Artigo da seção obras À Meia Noite Levarei Sua Alma

À Meia Noite Levarei Sua Alma

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoÀ Meia Noite Levarei Sua Alma: 1964
Filme

Análise

À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) é o terceiro longa-metragem do diretor José Mojica Marins (1936). Criado com base num pesadelo do cineasta em que um vulto o arrasta para sua própria sepultura, o filme inaugura o cinema fantástico no país. A fita apresenta o personagem Zé do Caixão, que se torna famoso para o público.

A película foi produzida com dinheiro arrecadado com a venda de cotas de participação. Embora não seja possível determinar a quantidade de cotas comercializadas, sabe-se que cada uma tinha o valor aproximado de R$ 3.500,00, em valores atuais1. Mojica chega a vender o carro da família para pagar parte do salário dos técnicos. Falido depois de realizar a fita, vende-a para Ilídio Martins, que interpreta Dr. Rodolfo no filme. Martins tem um lucro razoável ao repassá-lo, depois da boa estreia, ao investidor Nelson Teixeira Mendes2.

A história centra-se no agente funerário Zé do Caixão, que vive numa pequena cidade do interior de São Paulo. Vestindo roupas negras, com sua cartola, capa e unhas compridas, o personagem provoca medo nos moradores da região. Isso se deve a seus trajes incomuns e à crueldade com que trata as pessoas do local, a quem classifica como “gente do mato ignorante”.

Zé do Caixão não acredita na eternidade da alma. Para ele, a morte é o final da existência e a única garantia de perpetuação é a continuidade do sangue. Durante o filme ele mantém um obsessivo desejo de ter um filho. Essa é a única maneira de garantir seu legado na terra. O protagonista não mede esforços em busca da mulher perfeita, capaz de gerar seu herdeiro. Para tanto, ele não hesita em matar Lenita (Valéria Vasquez), sua mulher estéril. Também elimina seu melhor amigo Antônio (Nivaldo de Lima) por acreditar que Terezinha (Magda Mei), noiva deste último, é a mulher ideal que ele procura.

Zé do Caixão despreza as crenças dos moradores da cidade, especialmente os valores religiosos católicos. Há uma sequência que ilustra a personalidade iconoclasta do protagonista.

Ao chegar em sua casa, após um enterro, o personagem pede a Lenita, sua mulher, que sirva o almoço. Com indiferença, comenta que o enterro lhe deu fome e que pensa cobrar pela sua presença nessas situações, além de estar cansado de acompanhar a choradeira.

Quando Lenita lhe traz o almoço, Zé pergunta onde está a carne. Ela lembra que é Sexta-feira Santa, portanto, em respeito ao dia sagrado católico, não se come carne. O homem responde de forma rude: “Que me importa que seja sexta-feira dos santos ou do demônio! Eu vou buscar o que eu quero e nenhum carola vai intervir! Hoje eu como carne, nem que seja carne de gente!”. Lenita aconselha ao marido cuidado com as palavras, pois o “diabo tenta”. Ele lhe responde de forma cínica: “Se encontrá-lo [o diabo] vou convidá-lo para jantar”. A carne que Zé do Caixão traz é de cordeiro. O fato tem requintes de cinismo, uma vez que Cristo é conhecido como o Cordeiro de Deus. Além disso, o jantar coincide com a procissão da Sexta-feira Santa.

Mojica constrói uma cena elaborada, feita em profundidade de campo, na qual o profano e o sagrado aparecem no mesmo quadro. Em primeiro plano, vemos Zé do Caixão jantar o cordeiro enquanto ao fundo, em segundo plano, a procissão anda e o padre a acompanha. Ao oferecer a carne ao religioso, este faz o sinal da cruz, como se tentasse repelir com o gesto a heresia do agente funerário. Uma sonora gargalhada de Zé do Caixão encerra a sequência.

Segundo a pesquisadora Daniela Pinto Senador (1981), um dos pontos centrais do filme de Mojica é o questionamento da religião católica por meio da mediocrização. O humor e a sátira são os recursos empregados pelo realizador para romper com os valores morais da época, personificados nas crenças do catolicismo3.

Na época de seu lançamento, o filme de Mojica é recebido por parte da crítica de forma negativa. Em seu artigo na Folha de S.Paulo, Benedito J. Duarte (1910-1995) denominou pejorativamente a história como “abracadabrante”, além de classificar a atuação como ator do cineasta como ridícula e grotescamente pretensiosa4. Ignácio de Loyola Brandão (1936), afirma que o filme é ruim e acrescenta que isso não impede o sucesso da película, atraindo multidões aos cinemas5.

Para Jairo Ferreira (1945-2003), ao contrário, a obra de Marins é puro cinema e nela impera a insegurança e a exasperação. É um tipo de cinema que “ameaça as relações normais entre os atores, entre a câmera e o décor, o diálogo e a realidade. Mojica nunca elege: o melhor ator, o melhor enquadramento, o melhor diálogo, o melhor momento de filmagem – como os autores normais”6.

Laura Loguercio Cánepa observa que Marins aborda temas essencias da cultura brasileira, como o machismo, a prepotência das classes altas e a violência contra a mulher. Observa que o protagonista é uma das pessoas mais ricas da cidade, além de vestir-se como aristocrata7.

O filme recebe os prêmios L’Ecran Fantastique para originalidade e Tiers Monde da imprensa mundial, na III Convention du Cinéma Fantastique, França, em 1974. Recebe também o Prêmio Especial no Festival Internacional de Cine Fantástico y de Terror Sitges, Espanha, em 1973.

Notas

1 Senador, Daniela Pinto. Das primeiras experiências ao fenômeno Zé do Caixão: um estudo sobre o modo de produção e a recepção dos filmes de José Mojica Marins entre 1953 e 1967. 2008. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-05072009-230157/ >. Acesso em: 17 jul. 2014.

2 BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do caixão. São Paulo: Editora 34, 1998. p. 115.

3 SENADOR, Daniela Pinto. Das primeiras experiências ao fenômeno Zé do Caixão: um estudo sobre o modo de produção e a recepção dos filmes de José Mojica Marins entre 1953 e 1967. 2008. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-05072009-230157/ >. Acesso em: 17 JUL. 2014. p. 137.

4 DUARTE, Benedito J. A alma começa a ser levada ao meio dia...  Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 nov. 1964. Ilustrada, p. 4.

5 BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Diabos estão na terra lançando terror. Última Hora, São Paulo, 14 nov. 1964.

6 FERREIRA, Jairo. José Mojica Marins: o gênio total. In: FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000. p. 83-84.

7 CANEPA, Laura Loguercio. Medo do quê? Uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Muitmeios) – Instituto de Artes da Unicamp, Campinas, 2008. Disponível em: < http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000446825&fd=y >. Acesso em: 19 dez. 2014. p. 150.

Ficha Técnica da obra À Meia Noite Levarei Sua Alma:

Midias (1)

Á Meia Noite Levarei Sua Alma (1964), José Mojica Marins
Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

Fontes de pesquisa (13)

  • PUPPO, Eugenio (Org.). José Mojica Marins: 50 anos de carreira. São Paulo: Heco Produções, 2007.
  • BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.
  • BERNADET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema: ensaio sobre o cinema brasileiro de 1958 a 1966. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Diabos estão na terra lançando terror. Última Hora, São Paulo, 14 nov. 1964.
  • CANEPA, Laura Loguercio. Medo do quê? Uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Muitmeios). Instituto de Artes da Unicamp. Campinas, 2008. Disponível em: < http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000446825&fd=y >. Acesso em: 19 dez. 2014.
  • CARREIRO, Rodrigo. O problema do estilo na obra de José Mojica Marins. Revista Galáxia, São Paulo, n. 26, dez. 2013. p. 98-109
  • DUARTE, Benedito J. A alma começa a ser levada ao meio dia... Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 nov. 1964. Ilustrada. p.4
  • FERREIRA, Jairo. José Mojica Marins: o gênio total. In: FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000. p. 82-89
  • RAMOS, Fernão Pessoa (Org.). História do cinema brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.
  • RAMOS, Fernão Pessoa e MIRANDA, Luiz Felipe A. de (Orgs.). Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Editora Senac, 2000.
  • RAMOS, Fernão Pessoa. Cinema marginal (1968/1973): a representação em seu limite. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • SENADOR, Daniela Pinto. Das primeiras experiências ao fenômeno Zé do Caixão: um estudo sobre o modo de produção e a recepção dos filmes de José Mojica Marins entre 1953 e 1967. 2008. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-05072009-230157/ >. Acesso em: 17 jul. 2014.
  • SILVA, Odair José Moreira da. Entre a abjeção e a catarse: a figurativização do grotesco em José Mojica Marins. Semeiosis: semiótica e transdisciplinaridade em revista. Dez. 2010, p. 1 – 20. Disponível em: < http://www.semeiosis.com.br/abjecao-catarse/ >. Acesso em: 19 dez. 2014.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • À Meia Noite Levarei Sua Alma. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69160/a-meia-noite-levarei-sua-alma>. Acesso em: 21 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7