Artigo da seção obras I-Juca Pirama

I-Juca Pirama

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoI-Juca Pirama: 1851 | Gonçalves Dias
Livro

Análise

Publicado em 1851, o poema narrativo “I-Juca-Pirama” é considerado a obra-prima do poeta Gonçalves Dias (1823-1864) e integra sua última coletânea de versos, o livro Últimos Cantos.

Dividido em dez cantos, o poema é o terceiro na seção “Poesias americanas”, título que reúne poemas de temática indianista. “I-Juca-Pirama” narra o caso de um guerreiro tupi que cai prisioneiro de timbiras e, em respeito a rituais antropofágicos, será sacrificado. “I-Juca-Pirama” significa, em língua tupi, “Aquele que deve morrer” e descreve, portanto, a situação do guerreiro. Segue-se a cena em que o guerreiro é preparado por mulheres da aldeia para conhecer seu destino (Canto I). Depois disso, o jovem tupi, é instado pelo chefe local a dizer sua procedência e seus feitos de guerreiro (III), que seriam incorporados por aqueles que o comessem. O “canto de morte” do tupi (IV) expõe sua história de bravuras. Ao se lembrar do pai cego e sozinho, entretanto, chora e pede aos maiores da tribo para que o deixem viver. O chefe liberta o tupi (V) sob alegação de covardia: um guerreiro que chora diante do próprio sacrifício não é digno do ritual, sob o risco de contaminar a coragem guerreira da tribo inimiga. O tupi parte em busca do pai e, encontrando-o (VI), conta-lhe o ocorrido. O pai, leva-o de volta aos timbiras e sucede, então, o discurso dele contra o filho (VIII), negando a este qualquer dignidade sobre a terra. Para provar a própria coragem, o filho lança um grito de guerra (IX) e investe contra a tribo rival. O gesto do guerreiro ganha o respeito dos timbiras, e o rito inicia-se. O poema termina com a moldura da fala de um velho timbira (X), testemunha dos acontecimentos, que conta o caso de valentia aos mais jovens.

A estrutura do poema de Gonçalves Dias demonstra equilíbrio entre a liberdade formal romântica e o apuro técnico, estilo de composição do poeta. Dias alterna formas tradicionais da versificação em língua portuguesa – em especial o decassílabo e as redondilhas maior e menor –, sempre cônscio dos usos consagrados pela tradição. Assim, todas as seções narrativas do poema (I, III, V, VI e IX) são compostas em versos mais longos, de dez sílabas (“No meio das tabas de amenos verdores”, I). Já os cantos dedicados à fala dos protagonistas (o guerreiro no Canto IV, e o pai nos cantos VII e VIII) são construídos sob formas métricas pontuais, cujo ritmo empresta densidade particular às exposições de ambos. As redondilhas menores conferem ritmo ágil aos cantos do jovem prisioneiro, que relata seus feitos (“Meu canto de morte/ guerreiros ouvi”). 

No caso das intervenções do velho pai, identificam-se as redondilhas maiores do canto VII, em que se dirige aos inimigos (“Por amor de um triste velho/ que ao termo fatal já chega”), e os eneassílabos (nove sílabas) de sua explosão de desespero diante da suposta covardia do filho (“Tu choraste em presença da morte?”, VIII). 

Gonçalves Dias também se destaca pela inovação estrófica e a combinação de unidades rítmicas, como ocorre nos cantos II e X. O primeiro, de quadras formadas em dísticos de dez e quatro sílabas; e o segundo, sextilhas com redondilhas em versos longos (hendecassílabos) e curtos (redondilhas menores). Assim, o poeta explora a técnica, própria a um escritor de formação clássica, para ampliar o efeito e a emoção característica do romantismo.

Manuel Bandeira (1886-1968) pondera que, embora não tenha sido o introdutor da figura do índio na literatura brasileira, Gonçalves Dias “soube [...], como ninguém antes ou depois dele, insuflar vida no tema tão caro ao sentimento nacional da época”1. O comentário de Bandeira é corroborado pelo fato de Gonçalves Dias demonstrar maior apuro formal em relação a seu antecessor imediato, Gonçalves de Magalhães (1811-1882), e pelo tempero antropológico que traz à imagem idealizada do índio, predominante na escola indianista. Segundo Alfredo Bosi (1936) 2, combinam-se no poema o romântico “mito do bom selvagem” e o interesse etnográfico de Dias. A postura científica do poeta se faz notar pelo cuidado terminológico nas descrições da vida nativa e pelo enfoque dado à antropofagia, como elemento vivo e legítimo da cultura indígena. Embora se possa argumentar que a estruturação épico-dramática do poema seja índice de uma concepção ocidental da figura do índio, é preciso ressaltar a ausência de juízo cristão nos ritos descritos no poema. Tal postura marca uma ruptura com os modelos indianistas tradicionais.

Embora pouco representativo do conjunto de obras do poeta de “Canção do Exílio”, em geral marcadas pelos temas românticos comuns à poesia europeia, “I-Juca Pirama” demonstra a excelência técnica de Gonçalves Dias como poeta e a posição central na literatura indianista. Sua concepção narrativa e intelectual colabora com a construção de uma literatura nacional autônoma no tocante a seus temas.

Notas

1 BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosac & Naify, 2008. p. 60.

2 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 32. ed. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 105.

Ficha Técnica da obra I-Juca Pirama:

  • Data de publicação
    • 1851
  • Autores
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (3)

  • BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosac & Naify, 2008.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 32. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1994.
  • DIAS, Gonçalves. Cantos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • I-JUCA Pirama. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69869/i-juca-pirama>. Acesso em: 20 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7