Artigo da seção obras A Força dos Sentidos

A Força dos Sentidos

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoA Força dos Sentidos: 1979 | Jean Garrett
Filme

Análise

Sétimo filme do diretor e fotógrafo Jean Garrett (1946-1996), A Força dos Sentidos  é produzido dentro do sistema da Boca do Lixo, em São Paulo, pela Kinema Filmes, do produtor e também diretor Cláudio Cunha (1946-2015). O longa, assim como a grande parte da obra de Garrett, é um drama erótico, que também se filia ao horror e ao suspense. Em A Força dos Sentidos, fica evidente a preferência de Garrett por obras existenciais e psicológicas, em que o interesse maior é compreender o comportamento de seus personagens frente a diferentes circunstâncias.

A Força dos Sentidos acompanha o escritor Flávio (Paulo Ramos), que aluga por dois meses uma casa de praia a fim de buscar inspiração. Ele é acolhido pelos poucos moradores da aldeia e se fascina com Pérola [Aldine Muller (1953)], uma jovem surda-muda. Com o tempo, Flávio nota que as mulheres da ilha assumem um comportamento estranho à noite. Apesar de transarem com ele, elas nunca se lembram do ocorrido no dia seguinte. Sem Flávio perceber, Pérola sempre o observa à noite, bastante excitada. Intrigado, Flávio pesquisa sobre a ilha e descobre que uma das fundadoras da aldeia é fisicamente idêntica à Pérola. Descobre também que Pérola não aparece em foto alguma. Assim como num romance fantástico, Flávio tenta solucionar esses mistérios que o rondam e o afetam.

Diferente de boa parte dos diretores da Boca do Lixo, Garrett demonstra grande preocupação formal, associando-se a a uma equipe de produção competente e criativa como o montador Eder Mazini (1950), o roteirista Mário de Vaz Filho (1947) e o cinestas Carlos Reichenbach (1945-2012) na fotografia. A Força dos Sentidos se diferencia dos filmes do movimento pela construção da atmosfera e do clima, o que se dá, especialmente à noite, quando o mistério se desenvolve e todos os personagens parecem vagar desnorteados, com exceção de Flávio, o único consciente dos eventos. A montagem paralela entre a ação de Flávio e a de Pérola - que também está consciente, mas sem interagir com outros personagens -, explicita o suspense. Pérola conduz Flávio, sem que ele saiba, e, ao observá-lo com outras mulheres, transmuta-se nelas, como se ela estivesse copulando com Flávio. Para tal, Garrett ambienta seu filme de maneira sombria e lúgubre, em que os elementos de horror servem para extravasar sensações melancólicas do protagonista, tal como o medo, a ansiedade e a incerteza.

A atmosfera em A Força dos Sentidos é construída essencialmente pela fotografia, moldada com poucos focos de luz, geralmente iluminando os corpos inteiros dos personagens em planos abertos ou apenas partes do rosto em planos fechados, e com movimentos de câmera suaves, especialmente na transição ou no reenquadramento de personagens. O mistério da noite, assim, vem do escuro pouquíssimo iluminado, que permite uma visualização fragmentada dos objetos. Outro aspecto importante é a sonoplastia que acentua os momentos de tensão, seja com o aumento no volume do som ambiente (animais, vento, mar etc), o uso de música clássica instrumental ou a inserção, num volume crescente, da reverberação do som do mar numa concha – que simboliza, ao longo do filme, o chamado de Pérola para que Flávio possua uma mulher.

Exemplo disso é quando Flávio, induzido pelo barulho da concha, encontra a viúva Regina [Elizabeth Hartmann (1941)] e transa com ela em cima de um rochedo. Garrett alterna planos-detalhe da concha e closes dos rostos de Flávio e de Pérola para cristalizar a relação entre os três, todos parcialmente iluminados, e, após Regina e Flávio se engajarem na cópula, o diretor alterna planos dos dois juntos e outros de Pérola mimetizando os movimentos da viúva em um tronco. Isso é enfatizado num quadro que aproxima os três personagens, com Pérola em primeiro plano e os dois ao fundo, com movimentos cadenciados, tendo apenas os corpos iluminados, destacando-os em relação ao breu que prevalece em toda a sequência.

Em A Força dos Sentidos, fica evidente a preferência de Garrett por obras existenciais e psicológicas, em que o interesse maior é compreender o comportamento de seus personagens frente a diferentes circunstâncias.

A Força dos Sentidos estreia comercialmente em 05 de maio de 1980 no Rio de Janeiro, sendo enorme sucesso de público e uma das maiores bilheterias da carreira de Garrett, com um público oficial de 1.012.532 pagantes, segundo a Agência Nacional de Cinema (Ancine).

O filme tem recepção mista, sendo, em geral, criticado por adotar características proeminentes dos filmes da Boca. O crítico Rubens Ewald Filho (1945), condena o roteiro, classificando-o como “inverossímil”, e diz que “o mistério é mais pretexto para muitas cenas de sexo do que para revelações surpreendentes”, ainda que faça ressalvas: “Já tem um argumento menos pretensioso, uma bonita estrela, imagens de primeira qualidade. Só falta perder os vícios da Boca do Lixo e arranjar finalmente roteiros e diálogos profissionais”1. O crítico Jairo Ferreira (1945-2003), em contrapartida, elogia o longa: “Em "A Força dos Sentidos", o cineasta reafirma seu talento, total domínio da narrativa, sensibilidade inusitada para o inusitado, os temas fantásticos, aqui aliado com felicidade ao erotismo que garantirá a boa bilheteria do filme. Conseguir isso não é fácil: pode-se dizer que Garrett não faz concessões”.2

Ainda que críticos como Jairo Ferreira  defendam o cinema de Jean Garrett, boa parte da crítica rejeita seus filmes. Nos últimos anos, contudo, Garrett tem passado por uma reavaliação crítica, sendo considerado um dos principais artesãos do cinema popular da Boca do Lixo.

Notas

1 EWALD FILHO, Rubens. Sexo, em fitas medíocres. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 04 jun. 1980, p. 17.
2 FERREIRA, Jairo. O fantástico de Jean Garrett. Folha de S.Paulo. São Paulo, 07 fev. 1980, Ilustrada, p. 33.

Ficha Técnica da obra A Força dos Sentidos:

Midias (1)

Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

Fontes de pesquisa (15)

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  • PEREIRA, Miguel. A força dos sentidos, in O Globo. Rio de Janeiro, 06 de maio de 1980, Cultura. p. 37
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  • SILVA NETO, Antonio Leão da. Dicionário de filmes brasileiros: longa metragem. São Bernardo do Campo: Ed. do Autor, 2009.
  • STERNHEIM, Alfredo. Boca do Lixo: Dicionário de Diretores. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2005. p. 13-44 , 128-129 , 159-160
  • VINICIO, Marcos. “A Força dos Sentidos”, psicologia, morte e arte, in Folha da Tarde. São Paulo, 05 de junho de 1980.

Como citar?

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  • A Força dos Sentidos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69159/a-forca-dos-sentidos>. Acesso em: 24 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7