901-1978), empresário e produtor da Cinédia, estimula Gilda a adaptar O Ébrio para o cinema, acolhendo o desejo dela de tornar-se diretora e roteirista. O filme seguinte de Gilda de Abreu, Pinguinho de Gente (1949), entretanto, fracassa.

Em 1996, O Ébrio é restaurado e relançado pela Riofilme. O filme é reconstituído quadro a quadro, sendo adicionados 25 minutos outrora cortados. 

Notas

1 O apelo folhetinesco do filme inspira uma telenovela na Rede Globo, exibida entre novembro de 1965 e fevereiro de 1966.

2 GRAY. A Tribuna, Santos, 19 jan. 1947. Apud: GONZAGA, Alice. Cinédia 50 anos. Rio de Janeiro: Record, 1987.

3 TORRES, Marcelo. Coisas de cinema, coisas de teatro. A Cena Muda, n.40, p. 3, 1946.

4 Popularidade que quase não se altera mesmo quando passa a ser atacado pela crítica como “canastrão” (com a modernização do teatro brasileiro, que se dá a partir de 1948, com o surgimento do TBC).

5 Gilda adapta e dirige para o teatro peças baseadas em canções compostas por Vicente, como Ouvindo-te (1936), Matei (1941), Coração Materno (1938) e O Ébrio (1937), todas encenadas com êxito de público.

Ficha Técnica da obra O Ébrio:

Fontes de pesquisa (7)

  • GOMES, Paulo Emilio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
  • ABREU, Gilda de. O Ébrio. Canção teatralizada, 2 atos. Teatro da Juventude, São Paulo, v.8, n.45, p. 63-86, dez.2002.
  • GONZAGA, Alice. 50 anos de Cinédia. Rio de Janeiro: Record, 1987.
  • GUINZBURG, J. et al. Dicionário do teatro brasileiro. São Paulo: Perspectiva: Sesc, 2006.
  • PAVIS, Patrice. Diccionario del teatro. Barcelona: Paidós Comunicación, 1998.
  • TORRES, Marcelo. Coisas de cinema, coisas de teatro. A Cena Muda, n.40, p. 3, 1946.
  • XAVIER, Ismail. O olhar e a cena: melodrama,. Hollywood, cinema novo, Nelson Rodrigues. São. Paulo: Cosac & Naify, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Ébrio. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70150/o-ebrio>. Acesso em: 21 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7