Artigo da seção obras Cabeça Dinossauro

Cabeça Dinossauro

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoCabeça Dinossauro: 1986
Obra musical

Análise

Lançado em junho de 1986, Cabeça Dinossauro é o terceiro álbum do grupo Titãs e o primeiro produzido por Liminha (1951). Considerado um dos principais discos brasileiros dos anos 1980 e ponto de inflexão no rock nacional que, naquele mesmo ano, ganha ainda os discos Dois (Legião Urbana), Vivendo e não aprendendo (Ira!) e Rádio Pirata (RPM).

Com letras sintéticas e sonoridades pesadas, menos pop que os anteriores, o disco marca uma virada na trajetória da banda. Ela se afasta do new wave “Sonífera Ilha”, com a qual havia se lançado dois anos antes, para adentrar um universo mais underground. Além de estética, a guinada produzida pelo disco é comercial: um ano após o lançamento, mesmo parcialmente boicotado pelas rádios em virtude de suas letras pouco palatáveis, vende 250 mil cópias - muito mais que os anteriores.

No contexto pós-ditadura, Cabeça Dinossauro desafia a censura vigente, explorando letras com crítica social e de costumes. “Bichos Escrotos”, tocada em shows da banda desde 1982 e conhecida pela escatologia: 

Bichos escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos escrotos
Venham enfeitar
Meu lar
Meu jantar
Meu nobre paladar!, 

tem sua difusão no rádio proibida por conta dos palavrões. Para veicular o videoclipe, a banda substitui o verso “vão se foder” por “vocês vão ver”. “Igreja”, canção polêmica pelo ataque desferido à instituição (“Eu não gosto do papa/ Eu não creio na graça/ Do milagre de Deus”), escapa dos censores. 

As faixas mais politizadas do álbum não sofrem restrições, mesmo as que tecem críticas diretas ao Estado. Polícia, de Tony Bellotto (1960), explora a contradição entre o discurso que legitima a instituição e a arbitrariedade de seus agentes: 

Dizem que ela existe
Prá ajudar!
Dizem que ela existe
Prá proteger!
Eu sei que ela pode
Te parar!
Eu sei que ela pode
Te prender!

A letra tem relação direta com a experiência vivida pelo autor que, meses antes do lançamento do disco, é preso com pequena quantidade de heroína. Pressionado, conta à polícia que a droga lhe fora fornecida por seu companheiro de banda, Arnaldo Antunes (1960), que fica um mês na cadeia e é condenado a três anos de prisão domiciliar. O episódio também inspira “Estado Violência”, de Charles Gavin (1960), que trata da impotência do cidadão diante da imposição da lei: 

Estado violência
Estado hipocrisia
A lei não é minha
A lei que eu não queria.

“Porrada”, de Arnaldo Antunes e Sérgio Britto (1959), denuncia a desigualdade de um país marcado pelo favorecimento de certos grupos e a perseguição de outros:

Medalhinhas para o presidente
Condecorações aos veteranos
Bonificações para os bancários 
Congratulações para os banqueiros
Porrada!
Nos caras que não fazem nada.

O disco, contudo, não reabilita o velho gênero “canção de protesto”. Descrentes da política institucional, como boa parte dos jovens nos anos 1980, os Titãs (todos na casa dos 20 anos) apostam mais na mudança de comportamento e na possibilidade de incitar o pensamento crítico do que na defesa de plataformas políticas. Nesse sentido, outro aspecto do disco é a forte identidade com a juventude, seus receios e aspirações. “Dívidas” (“Meu salário desvalorizou/ Dívidas, juros, dividendos oh, oh, oh”), “Tô Cansado” (“Tô cansado de trabalhar/ Tô cansado de me ferrar/ Tô cansado de me cansar”) e “Homem Primata” (“Você vai morrer/ E não vai pro céu/ É bom aprender/ A vida é cruel”) refletem a falta de perspectiva dos jovens em tempos de crise econômica e esgotamento dos grandes ideais. Já “Comida” (“A gente não quer só comida/ A gente quer comida, diversão e arte”) critica a velha crença das esquerdas de que as demandas sociais se resolvem no plano material e mostra uma juventude desejosa de mudanças.

O tema geral do disco, que dá unidade a todas as faixas, é a oposição entre civilização e barbárie, expressa no título: de um lado a racionalidade (cabeça), que promove novas ideias, mas cria instituições violentas e injustas; de outro, o primitivismo (dinossauro), que pode ser libertador (como nas sonoridades do rock), mas também violento. 

O embrutecimento do homem civilizado aparece nas canções “AAUU” (“Está na hora de acordar/Está na hora de deitar/Está na hora de almoçar/Está na hora de jantar”) e “Homem Primata”:

Eu não trabalhava
Eu não sabia
Que o homem criava
E também destruía
Homem primata
Capitalismo selvagem.

Considerado um “álbum conceitual” ou “manifesto”, o disco possui unidade, que vai da capa (uma das primeiras do rock nacional a não ter foto de artista, apresentando um desenho de Leonardo da Vinci) aos arranjos, passando pelas fotos internas dos integrantes (retratos em preto-e-branco sombreados que remetem aos Beatles). 

Do ponto de vista musical, o disco reforça a influência punk da banda, até então presente apenas em “Massacre”, no segundo álbum, Televisão (1985). Canções como “A Face do Destruidor” e a faixa título, inspirada num canto de índios do Xingu e dotada de apenas três versos (“Cabeça dinossauro/ Pança de mamute/ Espírito de porco”) trazem um canto gritado que foge tradição do rock e da própria MPB. A ele se somam guitarras distorcidas e bateria preparada (montada diretamente no chão de pedra do estúdio, com a pele do bumbo meio frouxa para acentuar as distorções), que reforçam as sonoridades primitivas. Notam-se ainda no disco influências do soul (na conceitual “O quê”) e do reggae (“Família”). 

Em 2012, durante as comemorações dos 30 anos da banda, o disco é regravado em CD e DVD num show ao vivo, respeitando a ordem das 12 faixas originais. Letras e sonoridades permanecem atuais, pois as canções são usadas em diferentes contextos, de manifestações de rua (onde “Polícia” é ouvida com grande frequência) a programas de TV.

Ficha Técnica da obra Cabeça Dinossauro:

  • Data de lançamento
    • 1986
  • Autores

Fontes de pesquisa (5)

  • ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2002.
  • DAPIEVE, Arthur. Brock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
  • GONÇALVES, Marcos Augusto. Dinossauro na cabeça. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 jun. 1986. Ilustrada. p. 48
  • NANINI, Lucas. “Faltava barulho na música brasileira”, dizem Titãs sobre Cabeça dinossauro. Portal G1, 26 jun. 2016. Disponível em: < g1.globo.com/distrito-federal/musica/noticia/2016/06/faltava-barulho-na-musica-brasileira-dizem-titas-sobre-cabeca-dinossauro.html >. Acesso em: 20 out. 2016.
  • VILLAS, Alberto. Cabeça de Titãs. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 jun. 1986. Caderno 2. p. 1

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CABEÇA Dinossauro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70100/cabeca-dinossauro>. Acesso em: 13 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7