Artigo da seção obras Caipira de Fato - Voz e Viola

Caipira de Fato - Voz e Viola

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoCaipira de Fato - Voz e Viola: 1997
Discografia

Caipira de Fato é o segundo trabalho da parceria entre a cantora Inezita Barroso (1925-2015) e o compositor Roberto Corrêa (1957). Gravado nos estúdios da RGE, em São Paulo, em 1997, o CD rende a Inezita o Prêmio Sharp de melhor cantora regional daquele ano. O disco dá sequência ao mapeamento de músicas regionais brasileiras iniciado no trabalho anterior da dupla, Voz e Viola (1996). Ambos contam com direção artística de Alfredo Corleto e direção e produção artística de Pelão.

À época do lançamento do show da dupla no Sesc Pompeia, em São Paulo, Pelão – consagrado por produzir ícones da música popular como Cartola (1908-1980) e Nelson Cavaquinho (1911-1986) nos anos 1970 –, declara em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que Caipira de Fato é o segundo de uma série de dez discos que pretende fazer com Inezita e Roberto (embora este anseio não se concretize). Enquanto Voz e Viola se dedica às músicas regionais de norte a sul do país, Caipira de Fato aborda a música caipira, cuja história está ligada à Paulistânia1. Nas palavras do produtor, “a verdadeira [música caipira], que é cara aos que vivem no interior”.

O disco privilegia a voz de contralto de Inezita e a viola caipira de Corrêa, em diversas afinações e arranjos especialmente feitos para o álbum. Os intérpretes têm em comum o perfil de pesquisadores das tradições populares: Inezita, seguindo as concepções de Mário de Andrade (1893-1945), dá um tratamento quase erudito às músicas que reúne pelo Brasil desde os anos 1940. Corrêa lança, em 1998, pelo seu selo, a Série Cultura Popular Viola Corrêa, com documentos sonoros gravados junto a grupos populares.

O repertório de Caipira de Fato reúne uma variedade de gêneros sob o rótulo “música caipira”, como o recortado, a guarânia, a catira, o pagode caipira e a moda de viola. O CD traz uma miscelânea de clássicos representativos das duas primeiras fases da música caipira, isto é, de 1929, quando ela começa a ser gravada por iniciativa de Cornélio Pires (1884-1958), até o início da década de 1960. Exceção feita às faixas Caipira de Fato (Adauto dos Santos, 1997), Cuitelinho (domínio público, adaptada por Paulo Vanzolini e gravada por Nara Leão em 1974), Benzin (domínio público, com arranjo de Roberto Corrêa para este trabalho), Roda Carreta (do compositor gaúcho Paulo Russell, um dos integrantes do grupo vocal carioca Quitandinhas Serenaders) e Burro Chucro, (do advogado Francisco de Assis Bezerra de Menezes, formado no largo São Francisco e frequentador da Turma de Paulo Vanzolini). No disco, Pires é homenageado em três faixas: Bonde Camarão (gravada por Caçula e Mariano, em 1930), Oi Vida Minha (Moda de Peão, s.d.) e Adeus, Campina da Serra (parceria com Raul Torres, que o grava com Serrinha em 1937).

A homenagem se justifica por Cornélio Pires ser o primeiro a patrocinar as gravações de música caipira, num momento em que não há interesse por parte das gravadoras. É ele quem faz a seleção do repertório e do formato, para que se adeque aos discos de 78 rotações por minuto (RPM) da época, preservando a oralidade caipira2. Além de artistas amadores e profissionais, o compositor e produtor revela a moda de viola, gênero conhecido até então apenas no interior. Uma das principais modas foi Bonde Camarão (Cornélio Pires), na qual é o caipira quem faz a leitura da cidade como o ambiente da desordem, invertendo a lógica progressista.

Após o sucesso dos discos da Série Caipira Cornélio Pires, outras gravadoras passam a se interessar pelo filão. Elas incorporam a sonoridade instrumental do choro, mais palatável ao gosto urbano, presente nas emissoras de rádio e nos estúdios fonográficos. Músicos que a princípio não eram “caipiras”, como Raul Torres (1906-1970), se apropriam dessa estética. Isso é perceptível na primeira gravação do cateretê De Papo pro Á (Joubert de Carvalho e Olegário Mariano), por Gastão Formenti (1894-1974) em 1931. Em Caipira de Fato ela é revisitada, executada apenas com viola e voz.

A segunda geração da música caipira é marcada por jovens que escutam estas gravações, já adaptadas ao formato do disco de 78 RPM, e que estão mais próximos das manifestações presentes no interior e nas bordas da cidade, tais como as folias de reis, cateretês e cururus. Em Caipira de Fato, esta geração está representada pela dupla Tonico e Tinoco, intérpretes da moda de viola Chico Mineiro (Tonico e Francisco Ribeiro, 1946) e do corrido Curitibana (Tonico, Tinoco e Pirigoso, 1960). Nesta fase também se destaca a inserção de outros ritmos pelo casamento de sonoridades ibero-indígenas nas regiões de fronteira, como a guarânia e a polca paraguaia, que na seleção de Inezita e Corrêa são aludidas em Ciriema (Mário Zan e Nhô Pai, gravado em 1947 pelas Irmãs Castro), acompanhada por Corrêa com uma viola de cocho, e Roda Carreta (Paulo Ruschell, gravado pelo Conjunto Farroupilhas em 1957).

Neste período também se destaca o pagode de viola, síntese do cururu com o recortado, que tem em Tião Carreiro (1934-1993) sua maior expressão. Nascido no norte de Minas Gerais, o músico intuitivamente incorpora o modo mixolídio às suas composições, escala frequentemente usada na música nordestina. De sua autoria (em parceria com Lourival dos Santos), estão presentes na versão de Inezita os pagodes A Viola e o Violeiro (1962) e A Coisa Tá Feia (1983), que, segundo Corrêa, é onde o estilo de Tião Carreiro está mais definido. Para demonstrar essas nuances, Corrêa toca A Viola e o Violeiro como um recortado, passando para um pagode só no fim.

Esta composição, espécie de panfleto em defesa da “legítima” música caipira, é escolhida para fechar o álbum:

 

                                          [...] este pagode é um recado
                                          As músicas do estrangeiro quer invadir nosso mercado
                                          Vamos fazer uma guerra cada violeiro é um soldado
                                          Nossa viola é uma carabina, nosso peito um trem blindado
                                          A viola e o violeiro é que não pode ser derrotado


Incluída nesta coletânea, a composição evidencia, primeiro, o aspecto de sua historicidade, já que nos anos 1960 o cenário musical se transforma pela influência do rock, e a música caipira sofre alterações tanto em sua temática como em seu padrão sonoro, relegando ao segundo plano os músicos que não se adequam. Segundo, o desejo dos realizadores, nos anos 1990, de reconstruir certa memória em torno do gênero e cultivar sua sobrevivência. Caipira de Fato estabelece, assim, um diálogo entre a história e a memória.

Notas
1 Segundo Ivan Vilela, região povoada pelas bandeiras, que coincide com áreas de acomodação da cultura caipira, isto é, São Paulo, Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Goiás, Mato Grosso do Sul, parte de Mato Grosso, norte do Paraná e parte de Tocantins. VILELA, Ivan. Cantando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 2013, p.42.
2 A oralidade caipira é um desdobramento ou uma variação dialetal do nheengatu, consolidado como a “língua geral paulista” no século XVII por meio do bandeirismo. O nheengatu tem como traço a maneira peculiar de articular certos sons, como “lh” e o “r”, que provém da fonética ameríndia ao falar o português. 

 

Fonogramas
1. Caipira De Fato
    (Adauto Santos)

2. Chico Mineiro
    (Tonico / Francisco Ribeiro)

3. Adeus Campina da Serra
    (Raul Torres / Cornélio Pires)

4. Cuitelinho
    (Tradicional / Adpt. Paulo Vanzolini)

5. Ciriema
    (Mário Zan / Nhô Pai)

6. Benzin
    (Tradicional)

7. Curitibana
    (Tonico / Tinoco / Pirigoso)

8. A Coisa Tá Feia
    (Tião Carreiro / Lourival dos Santos)

9. Bonde Camarão
    (Cornélio Pires)

10. De Papo Pro Á
    (Joubert de Carvalho / Olegário Mariano)

11. Oi Minha Vida (Moda De Peão)
    (Cornélio Pires)

12. Burro Chucro
    (Francisco de Assis Bezerra de Menezes)

13. Roda Carreta
    (Paulo Ruschell)

14. A Viola e o Violeiro
    (Tião Carreiro / Lourival dos Santos)

Ficha Técnica da obra Caipira de Fato - Voz e Viola:

Fontes de pesquisa (8)

  • MORAES, José Geraldo Vinci de. As sonoridades paulistanas: a música popular na cidade de São Paulo – final do século XIX ao início do século XX. Rio de Janeiro: Funarte, 1995. 208 p.
  • A MÚSICA Brasileira deste século pelos seus autores e intérpretes. Inezita Barroso. Vol. 4, CD 07. 1 CD de música. São Paulo: SESC : Fundação Padre Anchieta, 2001.
  • DIAS, Mauro. Inezita interpreta a canção caipira de fato. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 mar. 1998. Caderno 2. p. 60.
  • MORAES. José Geraldo Vinci de. Metrópole em Sinfonia: História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música caipira. Da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999. p.323-335.
  • ROBERTO CORRÊA. Site oficial do artista. Disponível em: http://robertocorrea.com.br/. Acesso em: 27 jun. 2015.
  • SANT’ANNA, Romildo. Moda caipira: dicções do cantador. Revista USP, São Paulo, n° 87, Dossiê Música Brasileira, p. 40-55, set-nov/2010.
  • VILELA, Ivan. Cantando a própria história: música caipira e enraizamento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 2013.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CAIPIRA de Fato - Voz e Viola. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67601/caipira-de-fato-voz-e-viola>. Acesso em: 17 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7