Artigo da seção obras Contra Todos

Contra Todos

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoContra Todos: 2004 | Roberto Moreira

Análise

Longa-metragem de estreia de Roberto Moreira (1961). O roteiro, desenvolvido entre 1994 e 2002, retrata a violência no Brasil sob novo enfoque. O filme é realizado em 2004, pelas produtoras Coração da Selva e O2 Filmes.

A produção torna-se possível graças ao edital do Ministério da Cultura para filmes de baixo orçamento. Alia-se a isso a utilização pioneira de câmera digital, a redução de equipamentos e equipe, a ausência de estúdios e o uso de objetos de cenografia colhidos na própria locação.

O despojamento está presente, também, na elaboração dos personagens. Os atores ensaiam seu papel com um roteiro sem diálogos e recorrem à improvisação durante as gravações.

A abertura do filme reúne os personagens centrais durante a refeição em uma casa da periferia de São Paulo: o casal Cláudia [Leona Cavalli (1970)] e Teodoro [Giulio Lopes (1960)], a filha, Soninha (Silvia Lourenço), em companhia de dois amigos da família, Valdomiro [Ailton Graça (1964)] e Júlio (Ismael de Araújo). Na apresentação do letreiro do título, um estranho mar vermelho em divisa com o céu azul metaforiza a falsa normalidade da sequência inicial.

A primeira série de reviravoltas desconstrói a aparente normalidade familiar: Cláudia se revela infiel ao marido e cede aos apelos sexuais de Júlio; Teodoro, por sua vez, deseja levar adiante uma vida amorosa com Terezinha [Martha Meola (1966)], sua colega de igreja; e Soninha se interessa por Marcão [Gustavo Machado (1973)], um traficante de drogas. A violência explode no interior da família: em outra cena de jantar, Teodoro, ao ter seu pedido de oração negado por Soninha, espanca a filha.

A primeira parte do filme emula a linguagem do documentário: a câmera na mão volteia entre personagens flagrados em situações cotidianas  marcadas pelo naturalismo, à maneira do receituário do Manifesto Dogma 951. Uma segunda série de reviravoltas antecipa a tensão do próximo movimento, no qual o caráter documental cede lugar ao tom romanesco.

Júlio é assassinado e castrado. Desconfiada do companheiro, Cláudia se esconde em um hotel no centro da cidade e se envolve com o recepcionista. O pai de Júlio, desejando vingar o assassinato do filho, contrata Teodoro, que se revela um “matador de aluguel”. Teodoro decide matar Marcão, a quem atribui a autoria do assassinato de Júlio. Ao saber da morte do namorado, Soninha abandona a escola, pinta o quarto de preto e seduz Valdomiro.

Livre de Cláudia, Teodoro se declara apaixonado por Teresinha, a mulher que, segundo ele, pode redimi-lo de seu inferno pessoal. No entanto, ela se escandaliza ao receber uma fita de vídeo com imagens de uma relação sexual entre Teodoro e a esposa. Ao ter recusadas suas explicações, ele perde o controle e estupra a companheira de culto. Na cena seguinte, Valdomiro e Soninha, que se encontram no quarto da adolescente, ouvem um tiro vindo da cozinha e deparam com a cena de um crime.

Para explicar as reviravoltas anteriores, o diretor recorre a uma série de flashbacks explicativos no desfecho do filme: Teodoro mata Júlio, depois de descobrir que Cláudia é sua amante; Soninha entrega a fita de vídeo a Teresinha; de volta à casa, Teodoro encontra-se com Cláudia, que o apunhala com uma faca. Em seguida, ele dispara um tiro fatal na esposa e agoniza até a morte nos braços da filha. Enquanto isso, Valdomiro rouba o dinheiro do comparsa.

Tempos depois, Valdomiro ocupa o comando do crime na região e casa-se com Teresinha. Elegante, provável traficante de drogas e matador de aluguel, ele coordena o convívio harmonioso da religião com a violência.

Para o crítico Carlos Alberto Mattos, “os flashbacks e explicações, embora acabem se fazendo necessários, funcionam como anticlímax  de uma evolução por elipses que vinha sendo até então admirável”2. Boa parte das resenhas, entretanto, não se incomoda com a resolução final da narrativa, preferindo salientar o naturalismo das interpretações e o uso funcional da câmera. José Geraldo Couto ressalta: “não são os atores que se colocam de uma determinada maneira diante da câmera, para atender a uma decupagem pré-ordenada. É a câmera que persegue os personagens, buscando sondar seus atos e intenções”3.

Quanto ao tratamento dos personagens, a crítica especializada divide-se. Cláudio Szynkier detecta, no “naturalismo ortodoxo” do filme, o sensacionalismo exibido em programas policiais da televisão, embora voltado para uma classe média instruída. Todos os personagens ficam “meio que a serviço de uma experiência, de um laboratório sociológico, de uma tese, e aí perdem a verdade”4. Piers Armstrong segue raciocínio semelhante: o filme apresenta “o mito do marginalizado patológico”, em que se conectam “periferia social, extremos materiais e potencialidades psicológicas perversas”5.

Jorge Coli (1947) distingue outros traços relevantes. Em primeiro lugar, o tratamento da “barbárie desnorteada [...] não exclui a simpatia que emana dos personagens” e, mais que uma tese sociológica, o filme “procede a uma antropologia da crueldade. Capta gestos, maneiras de se comportar, de falar, de comer; atenta à ‘cultura material’ (os objetos que povoam o mundo onde os episódios se passam); incorpora a paisagem da periferia ou do centro de São Paulo, não como um cenário, mas como um meio orgânico, em simbiose com os personagens”, deixando circular “uma tensão permanente, feita de pulsões sem artifícios”6.


O público não se sensibiliza com a “mecânica da desarmonia” com que o filme enxerga a realidade social, resume Antonio Gonçalves Filho7. Previsto para uma bilheteria de cem mil espectadores, a película atinge um público de pouco mais de 25 mil pessoas, apesar de diversos prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, melhor filme e atriz (Silvia Lourenço) no Festival do Rio; melhor direção, ator (Giulio Lopes), direção de arte e prêmio da crítica no Cine PE, Recife; prêmio Silver Firebird no Festival de Hong Kong, entre outros, todos no ano de 2004.

Notas

1 O Manifesto Dogma 95, escrito pelos cineastas dinamarqueses Thomas Vinterbert (1969) e Lars von Trier (1956), defende a criação de um cinema mais realista e apresenta uma série de restrições quanto ao uso de técnicas e tecnologias nos filmes.

2 MATTOS, Carlos Alberto. Filme tem tudo para virar um marco. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 nov. 2004. Caderno B, p. 6.

3 COUTO, José Geraldo. Dogma zona leste. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 jun. 2003, Ilustrada, p. E-5.

4 SZYNKIER, Cláudio. Contra Todos se infiltra em zona perdida da cidade de São Paulo. Revista de Cinema, São Paulo, ano 5, n.49, nov. 2004. p. 24.

5 ARMSTRONG, Piers. The socially productive web of Brazil's urban über-dramas. In: REGO, Cacilda; ROCHA, Caroline. News trends in Argentine and Brazilian cinema. Bristol (UK); Chicago (USA): Intellect, 2011. p. 186

6 COLI, Jorge. Lasanha ao molho pardo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21 nov. 2004. Caderno Mais, p. 2.

7 Press-release do filme.

Ficha Técnica da obra Contra Todos:

Midias (1)

Contra Todos (2004), Roberto Moreira
Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

Fontes de pesquisa (11)

  • MATTOS, Carlos Alberto. Filme tem tudo para virar um marco. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 nov. 2004. Caderno B. p. 6
  • COLI, Jorge. Lasanha ao molho pardo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 nov. 2004. Caderno Mais. p. 2
  • COUTO, José Geraldo. Dogma zona leste. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 jun. 2003. Ilustrada. p. 5
  • COUTO, José Geraldo. Tragédia com câmera na mão é operação de risco. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 nov. 2004. Ilustrada. p. 3
  • GIANNINI, Alessandro. Novo filme retrata a classe média da periferia. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 02 out. 2002. Caderno 2. p. 7
  • LUDEMIR, Julio. Encantador despojamento. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 nov. 2004. Caderno B. p. 6
  • NOVAES, Tereza. Longa revira batalhas da periferia paulistana. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 nov. 2004. Ilustrada. p. 3
  • PINHEIRO, Reinaldo. Contra todos inova em crítica e linguagem. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 dez. 2004. Caderno 2. p. 7
  • PRESS-release do filme. São Paulo, 2004. [Acervo Cinemateca Brasileira, documento D 1080/4]
  • SZYNKIER, Cláudio. Contra Todos se infiltra em zona perdida da cidade de São Paulo. Revista de Cinema, São Paulo, ano 5, n.49, nov. 2004. p. 22-24
  • VITA, Luiz. Contra todos: tragédia urbana retrata vida na periferia. Bien'Art, São Paulo, v. 1, n. 1, nov. 2004. p. 60-61

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CONTRA Todos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69182/contra-todos>. Acesso em: 15 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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