Artigo da seção obras Igreja de São Francisco de Assis (São João del-Rei, MG)

Igreja de São Francisco de Assis (São João del-Rei, MG)

Artigo da seção obras
 
Data de criaçãoIgreja de São Francisco de Assis (São João del-Rei, MG): 1774 Local de criação: (Brasil / Minas Gerais / São João del Rei)

Histórico

A igreja de São Francisco de Assis, na cidade de São João del-Rei, em Minas Gerais, tem os primeiros registros de sua construção no ano de 1774. A ata inicial da Ordem Terceira dos Franciscanos de São João del-Rei1 (responsável pela edificação do templo) não contém a informação de quem faz o projeto. O fato é revelado em um texto de Joaquim José da Silva, vereador da cidade de Mariana, que afirma ser Antônio Francisco Lisboa, dito Aleijadinho (1730-1814), o autor do risco original.

Os desenhos da igreja franciscana - especialmente os do frontispício - são raro registro do projeto inicial do grande artista do Brasil colônia. Permanecem íntegros e fazem parte do acervo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Por esses registros, verifica-se as diferenças entre a proposta original de Aleijadinho e a edificação executada pelo responsável pela arrematação da encomenda, o arquiteto e construtor Francisco de Lima Cerqueira (1728-1808).

A historiadora Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira esclarece o assunto: 

Aleijadinho, arquiteto e escultor, nunca foi construtor, nem procedia a arrematações, trabalhando geralmente em regime de ajuste direto com a irmandade-cliente ou subcontrato com o mestre-de-obras para a execução de esculturas ornamentais com riscos na maioria das vezes de sua própria autoria. No caso dos projetos arquitetônicos, vimos que as modificações eram um processo habitual, nada tendo portanto de extraordinário o fato do mestre-de-obras e também arquiteto Francisco de Lima Cerqueira modificar o risco original da igreja da Ordem Terceira de São Francisco de São João del-Rei ao longo do processo construtivo da igreja2.

Do risco original do frontispício, mantêm-se certas características do frontão, o óculo circular central e as seteiras. As torres circulares e o emolduramento em pedra-sabão da portada são decisões de Lima Cerqueira. Os brasões, o medalhão da Virgem Maria, a fita e os serafins também não constam no desenho original de Aleijadinho. Tal fato origina décadas querelas interpretativas, como explicita o arquiteto Lucio Costa (1902-1998)

Cioso de sua técnica e obstinado de opinião, faltava ao mestre Francisco de Lima [Cerqueira], segundo parece, a indispensável docilidade para sujeitar-se passivamente à supervisão de um arquiteto, muito menos de um arquiteto com personalidade forte e impulsiva e de “gênio agastado”, como teria sido Antônio Francisco Lisboa3

Em contraposição, Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira escreve sobre a importância de Lima Cerqueira na excepcionalidade da igreja de São Francisco, defendendo a separação entre o risco original e o edifício construído: 

O extraordinário, a nosso ver, é que a amplitude dessas modificações tenha tido como resultado final uma obra de tamanha qualidade, produzida pela sensibilidade e perícia técnica de Lima Cerqueira, e devendo em consequência ser avaliada em seus valores próprios e não comparativamente a um projeto inicial não obedecido, como até hoje se fez4.

A planta da igreja de São Francisco de Assis contém características peculiares, como o historiador francês Germain Bazin (1901-1990) pontua: 

Esse risco mostra o resultado da evolução para o rococó. Antônio Francisco Lisboa enfatiza a elegância do risco de uma forma quase “maneirista”, pelo considerável alongamento da capela-mor e pela supressão dos corredores, tanto na capela-mor quanto no corpo da igreja; neste, ele adota a forma elíptica, mas contracurvada em forma de besta. As torres se alinham vigorosamente fora da construção, como em São Francisco e no Carmo de Ouro Preto5.

No interior da igreja, percebe-se que as talhas de madeira restringem-se aos altares, diferentemente de placas que revestem colunas estruturais e paredes inteiras, como em igrejas barrocas anteriores no Rio de Janeiro e Salvador. Esta tendência mineira (e da região do Minho-Douro, no norte de Portugal) está em consonância com o rococó: a profusa ornamentação de rocalhas [rocaille] amainada pelo fundo branco.

Documentos de 1781 revelam que a contratante (Ordem Terceira dos Franciscanos de São João del-Rei) exige que o contratado (Francisco de Lima Cerqueira) vá até Antônio Francisco Lisboa para também solicitar o risco da capela-mor da igreja. A execução fica a cargo do entalhador Luís Pinheiro de Souza. Alguns autores6 salientam as diferenças estilísticas em relação ao conjunto da obra de Aleijadinho e a outros trabalhos de Luís Pinheiro, abrindo a hipótese da intervenção de Francisco de Lima Cerqueira nesta talha, em especial nas colunas salomônicas (de forma espiralada e retorcida), próprias de um período barroco ultrapassado em fins do século XVIII.

Diferenciando-se do altar-mor pela ausência de folheamento em ouro, a nave e o cruzeiro contêm seis altares (há de se incluir também nesta avaliação os púlpitos), nos quais a influência do Aleijadinho é notável. Os altares em devoção a São Francisco e a São Luís, posicionados sob o arco-cruzeiro, provavelmente são executados pela própria oficina de Aleijadinho, pelas especificidades das colunas em madeira, da sanefa, do coroamento dos altares, e a morfologia dos serafins.7 Por sua vez, os dois altares a São Pedro de Alcântara e a Santa Lúcia e Santa Bona são derivações diretas do risco dos dois altares no arco-cruzeiro. Somente os altares mais próximos à porta frontal de acesso, destinados a São Francisco e a Santa Margarida de Cortona, contêm características distintas. De modo geral, estes seis altares laterais hoje têm sua madeira aparente, após várias décadas em que estiveram pintadas em branco.

A decoração e o revestimento do forro da nave também são austeros: quase totalmente em branco, somente com as arquitraves, os frisos e cornijas com uma pintura simulando mármore e o medalhão central de onde parte a luminária.

A construção da igreja de São Francisco de Assis é concluída cerca de 1810.

Notas

1 Ordens Terceiras são associações de leigos em prol da devoção a determinados santos. Costumam estar próximas as Ordens Primeiras - comumente os franciscanos, os beneditinos e os carmelitas - constituídas exclusivamente por membros do clero.

2 OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p.224.

3 COSTA, Lucio. A arquitetura de Antônio Francisco Lisboa tal como revelada no risco original de 1774 para a capela franciscana de São João del-Rei. In.: Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995. p.546.

4 OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de, op.cit., pp. 224, 225.

5 BAZIN, Germain. A Arquitetura religiosa barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1956. v.2. p.225.

6 COSTA, Lucio, op.cit., p.546; OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de, op.cit., p. 261; BAZIN, Germain, op.cit., p. 352.

7 BAZIN, Germain, op.cit., p. 359.

Ficha Técnica da obra Igreja de São Francisco de Assis (São João del-Rei, MG):

  • Data de criação
    • 1774

Fontes de pesquisa (6)

  • BAZIN, Germain. A Arquitetura religiosa barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1956. 2v.
  • COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995.
  • LIMA DE TOLEDO, Benedito. Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. Cotia: Ateliê Editorial, 2012.
  • OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 
  • TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.
  • ZANINI, Walter (Org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles, 1983.

Como citar?

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  • IGREJA de São Francisco de Assis (São João del-Rei, MG). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70096/igreja-de-sao-francisco-de-assis-sao-joao-del-rei-mg>. Acesso em: 20 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7