Artigo da seção obras Casa Bandeirista

Casa Bandeirista

Artigo da seção obras
 

Histórico

Casa bandeirista é o nome dado às habitações do início da ocupação do estado de São Paulo no período colonial. Esses exemplos seminais da arquitetura civil paulista surgem nos primeiros povoamentos no século XVI, predominando no território até o período da construção das ferrovias, no século XIX. Por cerca de 250 anos, essas casas térreas não sofrem grandes modificações construtivas e espaciais. São compostas por uma forma regular de paralelepípedo, com a reentrância de um alpendre e pequenas aberturas (janelas); telhado de quatro águas com amplos beirais; distribuição de aposentos divididos por grossas paredes; e técnica construtiva com o uso da taipa de pilão. Poucas casas bandeiristas estão preservadas nos dias atuais. Na cidade de São Paulo há, por exemplo, a Casa do Butantã, do Itaim-Bibi, do Caxingui (ou Casa do Sertanista), do Jabaquara, de Santana, de Santo Amaro e do Tatuapé. Além delas, existem outros exemplares nos municípios de Embu, Cotia, São Roque e Sorocaba.

As casas bandeiristas tornam-se objeto de estudo com a fundação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), em 1937, sob a presidência do intelectual Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969). No início, a delegacia regional dessa autarquia no estado de São Paulo tem o poeta Mário de Andrade (1893-1945) como diretor. Documentos trocados entre os dois dirigentes do Sphan apresentam as análises iniciais das casas bandeiristas, denominadas “casas velhas”1. O valor atribuído a elas associa-se a sua antiguidade. Embora tenham valor artístico ou construtivo, eles ainda não são reconhecidos naquele momento. O interesse pelas “casas velhas” dá-se por serem construções coloniais, feitas com escassez de recursos, sem as influências neoclássica ou eclética. Essas influências são desprezadas pela concepção intelectual, em curso na década de 1930, de um Brasil moderno.

Cabe ao engenheiro-arquiteto Luís Saia (1911-1975) - de início, assistente técnico de Mário de Andrade - desenvolver a pesquisa acerca das casas bandeiristas. O que faz, primeiramente, no artigo “Notas sobre a Arquitetura Rural Paulista do Segundo Século”. A arquiteta Lia Mayumi sintetiza as características comuns às casas rurais de São Paulo, apresentadas por Luís Saia: 

a planta retangular; paredes de taipa de pilão; telhado de quatro águas e coberturas com telhas de canal; implantação sobre plataforma natural ou artificial, à meia encosta, nas proximidades de um riacho; planta organizada em três faixas – social, familiar, de serviço, a partir da fachada principal; depósito ou sobrado, aproveitando a acentuada inclinação do telhado; alpendre encravado na fachada principal, entre dois cômodos onde funcionariam uma capela e um dormitório para hóspedes2.

A nomenclatura “casa bandeirista” aparece no segundo artigo de Saia, denominado “A Casa Bandeirista - uma Interpretação”. O texto é publicado em 1955, sobre a Casa do Butantã, cuja restauração é feita no ano anterior por ocasião das comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

Há de se anotar que, no período dos bandeirantes, a sociedade é mestiça: portugueses colonizadores e índios casam entre si, reúnem e mesclam línguas e hábitos. Isso influencia a conformação da casa – uma combinação do espaço da oca indígena com a concepção construtiva de moradias europeias3, como pontua o arquiteto Julio Roberto Katinsky (1932). Outros autores, como Luís Saia4 e o arquiteto e historiador Carlos Lemos5 (1925), aventam a possibilidade de a configuração da planta das casas bandeiristas ser influenciada pelas vilas do arquiteto italiano Andrea Palladio (1508-1580). Por sua vez, a crítica de arte Aracy Amaral6 (1930) sugere influência espanhola nessas casas, por conta de argumentos históricos da ocupação por colonos ibéricos e de características análogas de construções dos mesmos séculos na América espanhola.

Devido ao pouco que perdura das casas bandeiristas, é difícil apreender a constituição física delas na integridade. A partir da leitura da documentação da época colonial, Carlos Lemos caracteriza-as da seguinte forma: 

A casa bandeirista da roça era uma casa pulverizada, toda fraccionada em inúmeras construções-satélites do núcleo familiar, cada qual com sua espacialidade. Um partido “aberto”. Ao lado da casa principal de moradia propriamente dita, como os documentos descrevem com minúcias, ficavam o telheiro da cozinha geral; os quartos para agasalho dos criados subalternos dos hóspedes importantes, sobretudo tropeiros e arrieiros; os depósitos de gêneros, os paióis, o moinho de trigo ou milho, a casa de fazer farinha, [...] o galinheiro, o curral de tirar leite, a moenda de fazer garapa para a rapadura e para a cachaça e o pomar cheio de “árvores de espinho” [cítricos em geral], de bananeiras, marmeleiros e parreiras. Tudo isso protegido por valados, por cercas de madeira ou por muros de taipa. E não nos esqueçamos das casas dos “negros”, como eram chamados os índios escravizados ou “administrados”. [...] Deviam ser construções extremamente rústicas. A palavra senzala aparece raramente, e assim mesmo só no século XVIII. Essa fragmentação em esparsas edículas à volta da casa está mais para a sistemática indígena do que para a tradição europeia, ou melhor, ibérica7.

Essa fragmentada casa descrita acima é o alicerce de uma sociedade baseada na produção agrícola. As grandes distâncias separando as casas justificam-se por uma espécie de pacto comunitário entre os bandeirantes: viajantes que desbravam as matas nativas, encontrando pouso e acolhimento com os moradores das casas bandeiristas.

Notas

1 ANDRADE, Mário de. Cartas de trabalho. apud. MAYUMI, Lia. Taipa, canela-preta e concreto: estudo sobre o restauro de casas bandeiristas. São Paulo: Romano Guerra, 2008. p. 23.

2 MAYUMI, Lia, op. cit., p.30.

3 KATINSKY, Julio Roberto. Casas bandeiristas: nascimento e reconhecimento da arte em São Paulo. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1973.

4 SAIA, Luis. “Roteiro dos monumentos históricos e artísticos de São Paulo”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá/Bertioga, São Paulo, n. 11, 1978.

5 LEMOS, Carlos A. C. Casa Paulista: história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café. São Paulo: Edusp, 1999. p.47.

6 AMARAL, Aracy. A hispanidade em São Paulo. São Paulo: Nobel, 1981.

7 LEMOS, Carlos A. C., op. cit., p. 29.

Fontes de pesquisa (10)

  • AMARAL, Aracy. A hispanidade em São Paulo. São Paulo: Nobel, 1981.
  • CASAS Bandeiristas - Arquitetura colonial paulista. Concepção e projeto Dalton Sala; Design Tiago Alcovér Sala. Disponível em: < www.casasbandeiristas.com.br >. Acesso em: 5 set. 2016. 
  • KATINSKY, Julio Roberto. Casas bandeiristas: nascimento e reconhecimento da arte em São Paulo. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1973.
  • LEMOS, Carlos A. C. Casa Paulista: história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café. São Paulo: Edusp, 1999.
  • LIMA DE TOLEDO, Benedito. Esplendor do barroco luso-brasileiro. Cotia: Ateliê Editorial, 2012.
  • MAYUMI, Lia. Taipa, canela-preta e concreto: estudo sobre o restauro de casas bandeiristas. São Paulo: Romano Guerra, 2008.
  • SAIA, Luis. “A casa bandeirista - uma interpretação”. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1955.
  • SAIA, Luis. “A casa bandeirista”. Habitat, São Paulo, n. 25, dez. 1955.
  • SAIA, Luis. “Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século”. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 8, 1944. p. 211-275
  • SAIA, Luis. “Roteiro dos monumentos históricos e artísticos de São Paulo”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Guarujá/Bertioga, São Paulo, n. 11, 1978.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CASA Bandeirista. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69893/casa-bandeirista>. Acesso em: 19 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7