Artigo da seção obras Feliz Ano Novo

Feliz Ano Novo

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoFeliz Ano Novo: 1975 | Rubem Fonseca
Livro

Análise

Feliz Ano Novo (1975) é o quinto livro de Rubem Fonseca (1925), o quarto no gênero conto. Representa a consolidação do estilo do autor, já destacado na produção ficcional brasileira, desde a estreia com Os Perseguidores (1963). É o penúltimo livro publicado nas décadas de 1960 e 1970, período identificado como a primeira fase da obra de Fonseca. Tem reconhecido valor de registro histórico das transformações sofridas pela sociedade brasileira da época, especialmente o crescimento acelerado das grandes cidades e violência do Regime Militar (1964-1985). Além disso, o livro consolida um processo de radicalização da obra. Em Lucia McCartney (1967), Fonseca trata da solidão urbana com menos lirismo do que em seus primeiros livros. Em Feliz Ano Novo, explora o registro da realidade social de modo direto e explícito, especialmente na apresentação da violência e da sexualidade.

Isso faz com que a obra seja classificada pelos órgãos de censura do regime militar como "matéria contrária à moral e aos bons costumes". Com essa acusação, emitida um ano após a o lançamento do livro, inicia-se um processo judicial que dura treze anos. A obra mobiliza um intenso debate público em torno de sua legitimidade, envolvendo escritores, juristas e jornalistas. Ao longo de 1977, o caso é tema de artigos e reportagens e torna-se objeto de diversos estudos sobre seus aspectos literários e jurídicos.

Este é o livro de Fonseca que mais se assemelha à representação realista. Sua linguagem é direta, com vocabulário simples e palavrões. No entanto, surpreende o uso de citações literárias no texto. A grande maioria dos contos passa-se no Rio de Janeiro da época, narrada em primeira pessoa por personagens da pequena burguesia e elite, delegados, detetives, e malandros já conhecidos de Fonseca. Predomina a ação sobre a análise psicológica dos personagens, associada à influência do romance policial no autor. A isso, soma-se a incorporação da linguagem jornalística que dá aos relatos um tom de crônica. É o que se nota no conto que abre e dá título ao volume. Nele, o narrador, seguido por Zequinha e Pereba assaltam uma mansão "grã-fina", roubam dinheiro e joias, violentam duas mulheres, e matam dois homens apenas para testar a potência das armas, antes de, finalmente, brindarem o ano novo. O modo como o narrador afirma sua distinção intelectual em relação aos demais bandidos anuncia a complexidade do método realista do livro e de seus outros narradores. É o caso do jornalista de "Corações Solitários", funcionário de um jornal dirigido à "mulher da classe C", que subverte sua função de autor das cartas supostamente enviadas pelas leitoras, publicando conselhos insensatos como resposta. Nesses textos, os narradores encontram-se em posição ambígua. Ficam entre denunciadores da falsidade do discurso oficial e cúmplices da força subversiva de seus desejos pessoais. Ou, "entre artista e bandido", como diz o protagonista de "Intestino Grosso", autor de um livro de mesmo título, que está sendo entrevistado por um jornalista e exige ser pago "por palavra". O personagem-escritor critica o mundo dominado pela televisão e pela cultura de massa e a ideia de uma identidade literária nacional. Nessa crítica, ocorre uma ruptura da situação ficcional, pois uma voz autoral parece falar diretamente ao leitor. As citações eruditas que percorrem os contos revelam o caráter crítico também sobre a cultura brasileira. Ao mesmo tempo, demonstram um ímpeto de transgressão dos dispositivos políticos repressores, que permeiam a relação entre erotismo e violência no livro. É isso que o escritor de "Intestino Grosso" sintetiza com ironia quando perguntado se é, de fato, um "escritor pornográfico", como o acusam: "Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes".

De acordo com estudos recentes, como o do crítico Ariovaldo José Vidal (1957), Feliz Ano Novo torna o autor "o principal nome do conto do período". Vidal situa-o entre o ponto de virada representado por Lúcia McCartney e a maturidade estilística atingida com o livro posterior, O Cobrador (1979). Já o crítico João Luiz Lafetá (1946-1996) coloca-o mais próximo a este último e identifica os contos-título dos dois livros como "obras-primas do conto brasileiro de todos os tempos". Quanto à recepção crítica da época, é difícil separá-la das discussões suscitadas pela proibição da obra. De acordo com Deonísio da Silva (1948), as reações de críticos e escritores apontam para a condenação da censura e para a defesa do valor literário do livro. Antonio Candido (1918), por sua vez, cita a fase inicial de Rubem Fonseca como exemplo de um "feroz realismo", presente em um movimento que rompe com a perspectiva realista tradicional, no qual o escritor "deseja apagar as distâncias sociais, identificando-se com a matéria popular". O livro de 1975, semelhante ao movimento descrito por Candido, está sujeito ao reconhecimento de seu caráter inovador e das limitações formais que se verificam quando esses autores "passam à terceira pessoa ou descrevem situações da sua classe social".

Em linha próxima à de Candido, Feliz Ano Novo é considerado um exemplo da tendência ao "brutalismo" que o crítico Alfredo Bosi (1936) atribui ao conto brasileiro da época. Bosi toma a obra de Fonseca como principal representante de uma nova atitude diante da realidade social, disposta a buscar na experiência urbana carioca a matéria-prima, expondo de modo direto a sociedade do consumo e da massificação. Posteriormente, o crítico reconhece no conto "Intestino Grosso" "uma literatura penetrada de pensamento", "que vive em tensão com os discursos da rotina e do poder". Com isso, junta-se a estudiosos como Lafetá e Silviano Santiago (1936), que enfatizam o poder subversivo do tratamento realista com que esses contos dão forma à violência e à sexualidade. Santiago também se refere a "Intestino Grosso" quando argumenta que na obra do "prosador por excelência do corpo na nossa literatura", o palavrão aparece para libertar a dimensão corporal do homem frente a sua situação degradada na metrópole. A obra de Fonseca coloca-se, assim, lado a lado com obras dos principais nomes do conto brasileiro da segunda metade do século XX, como João Antonio (1937-1996), Osman Lins (1924-1978) e Clarice Lispector (1920-1977)

Ficha Técnica da obra Feliz Ano Novo:

  • Data de publicação
    • 1975
  • Autores
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (8)

  • BOSI, Alfredo. Situação do conto contemporâneo brasileiro. São Paulo: Cultrix, 1995.
  • BOSI, Alfredo. Moderno e modernista na literatura brasileira. In: BOSI, Alfredo. Céu, Inferno. São Paulo: Ática, 1988.
  • CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: CANDIDO, Antonio. A educação pela pedra e outros ensaios. São Paulo: Duas Cidades, 1980.
  • LAFETÁ, João Luiz. Rubem Fonseca, do lirismo à violência. In: LAFETÁ, João Luiz. Literatura e sociedade: departamento de teoria literária e literatura comparada da USP, São Paulo, n. 5, 2000.
  • MONTI, Tony. Escritores e assassinos. Urgência, solidão e silêncio em Rubem Fonseca. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
  • SANTIAGO, Silviano. Errata. In: SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
  • SILVA, Deonísio da. O caso Rubem Fonseca: violência e erotismo em Feliz Ano Novo. São Paulo: Alfa-Omega, 1983.
  • VIDAL, Ariovaldo José. Roteiro para um narrador: uma leitura dos contos de Rubem Fonseca. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • FELIZ Ano Novo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69183/feliz-ano-novo>. Acesso em: 23 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7