Artigo da seção obras Vento Norte

Vento Norte

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoVento Norte: 1951 | Salomão Scliar
Filme
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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Histórico

Vento Norte, de Salomão Scliar (1925-1991), é o primeiro longa-metragem do diretor. Tem a participação de atores amadores e de pescadores da cidade de Torres, no Rio Grande do Sul. Narra a luta cotidiana de um grupo de pescadores para garantir a sobrevivência1. João [Roberto Bataglin (1926-1994)] é um forasteiro que chega à aldeia e pede abrigo na casa de Antonio (Manoel Macedo), o líder dos pescadores. Desiludido com a vida na cidade e sem destino certo, aproxima-se dos pescadores e fica amigo de Luiza (Patrícia Diniz), cujos pais morreram no mar e que mora na casa de Antonio. A situação dos pescadores é precária e agrava-se com a chegada de um “vento que quando vem, na época da pescaria, afasta o peixe e cria miséria”2, segundo contam os pescadores, que o chamam de vento norte. Para garantir o alimento, Antonio ordena a pesca em alto mar, mesmo com os riscos prenunciados pelas mortes ocorridas nessa situação. A tragédia advém, e alguns pescadores são tragados pela força das águas.

Desorientado com a tragédia e enciumado pela relação de Luiza e João, Antonio impõe a partida deste último. Sem vínculos com a aldeia, João decide partir, e Luiza, apaixonada, vai atrás dele, mas é repelida. Antes de ir embora, João declara-se para Maria (Berta Scliar), mulher de Antonio. Esta o rejeita e ele tenta convencê-la a fugir. Antonio surpreende João, e os dois iniciam uma briga. João vence Antonio, que não resiste e morre. Luiza, em sua paixão desesperada, procura João, mas é rejeitada novamente. Ele continua a fuga, mas exausto e sem rumo, é capturado pelos pescadores. Eles o condenam à morte e decidem enterrá-lo nas dunas até o pescoço. A compaixão de uma velha habitante da aldeia faz com que seja libertado, para continuar sua errância, acompanhado de Luiza.

A sequência inicial ilustra a vontade documental de expor as condições difíceis dos pescadores. Como antecipação da tragédia que se abate sobre eles, a sequência apresenta imagens das dunas, onde o vento ressoa e lança areia contra os homens. Ao lado de uma cruz, João está enterrado, cabisbaixo e o cabelo esvoaçante. À sua volta, pescadores, munidos de pás, observam estáticos. Uma voz over anuncia: “Nesta pequena aldeia de pescadores da costa do mar, os homens enfrentam a luta pela vida, mergulhados nas águas traiçoeiras em busca do peixe que é o pão de cada dia. Aqui eles vivem a sua vida calma, suas tragédias e dramas, amam e odeiam, riem e choram como todos os homens. Esta história nos conta a luta desta gente simples e sincera contra o vento amaldiçoado que desencadeia conflitos e paixões violentas no seio desta pequena aldeia de gente do mar. É a história do vento norte”.

Enquanto a locução destaca a universalidade do drama, vemos os olhos, corpos e rostos dos pescadores, que, como quadros vivos, expõem o peso de suas vidas. Olhos distantes, rostos vincados e corpos curvados exibem certa passividade. Parecem fazer parte da paisagem de maneira física, como se entre os pescadores e a terra houvesse interpenetração. Como elementos que compõem a paisagem, movimentam-se e falam pouco.

O filme confirma Scliar como fotógrafo talentoso. Além da luminosidade da fotografia, há o cuidado na composição dos planos, com muitos primeiros planos e contra-plongée. A escolha dos enquadramentos demonstra a solidez das referências culturais, com conhecimento de certa tradição pictórica de cunho social e de vertentes do cinema que mesclam experiências formais com posicionamento político.

A aldeia raramente é mostrada de maneira ampla, apenas de modo fragmentário, em planos fechados de casas ou mesmo de portas e janelas, causando a sensação de isolamento. A casa de Antonio configura-se como o espaço das decisões, paixões e dos conflitos, onde a violência está presente nas relações cotidianas. Já o vínculo da comunidade com a natureza depende de suas forças, entre as quais se impõe o mar, e intensifica-se com a chegada do forasteiro. A cena da vigília está entre as que evidenciam plasticamente essa relação violenta com a natureza.

O virtuosismo do filme é destacado pela crítica gaúcha. O crítico Aldo Obino (1913-2007), do jornal Correio do Povo, observa: “Em conjunto, o filme tira sua força da ambiência cósmica e dos costumes coletivos, fraquejando a trama psicológica da intriga, sustentando-se numa fotografia incomum”3. Na Folha da Tarde, o crítico Alex Viany (1918-1992) reclama a falta de uma problematização social mais definida. Questiona ele: “[...] deve-se notar que uma grande distância separa o tema da história. O tema é a vida dos pescadores numa colônia perdida nas lindas praias do Rio Grande do Sul, e a influência que sobre ela exerce a presença de um estranho vindo da cidade. A história, por sua vez, cai no erro de pôr o estranho em primeiro plano [...] muito melhor seria se víssemos a vida dos colonos em primeiro plano, e sentíssemos a influência do estranho somente quando refletida na rotina dos pescadores e suas mulheres”.

Os dois críticos discordam quanto à interpretação. Obino aponta um desequilíbrio na atuação dos quatro intérpretes principais, e Viany defende-os. De qualquer forma, os dois, assim como parte da crítica da época, destacam a honestidade profissional e a dedicação que alicerçaram a feitura do primeiro filme da companhia produtora gaúcha Horizonte, para a qual preveem futuro promissor.

Vento Norte tem sua primeira exibição no Rio de Janeiro, no Círculo de Estudos Cinematográficos, organizado por Alex Viany. Em seguida, tem uma sessão no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), no dia 12 de maio. Entra em cartaz em Porto Alegre com três sessões diárias por uma semana, considerado um êxito4. Segue por outras cidades brasileiras até o ano seguinte.

Notas

1 Para uma descrição detalhada da produção e realização do filme cf. PÓVOAS, Glênio Nicola. Vento Norte: história e análise do filme de Salomão Scliar. Porto Alegre: EU: Secretaria Municipal de Cultura, 2002.

2 Depoimento de Salomão em Cinema gaúcho: uma aventura quadro a quadro, documentário dirigido por A.L. Azevedo para a RBS TV, de Porto Alegre, exibido em maio de 1990.

3 OBINO, Aldo. Cinema: em torno do Vento Norte. Correio do Povo, Porto Alegre, 20 maio 1951. p.8.

4 CORREIO do Povo. O êxito de Vento Norte, no Imperial. Correio do Povo, Porto Alegre, 5 jul 1951. Cinema, p. 8.

Ficha Técnica da obra Vento Norte:

Fontes de pesquisa (7)

  • CORREIO do Povo. Avant-première de Vento Norte. Correio do Povo, Porto Alegre, 29 jun. 1951. Cinema, p.8.
  • FABRIS, Mariarosa. Nelson Pereira dos Santos: um olhar neo-realista? São Paulo: Edusp, 1994.
  • MIRANDA, Luis Felipe. Dicionário de cineastas brasileiros. São Paulo: Art Editora, 1990.
  • OBINO, Aldo. Cinema: em torno do Vento Norte. Correio do Povo, Porto Alegre, 20 maio 1951. p.8.
  • PÓVOAS, Glênio Nicola. Vento Norte: história e análise do filme de Salomão Scliar. Porto Alegre: EU: Secretaria Municipal de Cultura, 2002.
  • VENTO NORTE – roteiro de Salomão Scliar. Acervo Salomão Scliar, Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, Porto Alegre. Apud  PÓVOAS, Glênio Nicola. Vento Norte: história e análise do filme de Salomão Scliar. Porto Alegre: EU: Secretaria Municipal de Cultura, 2002.
  • VIANY, A. Vento Norte e a crítica: um pequeno milagre de honestidade. Folha da Tarde, São Paulo, 26  jun. 1951. p.8-9.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VENTO Norte. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70136/vento-norte>. Acesso em: 23 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7