Artigo da seção obras São Bernardo

São Bernardo

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoSão Bernardo: 1934 | Graciliano Ramos
Livro

Análise
Publicado em 1934, São Bernardo é o segundo romance de Graciliano Ramos (1892-1953). Narrado em primeira pessoa, a obra estrutura-se nas memórias de Paulo Honório, proprietário da fazenda São Bernardo no município de Viçosa, Alagoas. O fato de iniciar “a própria história”1 pelo registro de seu nascimento – no qual não há o nome dos pais nem a data de aniversário – revela o arranjo das lembranças do protagonista como ser social, não em sua formação subjetiva. Paulo Honório apresenta a sociedade do agreste nordestino por meio do testemunho de sua infância miserável (“Julgo que rolei por aí à toa”2), amparado por uma doceira negra, Margarida; da atividade de lavrador, interrompida pela breve prisão decorrente de um assassinato; seguida pelo empenho no comércio e na agiotagem. Por meio desta, enreda em dívidas Luis Padilha, herdeiro de São Bernardo, até forçá-lo a vender-lhe a fazenda, de terras improdutivas e ameaçadas pela cobiça de Mendonça, proprietário de terras vizinhas. De posse de São Bernardo, Paulo Honório refreia a invasão do vizinho e, depois da morte de Mendonça, toma porções de terra dele e de outros fazendeiros, instaurando seu poder regional com violência e abusos.

A consolidação de São Bernardo como propriedade produtiva e a ascensão de Paulo Honório a temido e importante latifundiário, tendo em suas mãos a imprensa e a justiça locais, suscitam no protagonista o desejo de se casar e deixar um herdeiro. Parafraseando o crítico João Luis Lafetá, à posse de São Bernardo, sucede a “posse” de Madalena, mulher de hábitos urbanos e professora concursada do Estado de Alagoas. Paulo Honório aproxima-se dela pedindo que dirija uma escola fundada na fazenda (concessão que o protagonista faz ao governador do Estado com o único intuito de lhe agradar). Por fim, pede-a em casamento. Inicia-se, então, um novo momento na vida do protagonista. A mulher e a tia dela, D. Glória, circulam pela propriedade, entrando em contato com seus diversos funcionários e reorganizam as relações brutais de mando na fazenda. Com isso, o latifundiário vê seu poder ameaçado. Não demora para que Madalena lhe dê o herdeiro pretendido, contudo, sua ação humanizadora é confrontada com violência por Paulo Honório. Em pouco mais de um ano, o casamento perde-se em desentendimentos e na crescente paranoia do protagonista, na qual os ciúmes de Madalena com Luis Padilha (agora professor da escola de São Bernardo e simpatizante do comunismo), misturam-se à possibilidade do distúrbio da ordem social. Ele cerceia as ações da esposa a ponto de levá-la, em pouco tempo, à doença e ao suicídio. Com a morte de Madalena, três anos depois de casados, desfaz-se o poder do autocrata: com o tempo, alguns daqueles que se submetiam a seus desmandos (Padilha, o padre Silvestre e caboclos) opõem-se a ele. Seus tentáculos na imprensa (Costa Brito e Azevedo Gondim) e nas leis (dr. Magalhães e João Nogueira) perdem o poder ou seguem a direção dos novos ventos. As safras ruins e a nova ordem política levam à derrocada de Paulo Honório e ao início de suas memórias.

Por meio dessas memórias, Graciliano Ramos explora a formação e reprodução social do agreste brasileiro. Do sertão nas primeiras décadas do século XX, Paulo Honório conhece todos os aspectos: a miséria, o trabalho brutal, a violência nas relações humanas, a condição dos que não dispõem de posses e a propriedade da terra como princípio do poder. Ao mesmo tempo,Graciliano fala da ascensão de um tipo moderno. “Pois Paulo Honório”, diz João Luis Lafetá, “representante da modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador"3.

O estudo da sociedade do sertão nordestino sob a perspectiva de sua modernização é uma das conquistas do romance. Ela permite a Graciliano instalar seu agreste no contexto das lutas e transformações que marcam as décadas de 1920 e 1930 no Brasil. Nelas, vê-se a derrota da política monocultora e concentrada na mãos de paulistas e mineiros e a ascensão de Getúlio Vargas, acompanhada de duas revoluções (1930 e 1932). “Revolução” é palavra que arde na boca de Paulo Honório: é combatida na voz dos ideólogos (Padilha e Padre Silvestre), sob o receio de turbulências que afetem a racionalidade econômica de São Bernardo, e temida na figura de Madalena, em quem a traição amorosa ganha simbolismo político (“Você também é revolucionária?”4). Nesse sentido, pode-se dizer, com Edmundo Juarez Filho, que a narrativa de São Bernardo apoia-se no “mimetismo histórico”, “um microcosmo da assim chamada modernização conservadora”5, preservados seus tipos e, num sentido alegórico, suas circunstâncias. Paulo Honório surge como exemplo do “coronel industrialista”, assimilando ao poder tradicional as novas estruturas políticas e de formação da opinião pública.

Ao mesmo tempo, a construção de Paulo Honório com base na formação social moderna permite a Graciliano dialogar com a tradição literária brasileira de maneira particular. Como história de traição amorosa, Graciliano explora em São Bernardo elementos próprios ao grande clássico da literatura nacional, Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis (1839-1908). Mais do que duas histórias de paranoia e traição, ambas partem do esforço memorialista de seus protagonistas de passar a vida a limpo. O desmando político e social que os constitui como elite dominante espelha-se no fracasso de seus relacionamentos amorosos. Dessa perspectiva, Graciliano se apresenta como leitor de Machado, assinalando, por meio dos ciúmes de Paulo Honório, um lugar-comum psicológico (também presente em Bentinho, protagonista de Dom Casmurro) que serve como fio condutor para a exposição de um comportamento de classe.

Notas
1 RAMOS, Graciliano. São Bernardo (posfácio de João Luis Lafetá). 53 ed. Rio de Janeiro: Record, 1990. p. 10.

2 Idem, ibidem. p.12.

3 Idem, Ibidem. p. 196-197.

4 Idem, ibidem. p. 127.

5 JUAREZ FILHO, Edmundo. História e alegoria em São Bernardo, de Graciliano Ramos. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. p. 25-26 .

Ficha Técnica da obra São Bernardo:

Fontes de pesquisa (3)

  • JUAREZ FILHO, Edmundo. História e alegoria em São Bernardo, de Graciliano Ramos. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. 
  • MOURA, Edilson Dias de. As ilusões do romance: Estrutura e Perepção em São Bernardo, de Graciliano Ramos. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
  • RAMOS, Graciliano. São Bernardo (posfácio de João Luis Lafetá). Rio de Janeiro: Record, 1990 (53ª. edição).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SÃO Bernardo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67382/sao-bernardo>. Acesso em: 17 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7