Artigo da seção obras É Tudo Verdade

É Tudo Verdade

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoÉ Tudo Verdade: 1942 | Orson Welles
Filme

Análise

Em 1942, depois de lançar Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), o diretor estadunidense Orson Welles (1915-1985) inicia as filmagens de It’s All True (É Tudo Verdade), produzido pela companhia cinematográfica Radio-Keith-Orpheum Corporation (RKO). São previstos quatro capítulos para a primeira versão do filme: A História do Jazz, inspirado em autobiografia do músico norte-americano Louis Armstrong (1901-1971); My Friend Bonito, com roteiro do escritor também norte-americano Robert Flaherty (1884-1951), baseado em uma história ocorrida no México, em 1908; The Captain’s Chair, com roteiro de Flaherty, previsto para ser filmado na Baía de Hudson; e Love Story, escrito por John Fante (1909-1983) com base na história de seus pais, imigrantes que se conhecem em São Francisco. O filme não é concluído, e a maior parte de seus negativos está perdida. Latas encontradas na década de 1980 contêm sequências rodadas no México e no Brasil. São cenas dramatizadas a partir de histórias reais, um híbrido de ficção e documentário.

Em dezembro de 1941, Welles embarca para o Brasil como embaixador do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), agência do governo dos Estados Unidos responsável pela Política da Boa Vizinhança, implementada pelo governo de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945)1. A viagem modifica o projeto É Tudo Verdade. O segmento My Friend Bonito, que Norman Foster filma no México sob supervisão de Welles, é concluído e integrado a dois episódios novos, realizados no Brasil – um sobre o Carnaval, The Story of Samba; outro, inspirado na viagem de quatro jangadeiros cearenses, Four Men on a Raft – e a um quarto episódio, nunca filmado, sobre A História do Jazz ou sobre a conquista do Peru pelo espanhol Francisco Pizarro (ca. 1475-1541).

Em fevereiro de 1942, Welles embarca às pressas para o Rio de Janeiro a tempo de filmar o carnaval carioca. O compositor Herivelto Martins (1912-1992), autor de um dos temas do filme, o samba “Praça Onze”, atua como assistente de Welles. As participações brasileiras incluem Grande Otelo (1915-1993) e as cantoras Linda Batista (1919-1988) e Emilinha Borba (1923-2005). São feitas imagens dos festejos no Cassino da Urca e no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Cordões carnavalescos são recriados nos estúdios da Cinédia depois da Quarta-Feira de Cinzas. Imagens das favelas são feitas em technicolor2, com uma câmera de 35 mm, às vezes manuseada pelo próprio Welles.

Four Men on a Raft recria a história de quatro pescadores cearenses que, em 1941, vão de jangada ao Rio de Janeiro, para pedir melhores condições de vida ao presidente Getúlio Vargas (1882-1954). O cineasta lê sobre o assunto na revista Time e decide convocar os pescadores para interpretar os próprios papéis. Na gravação de uma sequência do filme, a jangada emborca e Manuel Olímpio Meira, conhecido como Jacaré, afoga-se. Alguns autores consideram que o acidente contribui para o fracasso do filme. Entre outros motivos que também prejudicam o projeto, estão as mudanças na diretoria da RKO e a recepção negativa do segundo filme de Welles, Soberba (1942). Outra causa é o racismo: comentaristas ouvidos para o documentário The RKO Story, exibido em 1987, indicam que pessoas próximas ao governo brasileiro e integrantes da própria companhia decepcionam-se com a presença de muitos negros nas primeiras imagens de É Tudo Verdade.

Welles consegue concluir as filmagens do episódio sobre os jangadeiros, na praia de Mucuripe, em Fortaleza, com pouco dinheiro e poucos rolos de filme. Em julho de 1942, o diretor e a equipe são chamados de volta aos Estados Unidos. Mais tarde, o cineasta compra o material bruto ainda não sonorizado, mas não consegue arcar com os custos de armazenamento. Ele acredita que o projeto está amaldiçoado.

O material filmado fica guardado, e alguns trechos são usados pela RKO em outros projetos. Décadas mais tarde, boa parte da película é jogada no Oceano Pacífico3. Em 1981, o diretor de serviços técnicos da produtora Paramount Pictures, Fred Chandler, encontra negativos das filmagens ao organizar o armazenamento de novos rolos. O episódio dos jangadeiros é reconstituído e incorporado ao documentário It’s All True – Based on an Unfinished Film by Orson Welles (1993), realizado por Bill Krohn, Myron Meisel e Richard Wilson, assistente de Welles no Brasil. O filme conta a história da produção do projeto original e fornece uma montagem, não sonorizada, para o segmento dos jangadeiros.

É possível reconhecer o estilo de Welles nas tomadas em Mucuripe: um olhar quase etnográfico acompanha a confecção da jangada pelos pescadores. A sequência em que o corpo de Jacaré emerge junto às pedras, impressiona pela dramaticidade: a garotinha que testemunha a cena chora copiosamente. Como pode ser notado nas imagens de bastidores do filme, o cineasta coloca os atores sobre tablados de madeira para elevá-los, possibilitando contra-plongées4 de angulosidade extrema.

Para o crítico de cinema estadunidense Jonathan Rosenbaum (1943), as belas imagens do episódio filiam-se ao estilo dos cineastas russos Aleksandr Dovzhenko (1894-1956) e Sergey Eisenstein (1898-1948). “A profusão de close-ups é muito diferente da mise-en-scène de Citzen Kane e Soberba – filmes em que os closes são raros [...]. Quatro Homens em uma Jangada se estende em belas imagens de uma maneira distinta da dos filmes autênticos de Welles, sempre muito ocupados com seus deveres narrativos e expositórios”5.

O cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004) está entre os pesquisadores que estudam o legado do projeto de Orson Welles. Sganzerla retrata o cineasta como vítima do boicote de grandes estúdios de Hollywood, porque “seu sonho utópico de colaboração industrial e artística entre América do Norte e América do Sul desafiaram de maneira violenta pressupostos neocoloniais da época”6.

Notas

1 Implementada no período de 1933 a 1945, durante a presidência de Franklin Delano Roosevelt, a política de boa vizinhança abandona a prática intervencionista nas relações dos Estados Unidos com a América Latina. O governo estadunidense adota a negociação diplomática e a colaboração econômica e militar com o objetivo de impedir a influência europeia na região e assegurar a liderança norte-americana no hemisfério ocidental.

2 Technicolor, marca pertencente à empresa estadunidense Technicolor Motion Picture Corporation, é o nome usado para uma série de processos de impressão de imagens coloridas em movimento. Em Hollywood, entre os anos 1920 e o início dos anos 1950, trata-se do mais popular processo usado nos filmes em cores, depois do Kinemacolor, britânico.

3 Ver, a esse respeito, BENAMOU, Catherine L. It's All True: Orson Welles’s Pan-American Odyssey. Berkeley: University of California Press, 2007; RIPPY, Marguerite H. Orson Welles and the Unfinished RKO Projects: a post-modern perspective. Carbondale: Southern Illinois University Press, 2009.

4 Posição quando a câmera enquadra um personagem ou objeto de baixo para cima. Também chamada de câmera baixa.

5 Jonathan Rosenbaum. Discovering Orson Welles. Berkeley: University of California Press, 2007. p. 183.

6 STAM, Robert; VIEIRA, João Luiz; XAVIER, Ismail. The shape of Brazilian cinema in the postmodern age. In: JOHNSON, Randal; STAM, Robert (Orgs.). Brazilian Cinema. Nova York: Columbia University Press, 1995. p. 400.

Ficha Técnica da obra É Tudo Verdade:

Fontes de pesquisa (10)

  • IT’S ALL TRUE. Based on an Unfinished Film by Orson Welles. Direção de Richard Wilson, Bill Krohn e Myron Meisel, 1993. Acervo da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
  • THE RKO STORY – Tales from Hollywood. (1987). Série produzida pela BBC. Produtores: Charles Chabot, Leslie Megahey, Rosemary Wilton e Alan Yentob.
  • AUGUSTO, Sérgio.Hollywood Looks at Brazil: From Carmen Miranda to Moonraker. In: JOHNSON, Randal; STAM, Robert (Orgs.). Brazilian Cinema. Nova York: Columbia University Press, 1995. p. 352-361
  • BENAMOU, Catherine L. It's All True: Orson Welles’s pan-american odyssey. Berkeley: University of California Press, 2007.
  • FOUR MEN on a Raft. Time, New York, 8 dez. 1941. p. 30
  • RIPPY, Marguerite H. Orson Welles and the unfinished RKO projects: a post-modern perspective. Carbondale: Southern Illinois University Press, 2009.
  • ROSENBAUM, Jonathan. Discovering Orson Welles. Berkeley: University of California Press, 2007.
  • STAM, Robert.Orson Welles, Brazil, and the Power of Blackness. In: SIMON, William G. (Ed.). Persistence of Vision: the journal of the film faculty of the city university of New York, Nova York, special issue, n. 7, 1989.
  • STAM, Robert; VIEIRA, João Luiz; XAVIER, Ismail. The shape of Brazilian cinema in the postmodern age. In: JOHNSON, Randal; STAM, Robert (Orgs.). Brazilian Cinema. Nova York: Columbia University Press, 1995. p. 387-472
  • DRÖSSLER, Stefan (Ed.). The unknown Orson Welles. Munique: Filmmuseum München; Belleville Verlag, 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • É Tudo Verdade. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69072/e-tudo-verdade>. Acesso em: 16 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7