Artigo da seção obras Terra Estrangeira

Terra Estrangeira

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoTerra Estrangeira: 1995 | Walter Salles / Daniela Thomas
Filme

Terra Estrangeira é a segunda realização ficcional de Walter Salles (1956) e primeiro longa-metragem codirigido com Daniela Thomas (1959). Fotografada em preto e branco por Walter Carvalho (1947), a obra é filmada em três países de continentes diferentes: Brasil, Portugal e Cabo Verde. O filme dialoga com um momento importante da história contemporânea do país e do cinema nacional. Em 1990, o Brasil atravessa uma complexa crise econômica, e o presidente Fernando Collor de Melo (1949) decide extinguir a Embrafilme, empresa estatal responsável pelo fomento de produção e pela distribuição de filmes nacionais. Terra Estrangeira representa uma das mais bem-sucedidas realizações, no plano estético, do “cinema da retomada”.

Paco, protagonizado por Fernando Alves Pinto (1969), deseja ser ator de teatro. Sua mãe Manuela, vivida por Laura Cardoso (1927), sonha visitar San Sebastián, sua cidade natal na Espanha. Os dois vivem em um apartamento no centro de São Paulo, ao lado do elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão. Os sonhos de ambos são interrompidos pelo Plano Collor: uma das medidas da reforma econômica é o confisco da poupança dos brasileiros. Ao ver a notícia divulgada pela TV, Manuela não resiste ao choque e morre.

Após a morte da mãe, Paco é recusado em um teste de teatro. Sentindo-se perdido, decide viajar a San Sebastián para resgatar a própria história. Conhece Igor [Luís Melo (1957)], que lhe oferece a oportunidade de chegar à Europa, sob condição de praticar contrabando. O rapaz parte para Portugal, onde deve encontrar Miguel [Alexandre Borges (1966)], e entregar-lhe a encomenda. Em Portugal, a brasileira Alex [Fernanda Torres (1966)], sente-se igualmente deslocada. Ela namora Miguel [Alexandre Borges], mas não suporta as atividades ilegais do companheiro. O envolvimento com traficantes cruza os destinos de Paco e Alex e conduz os dois jovens a uma espiral crescente de violência e desengano.

Segundo a crítica Lúcia Nagib (1956), a desesperança dessas personagens retrata o momento da vida nacional: em profunda crise econômica, o Brasil vira um “país de emigrantes e o mar, um dia atravessado pelos descobridores portugueses, conduz à derrota e à morte em lugar do esperado paraíso”1. O desenraizamento e a ausência de perspectivas são os temas centrais da narrativa. Segundo Nagib, Terra Estrangeira filia-se a uma tendência dos anos 1970 que tem no cinema do alemão Wim Wenders (1945) um de seus melhores representantes2. Esse ponto de vista é compartilhado pela pesquisadora portuguesa Alexandra Pinho, para quem o filme trata da dispersão de pessoas no mundo, em busca de vida melhor, mas que se sentem deslocadas em terras estrangeiras.

Essa condição é representada na sequência final do filme: em tomada aérea, a câmera afasta-se gradualmente do carro, na última fuga do casal para a fronteira de Portugal e Espanha. Quanto mais a câmera sobe, mais os personagens diluem-se na paisagem, até não serem mais identificáveis. Essa dispersão visual simboliza a ausência de sentido nas vidas de Paco e Alex3.

Outra sequência representativa é o encontro dos protagonistas em frente a um velho navio encalhado na praia. A cena acontece depois de um raro momento de felicidade do casal: no percurso de fuga, os dois fazem amor no carro. Ao amanhecer, Alex procura pelo companheiro e o encontra observando um navio encalhado na praia. A câmera aproxima o espectador do casal, que se beija à esquerda do quadro. À direita da tela, o velho navio, abandonado e corroído pelo tempo, espelha a condição melancólica de deriva e abandono dos personagens. Na sequência, Paco compara a embarcação com “uma baleia que veio morrer na praia”; Alex sugere que eles fiquem encalhados onde estão, como o navio. A música de José Miguel Wisnik (1948) pontua a cena, acompanhada pelo ruído das ondas do mar, enquanto os jovens abraçam-se com intensidade.

Um novo plano mostra as águas tocando a areia. A sombra de Alex surge no quadro e, em seguida, seus pés, caminhando sobre a areia. O perfil da personagem em close-up retrata um rosto tomado pela felicidade. No plano de fundo, permanece a velha embarcação. Nesse momento, o mundo parece cheio de esperanças para os dois. Eles deixam o passado e caminham em direção às promessas do outro lado da fronteira. No entanto, o velho barco encalhado é prenúncio da odisseia fracassada de Paco e Alex.

O crítico Leon Cakoff (1948-2011) afirma:

Terra Estrangeira é um dos melhores filmes do ano. Não importa a sua nacionalidade. Ele é da terra dos que perdem raízes e rumos. O filme revela, com extrema sensibilidade, dois momentos de adaptação em terras estrangeiras: dos que renegam origens na juventude e dos que se apegam a elas, com obsessão mortal, na velhice. A origem das duas atitudes está no desconforto da decadência e da resignação. A brasilidade do filme é evidente. Mas, como os seus personagens, dispensa passaportes4.

O filme conquista diversos prêmios nacionais e estrangeiros. Em 1995, o Grande Prêmio do Público no Paris International Film Forum, na França; o Troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte (Apca) de Melhor Filme, em São Paulo; Melhor Filme no Festival de Gramado (1995), no Rio Grande do Sul. Em 1996, recebe o Margarida de Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no Rio de Janeiro; Grande Prêmio de Público no Festival de Bérgamo, na Itália; e Melhor Roteiro no Festival de Providence, nos Estados Unidos.

Ficha Técnica da obra Terra Estrangeira:

Fontes de pesquisa (18)

  • NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. Coordenação editorial Maria Helena Arrigucci; prefácio Davi Arrigucci Junior. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. 216 p., il. p&b. ISBN 85-7503-557-6. 
  • NAGIB, Lúcia. O Cinema da Retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • REZENDE, Marcelo. “Terra Estrangeira” reforça estigma do exílio na obra de Walter Salles. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 nov. 1995. Ilustrada, p. 5.
  • THOMAS, Daniela; SALLES Jr., Walter; BERNSTEIN, Marcos. Terra Estrangeira: roteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
  • AVELLAR, José Carlos. Pai, país, mãe, pátria. Cinemais, Rio de Janeiro, n. 33, p. 55-85, 2003.
  • CAKOFF, Leon. ‘Terra Estrangeira’ exige comemoração. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 dez. 1995. Ilustrada. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/12/15/ilustrada/26.html > Acesso em: 10 fev. 2017.
  • CARVALHO, Walter. Terra Estrangeira. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.
  • FREIRE, Janaína Cordeiro. Identidade e exílio em Terra Estrangeira. São Paulo: Annablume, 2009.
  • GABEIRA, Fernando. Filme traz história de pessoas se afundando. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 nov. 1995. Ilustrada, p. 5.
  • KIELING, Cesar Eduardo. Utopia e identidade em Terra Estrangeira. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Produção é um road movie noir. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 24 nov. 1995. Caderno 2, p. D-2
  • MERTEN, Luiz Carlos. “Terra Estrangeira” realiza a viagem de volta. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 24 nov. 1995. Caderno 2, p. D-2.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema Novo de novo. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
  • OTTONE, Giovanni. O renascimento do cinema brasileiro nos anos 1990. Alceu – Revista de Comunicação, Cultura e Política. v. 8, n. 15, p. 271-296, jul./ dez. 2007.
  • PINHO, Alexandra. Em busca de abrigo: o exílio em Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas. Navegações – Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa, v.5, n. 1, p. 88-93, jan./ jun. 2012.
  • RODRIGUES, Marco Antonio. Mobilidade precária em Terra Estrangeira e em Estive em Lisboa e lembrei de você. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n.39, p. 181-192, jan./ jun. 2012.
  • STRECKER, Marcos. Na estrada: o cinema de Walter Salles. São Paulo: Publifolha, 2010.
  • XAVIER, Ismail. Brazilian cinema in the 1990s: the unexpected encounter and the resentful character. In: NAGIB, Lúcia. The new Brazilian cinema. London: I.B. Tauris, 2003. p. 39-63.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TERRA Estrangeira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69302/terra-estrangeira>. Acesso em: 18 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7