Artigo da seção obras Águas de Março

Águas de Março

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoÁguas de Março: 1972 | Tom Jobim
Obra musical

Histórico

Em 1972, Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994) se refugia em seu sítio de Poço Fundo, na região serrana do Rio de Janeiro, para concluir Matita Perê, uma “suíte mateira”, de acordo com a definição do autor. Mesmo beneficiado pelo sossego e beleza do lugar, onde já criara músicas como Chega de Saudade, Chovendo na Roseira e Dindi, Jobim encontra dificuldade para terminar a nova obra.

Subitamente, durante uma pausa no trabalho, um outro tema surge enquanto o compositor dedilha o violão. Junto com a melodia, ele começa a cantarolar os primeiros versos da canção. Teresa, sua mulher, elogia a música, e Jobim com uma caneta e papel de embrulho de pão escreve as ideias iniciais de Águas de Março.1

O samba chega ao público no mesmo ano, de maneira também inusitada: num compacto simples vendido em bancas de jornal, encartado no semanário O Pasquim. A série Disco de Bolso, novidade idealizada pelo compositor Sérgio Ricardo (1932), busca unir em um mesmo álbum músicas de dois artistas, um consagrado e outro iniciante. Na edição inaugural, Águas de Março e Agnus Sei, parceria de João Bosco (1946) e Aldir Blanc (1946).

Na primeira gravação da música, feita na Semana Santa de 1972, no estúdio de Jorge Karan, em Botafogo, os vocais são de Jobim, com acompanhamento de cinco flautistas: Bebeto, do Tamba Trio, Paulo Jobim e seu amigo Paulo Guimarães, Franklin, músico da banda de Baden Powell (1937-2000), e Ratto, integrante da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal – mais Novelli (contrabaixo), João Palma (1943) (percussão) e Eduardo Athayde (violão).

No encarte do compacto, Jobim revela que buscou o título da canção no poema O Caçador de Esmeraldas, do parnasiano Olavo Bilac (1865 - 1918): "Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada / Do outono, quando a terra, em sede requeimada / Bebera longamente as águas da estação / Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata / À frente dos peões, filhos da rude mata / Fernão Dias Paes Leme entrou no sertão". No momento da criação de Águas de Março, Jobim também estava impregnado das leituras de João Guimarães Rosa (1908 - 1967), Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) e Mário Palmério (1916 - 1996), autores que o inspiram em Matita Perê e aos quais esta canção é dedicada. Essas duas obras marcam uma maior aproximação do compositor aos temas ecológicos.

Trechos da letra de Águas de Março fazem referência direta ao sítio de Poço Fundo. Na época da criação da música, Jobim e a esposa se hospedam numa casinha de pau a pique, apelidada de Barraco nº 2, enquanto a casa maior é construída. Daí as menções ao "projeto da casa" e ao "tijolo chegando".

Na edição de 20 de março de 1973 do jornal Última Hora, a escritora Rachel de Queiroz (1910 - 2003) dedica uma crônica à canção, descrevendo-a como “coisa bela e estranha, dura; fere o coração com um toque de pedra e depois o afoga na cheia das águas. Promete e recorda, memória de infância e angústias da força do homem”. Chico Buarque (1944), por sua vez, sentencia: “É o samba mais bonito do mundo”.

A letra escrita por Jobim, com versos que alternam pessimismo e otimismo, torna-se objeto frequente de análise. “A cada estrofe, a cada verso busca-se um equilíbrio entre extremos”, diz o crítico Augusto Massi. Já seu colega Arthur Nestrovski destaca que prevalece na canção o verbo ser, conjugado na terceira pessoa. “Tudo é, nada faz. Um ou outro fazer, quando aparece, vira qualidade, formulada em gerúndio, quase sempre para sublinhar uma essência: ‘é o vento ventando’, ‘é o pingo pingando’, ‘é uma prata brilhando’”, comenta o crítico. Eis a letra:

“É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o sol

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira

Caingá, candeia, é o Matita Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira

É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira

É a chuva chovendo, é conversa ribeira

Das águas de março, é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão

É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto

É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando

É a luz da manhã, é o tijolo chegando

É a lenha, é o dia, é o fim da picada

É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama

É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um resto de mato, na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José

É um espinho na mão, é um corte no pé

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração”.

A engenhosidade dos versos acompanha a concepção musical. Os pesquisadores Zuza Homem de Mello (1933) e Jairo Severiano (1927) chamam a atenção para uma estrutura harmônico-melódica que aparenta simplicidade mas possui grande sofisticação. “Essa estrutura apoia uma melodia caracterizada pela obstinada repetição de uma pequena célula rítmico-melódica, construída basicamente com duas notas (a 3ª e a fundamental do acorde de tônica), harmonizada por um encadeamento de quatro acordes, com o uso de inversões e outras diferenças sutis – e é nesse ponto que se situa a parte mais rica da criação de Jobim – que se resolve invariavelmente no acorde de tônica de cada final de frase, ou seja, de quatro em quatro compassos, nada menos que 18 vezes durante toda a peça”, explicam os pesquisadores.

Há, no entanto, quem conteste a originalidade do samba. O historiador José Ramos Tinhorão (1928) afirma que Águas de Março plagia Água do Céu, música gravada em 1956 por uma obscura compositora chamada Inara. E também costuma ser comparada a um ponto de macumba recolhido por J.B. de Carvalho (1901 - 1979) e gravado com sucesso pelo Conjunto Tupi, na década de 1930. A letra diz: “É pau, é pedra, é seixo miúdo, roda a baiana por cima de tudo”.

Somente em 1972, Águas de Março recebe mais de dez novas gravações, no Brasil e no exterior. O próprio Jobim faz três outros registros: primeiro, para o álbum Matita Perê (1973), com arranjo do maestro Claus Ogerman (1930), depois em dueto com a cantora Elis Regina (1945 - 1982) em Elis & Tom (1974) e ainda acompanhado por sua Banda Nova, em Rio Revisited (1987). Neste e na edição internacional do álbum Matita Perê, Águas de Março é cantada em inglês, numa versão assinada por Jobim.

Além de ter se proposto a não usar palavras inglesas de origem latina, Jobim ainda pena para adaptar o conteúdo ao entendimento estrangeiro. “Um dia, eu estava meditando em cima do verso ‘é um espinho na mão, é um corte no pé’ e percebi tudo. Como é que um americano iria cortar o pé se ele nunca anda descalço? O negócio era esquecer a letra em português e criar novos versos em inglês”, esclarece o compositor. O crítico britânico Leonard Feather (1914 - 1994) proclama Waters of March uma das dez músicas mais bonitas do século.

Nota

1 Em O Samba Mais Bonito do Mundo, de Arthur Nestrovski.

Ficha Técnica da obra Águas de Março:

Fontes de pesquisa (9)

  • ÁGUAS de Março. In: Bravo! Especial – 100 canções essenciais da música popular brasileira. São Paulo, 2008. p.12-15.
  • ANTONIO CARLOS JOBIM,. Site oficial. Disponível em: < http://www.uol.com.br/tomjobim >. Acesso em: 18 jul. 2013.
  • AUGUSTO, Sérgio. Cancioneiro Jobim. Rio de Janeiro: Jobim Music/Casa da Palavra, 2000.
  • CABRAL, Sérgio. Antônio Carlos Jobim: uma biografia. Rio de Janeiro: Lumiar, 1997.
  • FORÇA da Natureza. In: Contigo! Biografias – Tom Jobim: 10 anos de saudade, São Paulo, 2004. p. 24
  • JOBIM, Helena. Antonio Carlos Jobim – um homem iluminado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
  • JOBIM, Paulo (org.). Cancioneiro da Mata Atlântica: Tom da mata. Rio de Janeiro: Instituto Tom Jobim/Fundação Roberto Marinho/Furnas, s.d.
  • NESTROVSKI, Arthur. O samba mais bonito do mundo. In: Teresa – revista de literatura brasileira 4/5. São Paulo, 2004. p.130-143
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo (volume 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ÁGUAS de Março. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69219/aguas-de-marco>. Acesso em: 19 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7