Artigo da seção obras À Margem da Imagem

À Margem da Imagem

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoÀ Margem da Imagem: 2002 Local de criação: (Brasil)
Filme

À margem da Imagem (2002), de Evaldo Mocarzel (1960), é um documentário produzido por Ugo Giorgetti (1942) com base em estudos de Maria Cecília Loschiavo dos Santos. Ela, filósofa e pesquisadora, coordena o projeto “Aspectos do Design no Hábitat Informal das Grandes Cidades”, vinculado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Elaborado em duas versões, um curta de 15 e um longa de 72 minutos, o filme é o primeiro da tetralogia que retrata o Brasil urbano, composta por À Margem do Concreto (2006), À Margem do Lixo (2008) e À margem do Consumo. O filme é exibido no circuito cinematográfico, em emissoras de televisão, instituições assistenciais, albergues, casas de convivência, ONGs, universidades e centros de pesquisa no Brasil e no exterior. O objetivo é promover o debate entre estudiosos do tema – urbanistas, geógrafos, assistentes sociais, sociólogos – e de informar responsáveis pela elaboração de políticas públicas nesta área.

A obra traz discursos de moradores de rua de São Paulo e procura refletir sobre a estetização da miséria pela indústria audiovisual. Evidencia, também, os procedimentos para se conseguir a autorização do uso das imagens. Nas entrevistas concedidas, os sem-teto narram suas trajetórias, expõem o motivo de viverem nas ruas e explicam as dificuldades cotidianas de sobrevivência. Emitem, ainda, opiniões sobre política e o fato de estarem sendo filmados. Entre um depoimento e outro, a câmera percorre locais da cidade, como o Minhocão e a Rua do Glicério, e registra cenas de suas vidas: a precariedade, o barulho do trânsito, a polícia, a confraternização, o albergue, o sopão.

À Margem da Imagem questiona a marginalidade por três prismas paralelos. O primeiro é de uma sub-cidade, restos da sociedade paulistana, pela qual ninguém quer se responsabilizar. O depoimento que melhor ilustra esse caso é o de Cascavel, ex-caminhoneiro que perdeu o movimento das pernas e algumas faculdades mentais em um acidente e habita um barraco construído com sucatas debaixo de um viaduto. Entra, constantemente, em conflito com fiscais da prefeitura. O segundo trata da indigência, caracterizada pela expropriação dos direitos civis e humanos dos desabrigados, e da transformação da invisibilidade em estratégia para conseguir assistência. O último incide na exploração da marginalidade por aparatos midiáticos e artísticos, trazendo a metalinguagem para o documentário.

O caráter autorreflexivo de À Margem da Imagem concentra-se no começo e no fim. No início, é descrita a visita barrada do fotógrafo Sebastião Salgado (1944), então correspondente do jornal Folha de S.Paulo, a um centro filantrópico. A sequência final mostra a exibição de um corte aos participantes da filmagem, em um cinema da Rua Augusta. Após a sessão, Mocarzel pergunta a cada um dos entrevistados o que achou de seu registro em imagens e ouve sugestões de mudança. A resposta mais contundente é a última, que aponta para um recalque na produção:

Então é isso, tem que mostrar isso no filme, tem que mostrar a pessoa apertando numa casa, pedindo um prato de comida, pedindo isso, pedindo aquilo, tal, pra poder ser um filme verdadeiro. Isso o diretor esqueceu. (...)  Se eu bater na sua porta amanhã, você não vai me receber.

Para o crítico e ensaísta Jean-Claude Bernardet (1936), em um apêndice do livro Cineastas e Imagens do Povo, a atitude do diretor não condiz com a crítica do depoente. O tom apático da reação e a falta de réplica são sintomas de uma crise do documentário de entrevistas. A partir dos anos 1960, com as tecnologias portáteis de gravação, o som direto faz emergir um universo verbal até então desconhecido na tela, representante de uma coloquialidade com ares de documento bruto. O formato entrevista torna-se hegemônico, muito devido à televisão, diluindo as relações interpessoais e espaciais ao enfatizar o contato entre entrevistado e cineasta. Segundo a crítica, À Margem da Imagem não estimula interlocuções com a população desmerecida. Por um lado, evita-se contradizer os argumentos dos sem-teto, pois isso significa compactuar com mecanismos opressores. Por outro, as entrevistas coletadas são apenas materiais de trabalho. Diferente de outros realizadores, em que a entrevista é um estilo desenvolvido para a captura de fabulações espontâneas de identidades. Apesar disso, o filme ganha 19 prêmios em festivais nacionais e internacionais, entre eles, o de melhor documentário no 31º Festival de Gramado e no Festival do Rio 2003.

Ficha Técnica da obra À Margem da Imagem:

Fontes de pesquisa (1)

  • BERNADET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • À Margem da Imagem. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69180/a-margem-da-imagem>. Acesso em: 14 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7