Artigo da seção obras A Bolsa Amarela

A Bolsa Amarela

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoA Bolsa Amarela: 1976 Local de criação: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Lygia Bojunga
Livro

Histórico
A Bolsa Amarela (1976) é o terceiro trabalho de Lygia Bojunga (1932), que surge na literatura infantojuvenil em 1972, com Os Colegas, e alcança sucesso imediato de crítica e público. O momento, é propício e desafiador para o cultivo do gênero no Brasil, pois, na década de 1970, torna-se obrigatório adotar livros paradidáticos de autores brasileiros no ensino de primeiro grau.1 Com isso, a literatura infantojuvenil redefine-se e dá espaço a uma nova geração de escritores dedicados ao gênero.

Em A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga vale-se da influência da obra de Monteiro Lobato (1882-1948). Ou seja, preserva a subjetividade infantil e os jogos lúdicos da imaginação como contraponto às contradições do mundo adulto. Raquel, uma pré-adolescente, filha temporã de um casal que já tem dois meninos mais velhos, sente-se preterida pela família, centrada nos interesses dos pais e dos irmãos. Sem poder ser feliz na relação com os familiares, a protagonista vê-se às voltas com a impropriedade de suas três “vontades”, objeto de conflito da história. Querer ter nascido garoto e ser grande, suas duas primeiras vontades, traduzem a repressão em que vive. A essas, soma-se uma terceira, a de escrever, derivada do desejo de se comunicar. Tais vontades são abaladas com a bolsa amarela.

O é um presente de segunda mão de uma tia rica, que costuma dar à família o que não lhe convém guardar. A bolsa só chega a Raquel, depois de recusada por todos. Renegada como a nova proprietária, a bolsa torna-se o “esconderijo de suas vontades”, o espaço de resguardo e exercício da imaginação sitiada. Em seu bojo e bolsos, Raquel “guarda”: os nomes que coleciona e lhe servem de destinatários para uma correspondência imaginária, um alfinete de fralda, fotografias, desenhos, pensamentos e suas três vontades.

As peripécias em torno da bolsa começam com a materialização do protagonista de sua primeira tentativa de escrever uma história. O galo Rei é concebido a partir da sugestão de uma amiga imaginária, Lorelei. Em vez de tratar da realidade familiar por meio de cartas, Raquel deveria tentar a ficção. Inventa, assim, a história de Rei, o galo em crise com sua posição (“louco para largar a vida de galo”) e que foge do galinheiro no qual deveria ser a autoridade. A história é interrompida após tornar-se motivo de piada. Com a salvaguarda da bolsa amarela, no entanto, o galo volta a se manifestar, mais uma vez em fuga. Protegido por Raquel, Rei troca de nome (torna-se Afonso) e transforma-se no pivô das aventuras da protagonista. Traz consigo uma companheira, a “guarda-chuva quebrada” (no feminino, como explica Afonso), e um problema, o teimoso primo Terrível, galo de rinha que, às vésperas de um confronto que poderia lhe custar a vida, é preso dentro da bolsa. Afonso impõe sua agenda ao mesmo tempo que abre um horizonte livre às reinações da garota. A ameaça de um primo de tomar a bolsa em um almoço familiar, por exemplo, faz com que Raquel se expresse diante dos adultos. A fuga de Terrível, seguida de sua morte na rinha de galo, leva a garota a retomar a escrita. Já o conserto da guarda-chuva conduz os personagens à Casa de Consertos e à materialização de Lorelei e sua família. Esta, arejada e igualitária, mostra novas possibilidades à vida de Raquel com os adultos. Com Afonso pronto para a vida e sua companheira guarda-chuva consertada, a imaginação de Raquel fica livre. Sem mais vontades reprimidas, surge uma jovem fortalecida, pronta para as lições de uma vida democrática.

Em A Bolsa Amarela, Lygia opõe a formação da subjetividade infantil, ao conservadorismo regulador da vida social. De tal embate, deriva o fundo realista que dá força aos processos intelectuais de Raquel. O vetor político progressista das escolhas da autora é inegável. Ele aparece nas dificuldades de interação com os membros da família, empenhados na reprodução social, para os quais a imaginação é um inconveniente sem valor. Aparece, também, nas peripécias de Afonso, em que a violência surge mediada pelo olhar infantil. No caso dele, vale ressaltar o processo de perseguição, prisão e tortura que se segue à primeira fuga e a chegada ao interior da bolsa com a necessidade de recomeçar a vida com uma ideia por que lutar. Bojunga, vencedora do Hans Christian Andersen, prêmio máximo da literatura infantojuvenil, aponta a necessidade de transformar a imaginação em base para a formação de sujeitos livres. Essa é a grande lição contida em A Bolsa Amarela.

Nota
1 Corresponde ao Ensino Fundamental (1ª a 9ª série).

Ficha Técnica da obra A Bolsa Amarela:

  • Data de publicação
    • 1976
  • Autores
  • Local de publicação
    • Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
  • Editora
    • Agir
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (5)

  • ARALDO, Adriana Falcato Almeida. Sobre voltas e abandonos: literatura infantil/ juvenil, reprodução e renovação de valores sociais. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • BIASIOLI, Bruna Longo. As interfaces da literatura infantojuvenil: panorama entre o passado e o presente. Terra roxa e outras terras. Revista de Estudos Literários, Universidade Estadual de Londrina, v. 9, 2007.
  • LAURITI, Thiago. Violências singulares, textos plurais: um diálogo entre Sapato de salto, de Lygia Bojunga, e As aventuras de Ngunga, de Pepetela. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
  • SANTOS, Daniela Yuri Uchino. Imaginários da linguagem de Alice Vieira e Lygia Bojunga Nunes: a modernidade em diálogo na literatura para crianças e jovens. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
  • SILVA, João Carlos Marinho. Conversando de Monteiro Lobato. Monografia publicada pela Editora Obelisco por ocasião dos 30 anos de Monteiro Lobato. In: ______. O gênio do crime, uma história em São Paulo. São Paulo: Editora Obelisco, 1981.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Bolsa Amarela. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra68401/a-bolsa-amarela>. Acesso em: 19 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7