Artigo da seção obras Lira dos 20 Anos

Lira dos 20 Anos

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoLira dos 20 Anos: 1853 | Alvares de Azevedo
Livro

Análise

Lira dos Vinte Anos, do poeta Álvares de Azevedo (1831-1852), é uma das obras mais importantes do Romantismo brasileiro. O livro é permeado por controvérsias, pois, como toda a produção do poeta, é publicado após sua morte. Lançado originalmente em 1853, recupera os poemas escritos para As Três Liras, projeto de uma obra coletiva inédita de Álvares de Azevedo com Bernardo Guimarães (1825-1884) e Aureliano Lessa (1828-1861), ao lado de uma segunda parte com outros textos. O projeto coletivo não se realiza. Essa primeira edição segue os manuscritos e obedece a organização do livro planejada pelo autor. Entretanto, a partir de 1873, o poeta Joaquim Norberto (1820-1891) inclui uma terceira parte na Lira dos Vinte Anos, alteração que se mantém em edições posteriores. Em 1942, o crítico Homero Pires (1882-1962) organiza as obras completas de Álvares de Azevedo e consolida a terceira parte da Lira dos Vinte Anos. Na edição crítica da poesia de Álvares de Azevedo, preparada pelo poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919-1992) e publicada em 2002, restabelece-se a divisão em duas partes e intitula-se a terceira parte como “Continuação da Lira dos Vinte Anos”.

Em seu projeto original, a Lira dos Vinte Anos separa os poemas em duas seções contrastantes. A primeira é composta pelos poemas organizados para As Três Liras. Apresenta uma poesia sentimental com a idealização da mulher – tanto a “virgem” que o sujeito não ousa tocar, quanto a própria mãe a quem o poeta dedica o livro. Os poemas possuem uma atmosfera de sonho, com descrições das belezas naturais que arrebatam o sujeito ou desejos de escapismo, como a evocação da própria morte em "Tarde de Outono":

É tarde, amores, é tarde:

Uma centelha não arde

Na cinza dos seios meus...

Por ela tanto chorei,

Que mancebo morrerei…

Adeus, amores, adeus!

A segunda parte inicia-se com um prefácio que antecipa as diferenças em relação à primeira. O poeta abandona o “mundo visionário e platônico” e apresenta ao leitor uma poesia irônica permeada pelas expressões de tédio e cinismo, um exemplo típico do chamado “mal do século” entre os românticos. Os poemas da segunda parte possuem formas mais inovadoras, com recursos metalinguísticos, como em “Ideias íntimas”:

Ali mistura-se o charuto havano

Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo...

A mesa escura cambaleia ao peso

Do titâneo Digesto, e ao lado dele

Childe-Harold entreaberto... ou Lamartine

Mostra que o romantismo se descuida

E que a poesia sobrenada sempre

Ao pesadelo clássico do estudo.

Além disso, mescla gêneros literários, a exemplo de “Boêmios”, com estrutura de diálogo teatral, e inversões paródicas da idealização da mulher, como em  “É ela! É ela!”:

É ela! é ela! — repeti tremendo,

Mas cantou nesse instante uma coruja...

Abri cioso a página secreta...  

Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Esta segunda parte traz também elementos prosaicos, com imagens ostensivas de vícios – charutos, bebidas alcoólicas etc. – e reflexões sobre os limites da poesia em um mundo regido pelo dinheiro. A partir da edição organizada por Homero Pires, a terceira parte aproxima-se das características idealistas da primeira parte em poemas como “Meu sonho” e “Pálida imagem”.

Apesar das qualidades de sua obra narrativa, em Noite na taverna, ou dramática, em Macário, muitos críticos consideram a poesia lírica de Lira dos Vinte Anos a maior realização de Álvares de Azevedo. Ao mesmo tempo, desde o século XIX, muitos apontam no livro a expressão imatura de um autor em potencial, cujas principais características podem ser observadas nos melhores poemas. Essa imaturidade repercute, para Mário de Andrade (1893-1945), no “medo de amar”, que perpassa a poesia da segunda geração romântica brasileira. Nela,  as cenas de amor, idealistas ou irônicas, nunca são consumadas. Para o crítico Afrânio Coutinho (1911-2000), apesar dessa imaturidade, a Lira dos Vinte Anos é a primeira afirmação do individualismo romântico no Brasil, que se constitui pela abertura à tradição da poesia universal e pela pouca impregnação da realidade nacional em seu projeto poético.

Seguindo a divisão original da Lira dos vinte anos em duas partes contrastantes, o crítico Antonio Candido (1918) propõe que toda obra de Álvares de Azevedo apresenta como característica o “dilaceramento do adolescente”. Tal dilaceramento oscila entre tendências opostas: por um lado, realça o universalismo; por outro, permite a leitura de sua faceta nacionalista em poemas como “No mar” ou “Anima mea”.

Com a Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo torna-se um dos mais aclamados poetas da segunda geração do Romantismo brasileiro, estimulado pela obra do poeta britânico Lord Byron (1788-1824). Para Homero Pires, a força dos versos de Álvares de Azevedo influencia outros poetas românticos, como Fagundes Varela (1841-1875) e Castro Alves (1847-1871), e até mesmo poetas parnasianos, como Olavo Bilac (1865-1918). Isso ratifica a posição de destaque da Lira dos Vinte Anos entre os momentos mais altos da lírica brasileira no século XIX. Posteriormente, diversos autores dedicam reflexões sobre a obra, atestando sua permanência entre os modernistas. É caso, por exemplo, do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) que, além de escrever textos críticos sobre a poesia romântica, remete-se ao famoso título de Álvares de Azevedo em seu sexto livro de poemas, Lira dos Cinquent'anos, de 1940.

Ficha Técnica da obra Lira dos 20 Anos:

  • Data de publicação
    • 1853
  • Autores
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (9)

  • ALVES, Cilaine. O belo e o disforme: Álvares de Azevedo e a ironia romântica. São Paulo: Edusp, 1998. 
  • ANDRADE, Mário de. Amor e medo. In: ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. 5. ed. São Paulo: Martins, 1974.
  • AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos (apres. e notas de José Emílio Major Neto). Cotia: Ateliê Editorial, 1999.
  • AZEVEDO, Álvares de. Poesias completas (ed. crítica de Péricles Eugênio da Silva Ramos; org. de Iumna Maria Simon). Campinas: Unicamp, 2002.
  • CANDIDO, Antonio. Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban. In: CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750-1880. 11. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2007.
  • CANDIDO, Antonio. Cavalgada ambígua. In: CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. 8. ed. São Paulo: Ática, 2005.
  • COUTINHO. Afrânio. A literatura no Brasil: Romantismo. 6. ed. rev. São Paulo: Global, 2002. v.3.
  • RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Do barroco ao modernismo: estudos da poesia brasileira. Rio de Janeiro: LTC, 1979.
  • SOARES, Angélica. Ressonâncias veladas da lira: Álvares de Azevedo e o poema romântico-intimista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,1989.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LIRA dos 20 Anos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69185/lira-dos-20-anos>. Acesso em: 24 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7