Artigo da seção obras A Peleja do Diabo com o Dono do Céu

A Peleja do Diabo com o Dono do Céu

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoA Peleja do Diabo com o Dono do Céu: 1979
Discografia

Segundo disco do compositor, cantor e violonista Zé Ramalho (1949), A Peleja do Diabo com o Dono do Céu é gravado em junho de 1979 e lançado em setembro do mesmo ano. Depois do sucesso do álbum de estreia, o compositor lapida seu segundo trabalho, cujo título remete ao universo da literatura de cordel, também aludido pelo filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), uma de suas referências. Registrado em oito canais no estúdio da Epic/CBS, o LP traz dez faixas, todas de sua autoria, e rende-lhe o primeiro disco de ouro da carreira. Conta com a produção de Carlos Alberto Sion, que assina a direção musical ao lado de Paulo Machado, responsável pela regência e pelos arranjos de cordas e metais, e, ainda, Zé Ramalho, que se encarrega dos arranjos de base.

Zé Ramalho envolve-se na concepção da capa e financia sua produção. Nela, aparecem o compositor empunhando o violão, no papel de “Dono do Céu”, resistindo à tentação de uma mulher vampiresca, interpretada pela atriz Xuxa Lopes (1953), e seu rival, protagonizado pela figura diabólica do cineasta José Mojica Marins (1936), o Zé do Caixão. Tendo como cenário um casarão abandonado em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, a fotografia é dirigida pelo cineasta Ivan Cardoso (1952), e reúne ainda Satã (produtor e guarda-costas de Zé do Caixão), Mônica Schmidt e o artista Hélio Oiticica (1937-1980), vestindo um de seus parangolés. Ilustrações do caricaturista Seth [Álvaro Marins (1891-1949)], e símbolos criados pelo artista plástico Raul Córdula (1943) completam o visual do encarte.

A composição inusitada traduz em imagens a sonoridade do álbum. Embora mantenha a psicodelia do trabalho anterior, A Peleja estreita laços com a cultura musical nordestina. Duas faixas destoam do conjunto da obra: “Garoto de Aluguel (Táxi Boy)”, que recebe instrumentação apenas de cordas, reforçando a dramaticidade da letra, quase autobiográfica; e a balada-rock “Jardim das Acácias”, na qual a guitarra elétrica distorcida de Pepeu Gomes (1952) atinge o ápice.

O músico consolida, neste disco, seu estilo, que recorre mais à declamação. Letras extensas, entoadas em tom profético, remetem ao folk de Bob Dylan (1941), aos repentes de Otacílio Batista (1923) e ao surrealismo do cantador Zé Limeira (1886-1954). Isto é perceptível na gravação de “Frevo Mulher”, composta inicialmente para o repertório da cantora Amelinha (1950), que, na versão de Zé Ramalho, torna-se mais grave e enigmática. O contraponto entre as duas maneiras de cantar evidencia-se no choro-canção “Pelo Vinho e Pelo Pão”, com a participação da cantora, sua esposa à época.

Embora no trabalho do compositor prevaleçam as canções de conteúdo místico, A Peleja traz algumas de teor político e crítica social, ainda que repletas de alegorias e simbolismos. Transitando por diferentes gêneros musicais, o álbum resume a visão de mundo do cantor, numa espécie de eletrificação dos repentes. A faixa-título abre o disco em ritmo de forró:

Ói, com tanto dinheiro girando no mundo
Quem tem pede muito quem não tem pede mais
Cobiçam a terra e toda a riqueza
Do reino dos homens e dos animais.

“Admirável Gado Novo”, canção que tem o baião como base rítmica e instrumental, reflete sobre as contradições de uma sociedade capitalista, massificada, sob um regime autoritário. Incluída em seus shows desde 1978, a música torna-se conhecida e aclamada pelo público antes do lançamento em disco. O título remete ao universo criado por Aldous Huxley (1894-1963), em Admirável Mundo Novo (1932). O refrão, em forma de aboio “Êh, ô, vida de gado”, já usado em outras canções populares [como na “Toada de Gado”, de Vavá Machado (1946?-2012) e Arlindo Marcolino, musicada pelo Quinteto Violado, em 1976], é ressignificado pelo compositor. Na versão de Ramalho torna-se metáfora da sina do povo que “foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela”. Além da letra marcante, a canção fixa-se na memória popular pelo arranjo de cordas e a instrumentação, que deixam em segundo plano a combinação entre o violão rascante de Zé Ramalho e o violão de 12 cordas arpejado de Geraldo Azevedo. Mais tarde, a música seria usada como tema dos sem-terra na novela O Rei do Gado (1996), da TV Globo, alcançando a venda de 2 milhões de cópias da trilha.

A terceira faixa, “Falas do Povo”, dialoga com outro importante compositor na formação de Zé Ramalho, Geraldo Vandré (1935), a quem dedica a canção. Mais poética que panfletária, ela se aproxima do tom grave de canções de incelença, pontuada pelo violino de Jorge Mautner (1941) e a zabumba de Borel. A semelhança na afinação das cordas e na rítmica entre a música nordestina e a ibero-mourisca, reaparece na faixa instrumental “Agônico”, na qual Zé Ramalho executa todos os instrumentos (violas, baixo, percussão, tambor, piano, pandeiro e efeitos vocais). Essa música, cujo título foi dado por Jorge Mautner, só recebe letra no disco Eu Sou Todos Nós (1998), na faixa “Agônico - O Canto”.

Recorrendo a uma das modalidades do repente, o galope “Beira-Mar”, é das faixas mais intimistas do disco. Ele é antecipado pelo livreto Apocalypse (1975), escrito por Ramalho, dividido em duas partes: a primeira sob a forma de martelo-agalopado, a segunda, em galope à beira-mar. “Beira-Mar” é a primeira de uma sequência de três composições, seguida por “Beira-Mar – Capítulo II” (lançada no disco Força Verde, de 1982), e “Beira-Mar – Capítulo Final” (de Eu Sou Todos Nós). Com formato derivado do martelo-agalopado, este gênero segue a estrutura de rima simétrica da décima espinela[1], acentuando a segunda, quinta, oitava e 11ª sílabas, encerrando a estrofe com a palavra “mar”.

Apropriando-se das variações do repente, Zé Ramalho compõe o “Mote das Amplidões”. Sustentada no esquema da décima (estrofes de dez versos heptassílabos), o compositor glosa o mote

Nada digo e tudo faço
Viajo nas amplidões,

entremeado pelo arranjo de flautas e arp-string de Paulo Machado. Revisitando as fontes populares, o compositor confere um tom moderno e transgressor a estruturas tradicionais.

Ficha Técnica da obra A Peleja do Diabo com o Dono do Céu:

  • Data de lançamento
    • 1979
  • Autores
  • Formato
    • LP

Fontes de pesquisa (8)

  • ALMEIDA, Miguel de. Amelinha e Zé Ramalho no parque, com Frevo Mulher. Folha de S. Paulo, São Paulo, 31 maio 1980. Ilustrada. p. 30.
  • AS PESSOAS da cidade grande, na visão de Zé Ramalho. Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 nov. 1978. Ilustrada. p. 41.
  • BELTRÃO, Petronio Fernandes. A insurgência, o visionarismo e a nordestinidade como marcas identitárias do sujeito-poeta-cantor Zé Ramalho. 2012. 85 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2012.
  • LUCIANO, Aderaldo. 35 anos de A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu. Jornal GGN, 18 ago. 2014. Disponível em: < http://jornalggn.com.br/blog/aderaldo-luciano/35-anos-de-a-peleja-do-diabo-com-o-dono-do-ceu >. Acesso em: 13 out. 2015.
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol. 2: 1958-1985. São Paulo: Editora 34, 1998. (Ouvido Musical).
  • VILLAÇA, Túlio. Na beira do mar. Blog Sobre a canção. Disponível em: < https://tuliovillaca.wordpress.com/2012/01/25/na-beira-do-mar/ >. Acesso em: 16 out. 2015.
  • ZÉ RAMALHO. Entrevista concedida a Charles Gavin, para o programa O Som do Vinil. Canal Brasil, Episódio 27, 2012.
  • ZÉ RAMALHO. Site oficial do artista. Disponível em: < http://zeramalho.com.br/ >. Acesso em: 13 out. 2015.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67498/a-peleja-do-diabo-com-o-dono-do-ceu>. Acesso em: 25 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7