Artigo da seção obras Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos

Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoNós que Aqui Estamos por Vós Esperamos: 1999
Filme

Análise

Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (1999) é um longa-metragem documental dirigido por Marcelo Masagão (1958). O filme é uma antologia audiovisual do século XX, intercalando e sobrepondo imagens de filmes antigos, fotos, reportagens de televisão e de arquivos. O trabalho de montagem, assinado também por Masagão, cria narrativas, simultaneamente, reais e ficcionais, construídas com ausência de depoimentos dos personagens apresentados, sendo as legendas utilizadas como recurso para a locução. Silêncios e efeitos sonoros intercalam-se para a construção da narratividade. A música é assinada por Wim Mertens (1953) com direção musical do próprio diretor.
 
O título Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos refere-se à frase encontrada pelo diretor, no portal do cemitério de Paraibuna, interior de São Paulo1, uma frase proverbial que entrelaça morte e vida, motivo central do filme. Masagão recebe uma bolsa da Fundação MacArthur e, durante três anos, pesquisa acervos de imagens do século XX. Para o diretor, é uma época que manifesta de maneira potencializada o binômio destruição/ criação. De acordo ele, o fato que mais chama a atenção é a banalização da morte e da vida. Masagão passa a visitar cemitérios e imaginar recortes biográficos da vida de pessoas desconhecidas2. Nicolau Sevcenko (1952-2014) - um dos consultores de História do filme, ao lado de Eduardo Valadares - afirma: “com base na história e na psicanálise, Marcelo Masagão compôs um complexo mosaico de memórias do século 20. Seu recurso à justaposição de imagens e sequências fragmentadas, ao invés de uma narrativa contínua e linear, capturou o âmago mesmo desse tempo turbulento”3. Nessa mesma direção, Denise Lopes considera que o estilo compilatório e contemplativo lembra o de “Godfrey Reggio em Koyaanisqatsi e Powaqqatsi - que tem um trecho utilizado no filme - e as disfunções temporais e espaciais de justaposições de frames de um Peter Greenaway, os flashes do século 20 mostrados por Masagão são, no mínimo, um bom momento reflexivo”4.

O som de um Lá tocado em um Piano acompanha a frase “O Historiador é o rei”. Há uma repetição da nota, e o texto que surge é: “Freud a rainha”. Escritas em letras brancas sobre um fundo branco, essas palavras iniciam o filme de Masagão, e apontam as bases nas quais a pesquisa se apoia: a história e a psicanálise. Um filme-memória, como denomina o diretor, em que não há respeito por linearidade temporal, tampouco uso de recursos enciclopédicos, como a apresentação de estatísticas ou o uso de um narrador. A poética construída em Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos ganha singularidade e força com a opção de não incluir um narrador - recurso comum em filmes documentais. Para o diretor, a presença de um locutor traz a ideia de que a realidade precisa do aval da palavra para ser legítima. “O locutor limita e comunica muito pouco e parece querer sistematizar o buraco não compreendido”5.

De acordo com Arlindo Machado (1949), o século XX recuperado pelo diretor, traz um “frescor” não habitual em edições de materiais de arquivo. Para Machado, a maneira como as imagens são associadas evidencia uma montagem espirituosa e inteligente. Estruturado em pequenas unidades de montagem, tal como haicais audiovisuais, tempo e espaço “são comparados, confrontados e explorados em todas as suas possibilidades plásticas, poéticas e conceituais”. Um dos exemplos mais notáveis dessa comparação entre tempo e espaço está na intersecção das imagens do artista estadunidense Fred Astaire (1899-1987) e o do jogador de futebol Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha (1933-1983). A cena inicia-se com a imagem de um cemitério, sobre a qual se lê, os números 1, 2, 3 e 4 acompanhados da palavra “pernas”. Na sequência, as imagens de Astaire e Garrincha são intercaladas pelo som crescente da música, criando uma coreografia de quatro pernas.

Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos é realizado com um orçamento baixo, de 140 mil reais, dos quais 80 mil são utilizados para o pagamento de direitos de imagens. Ganha, entre outros, prêmios de Melhor Filme pelo júri oficial, Melhor Filme pelo Júri popular, Melhor Roteiro e Melhor Montagem no Festival de Cinema Nacional de Recife; Melhor Documentário no Festival Internacional do Uruguai, e Melhor Montagem no Festival de Gramado.

Notas

1 SANTOS, Carlos. Inscrição em portal de cemitério intriga visitantes em Paraibuna, SP.  Portal G1, 2 nov. 2012. Disponível em: < http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2012/11/inscricao-em-portal-de-cemiterio-intriga-visitantes-em-paraibuna-sp.html >. Acesso em: 5 out. 2016.

2 MASAGÃO, Marcelo. Carta de apresentação. s/d. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/apresentacao.htm >. Acesso em: 5 out. 2016.

3 SEVCENKO, Nicolau. Nós que aqui estamos por vós esperamos. São Paulo, 22 dez. 1999. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/txt-nicolau.htm >. Acesso em: 8 out. 2016.

4 LOPES, Denise. O século do homem comum: documentário de Marcelo Masagão mostra personagens anônimos nos tempos da banalização da vida. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 jul. 1999. Caderno B. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/txt-denise.htm >. Acesso em: 8 out. 2016. 

5 MASAGÃO, Marcelo. Carta de apresentação. s/d. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/apresentacao.htm>. Acesso em: 5 out. 2016.

Ficha Técnica da obra Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos:

Fontes de pesquisa (5)

  • LOPES, Denise. O século do homem comum: documentário de Marcelo Masagão mostra personagens anônimos nos tempos da banalização da vida. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 jul. 1999. Caderno B. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/txt-denise.htm >. Acesso em: 8 out. 2016.
  • MACHADO, Arlindo. Esse maravilhoso e repulsivo século. s/d. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/txt-arlindo.htm >. Acesso em: 8 out. 2016.
  • MASAGÃO, Marcelo. Carta de apresentação. s/d. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/apresentacao.htm >. Acesso em: 5 out. 2016.
  • SANTOS, Carlos. Inscrição em portal de cemitério intriga visitantes em Paraibuna, SP.  Portal G1, 2 nov. 2012. Disponível em: < http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2012/11/inscricao-em-portal-de-cemiterio-intriga-visitantes-em-paraibuna-sp.html >. Acesso em: 5 out. 2016.
  • SEVCENKO, Nicolau. Nós que aqui estamos por vós esperamos. São Paulo, 22 dez. 1999. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/filmememoria/txt-nicolau.htm >. Acesso em: 8 out. 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NÓS que Aqui Estamos por Vós Esperamos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70116/nos-que-aqui-estamos-por-vos-esperamos>. Acesso em: 16 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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