Artigo da seção obras A Hora dos Ruminantes

A Hora dos Ruminantes

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoA Hora dos Ruminantes: 1966 | José J. Veiga
Livro

Análise

Considerada a mais importante obra do escritor goiano José J. Veiga (1915 - 1999), A Hora dos Ruminantes (1966) é uma das principais realizações do realismo fantástico na literatura brasileira. Nela, vê-se o apelo ao absurdo e à estranheza, de circunstâncias e personagens, e o debate da dinâmica social e seu momento histórico.

Dividida em três capítulos, a narrativa trata de misteriosos acontecimentos no pacato lugarejo de Manarairema após a instalação de um acampamento de forasteiros em suas cercanias. Além da fachada obreira e dos modos urbanos, a invasão não desvenda o que é: “Seriam engenheiros? Mineradores? Gente do governo?1”. Ela desorganiza e redimensiona as estruturas tradicionais do poder local e impõe formas mais opressoras de contato.

A história concentra-se nos esquemas da sociabilidade, da superioridade moral do poder eclesiástico, seguida por uma esfera pública de comerciantes e prestadores de serviços, eivada de hipocrisia, falso orgulho e impotência. Esses esquemas são desestabilizados pela interação impositiva com os estranhos. As primeiras vítimas são o padre Prudente, ignorado em suas investiduras, e o carroceiro negro Geminiano Dias. A carroça torna-se razão de assédio e, finalmente, da contratação de Geminiano como trabalhador assalariado, para o prejuízo dos negócios da localidade.

A partir daí, movimentam-se as demais peças do tabuleiro. O comerciante Amâncio Mendes, valente dado a enfrentamentos, submete-se aos homens que passam a frequentar sua venda para resolver problemas na cidade. Manoel Florêncio, carpinteiro que se recusa a consertar a carroça de Geminiano para uso dos invasores, recebe ameaças veladas que, embora não se concretizem, dão a dimensão do medo e da intimidação que tomam a localidade. A atmosfera carregada concretiza-se na violência dos estranhos contra o ferreiro Apolinário, abordado por sair em defesa do filho humilhado por dois dos estranhos e nos atos contra o casal de namorados Pedro e Nazaré. O rapaz é torturado e a garota, vítima de abuso sexual. Interação e brutalidade crescem juntas e geram o reordenamento arbitrário das esferas pública e privada.

Acompanhando a escalada de dominação e violência em Manarairema, dois episódios diretamente relacionados aos estranhos dão o tom fantástico à narrativa: os “dias” dos cachorros e dos bois. Ambos os “dias”, que tomam de assalto a cidade, coincidem com a incômoda chegada e proliferação dos animais no espaço urbano. Os cachorros, ligados à “gente da tapera” (presentes no acampamento), geram distúrbios pouco a pouco assimilados pela população local, reduzida a um sentimento de humilhação na partida dos animais. Os bois, mais nocivos, deixam um rastro de destruição e mortes ao abandonarem a cidade, no que são seguidos, para surpresa geral, pelos estranhos. Instrumentos ou figuras da opressão, os animais sugerem, em termos narrativos, marcações distintas nos momentos da consolidação do poder dos estranhos em Manarairema. O advento dos cachorros remonta à instalação definitiva dos forasteiros nas cercanias e sua relativa aceitação. Já os bois aparecem quando a cidade se vê tomada por um sentimento geral de desconfiança e surgem os primeiros casos de violência. As coincidências estruturais terminam quando se avaliam as consequências delas. À partida dos cachorros sucede o recrudescimento da violência; a dos bois, tem a força de um renascimento local.

A força política de A Hora dos Ruminantes não é ignorada à época do lançamento. Concluída em fins de 1963, a narrativa é levada no início do ano seguinte à editora Civilização Brasileira por recomendação do escritor Carlos Heitor Cony (1926). A publicação é adiada, entretanto, por temor de represálias pós-golpe. Embora o “apólogo” [como o escritor Edison Carneiro (1912-1972) chama o romance ao evocar sua veia alegórica mais geral] não tenha nenhuma relação direta com o acontecimento, é fato que remete a uma dinâmica autoritária constitutiva da sociedade brasileira. Como aponta o pesquisador Nedilson César Rodrigues dos Santos, a obra traz a modernização brasileira. Conservadora e desagregadora, impõe-se como uma ideia de desenvolvimento desigual e predatório. Essa leitura lança luzes sobre os mais discretos elementos da construção narrativa. Exemplo marcante é o papel do proprietário das terras da tapera em que se instalam os forasteiros, coronel Julio Barbosa, cuja “ausência” é índice da aliança entre novas e velhas relações de poder. Isso pode ser constatado pela posição ambígua da burguesia local, submissa e oportunista, diante da nova configuração do poder. Ao mesmo tempo, há uma degradação do trabalhador pela venda do trabalho, como mostram os padecimentos de Geminiano Dias.

A face política não se dissocia da opção estética do autor por uma prosa insólita, para usar termo caro à pesquisadora Neriney Meira Carvalho. Há uma combinação entre as improváveis invasões dos animais e a verossimilhança das situações por eles suscitadas. Assim, Veiga une a moldura realista da prosa – o quadro social interiorano – a uma exposição expressionista dos conflitos. Neste sentido, cachorros e bois não representam diretamente ideias (embora sua ressonância moral não possa ser descartada), mas o alheamento por que passa a comunidade de Manairarema. Numa versão rural da metamorfose kafkiana, Veiga analisa a fragilidade inerente à recuperação da concretude das horas: “As horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como deve ser”. O pequeno povoado só poderá celebrar a volta das horas sob o risco de esquecer o horror experimentado.

Notas

1 VEIGA, José J. A hora dos ruminantes. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. p.4.

Ficha Técnica da obra A Hora dos Ruminantes:

  • Data de publicação
    • 1966
  • Autores
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (3)

  • CARVALHO, Neriney Meira. A configuração do insólito nas obras de José J. Veiga. In: Revista Alere – Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários-PPGEL, ano 4, v. 4, n. 4, p. 65-78, 2011.
  • SANTOS, Nedilson César Rodrigues dos. Adequação e impasses de uma narrativa: uma leitura de A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. 2009. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
  • VEIGA, José J. A hora dos ruminantes. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Hora dos Ruminantes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69165/a-hora-dos-ruminantes>. Acesso em: 24 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7