Artigo da seção obras Sonho de Rose, 10 Anos Depois

Sonho de Rose, 10 Anos Depois

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoSonho de Rose, 10 Anos Depois: 1997 | Tetê Moraes
Filme

Análise
O Sonho de Rose, 10 anos depois (1997) é um documentário de longa-metragem dirigido por Tetê Moraes (1943). O roteiro é assinado por Paulo Halm (1962) e Tetê Vasconcellos, e a música tema “Assentamento” é de Chico Buarque (1944). Com produção da Vemver Brasil, o documentário é financiado, em grande parte, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e traz a situação das famílias assentadas na fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul.

O projeto é uma continuidade do documentário Terra para Rose (1987), no qual Tetê Moraes trata o problema da reforma agrária no Brasil, tendo como foco as 1.500 famílias que ocupam a fazenda Annoni, em 1987. No primeiro filme, a diretora destaca a participação feminina durante o processo de ocupação da fazenda. Uma das protagonistas desse episódio, que marca o início do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é a trabalhadora Roseli Celeste Nunes da Silva (1954-1987), a Rose, referida no título do filme anterior. Rose morre atropelada, em um acidente nunca esclarecido. A diretora retorna à fazenda para ouvir as histórias de como aquelas famílias estabeleceram suas vidas. O Sonho de Rose, assim como o filme anterior, tem narração da atriz Lucélia Santos (1957), alternada com as falas da própria diretora e as entrevistas com os moradores da fazenda.

Nas falas dos trabalhadores, nota-se a importância das ações na fazenda Annoni e da inserção no MST, como maneiras de constituírem suas cidadanias. As formas de produção desenvolvidas nos cinco assentamentos ganham destaque, trazendo as atividades de cultivo das cooperativas, o funcionamento institucional da fazenda, bem como os mercados e as escolas. O filme apresenta, ainda, as famílias que optaram por não participar de cooperativas, formando associações.Os membros das associações trabalham individualmente, fazendo, no entanto, uso coletivo do maquinário necessário para o cultivo da terra.

O documentário se constrói de tal forma que a relação coletiva entre os moradores da fazenda é sempre valorizada. Esse ponto explicita-se, por exemplo, nas falas de dos trabalhadores assentados Darci e Egon. O primeiro deles opta pelo trabalho coletivo, nas cooperativas, enquanto o segundo decide pelo trabalho individual, participando, entretanto, de uma associação. A fala de Darci inicia-se enquanto a câmera acompanha sua caminhada pela fazenda. Ele conta que optou pelo trabalho na cooperativa, mas respeita a decisão daqueles que preferem produzir individualmente. Para ele “mesmo optando por esse tipo de trabalho [individual] eles moram com a gente na Agrovila, sem nenhum problema. E, inclusive, trocamos trabalho”. As palavras finais de Darci são pronunciadas, enquanto surgem imagens suas trabalhando em um trator, que se afasta da câmera. Na sequência, Egon é acompanhado de perto pela câmera, também utilizando um trator que, nesse momento, aproxima-se da câmera. Essa passagem da imagem de Darci para a de Egon sugere um discurso comum entre os dois. Egon substitui Darci na cena, sem interrupção abrupta, e suas palavras ressoam com as do companheiro. Ele explica que faz parte de uma associação, formada por cinco famílias, que dividem os materiais de trabalho. Segundo Egon, essa associação “é o que viabiliza tocar a propriedade”. As falas dos dois trabalhadores colocadas em sequência, bem como a passagem das cenas, reforça a importância da experiência coletiva, em maior ou menor dimensão.

O jornalista Eduardo Valente considera que apesar da importância política de O Sonho de Rose, 10 anos depois, e de mostrar um exemplo bem-sucedido dos assentamentos conquistados pelo MST, no que se refere a linguagem documental, o filme incorre numa série daquilo que ele considera “defeitos”. De acordo com Valente, o filme não parece acreditar no poder de emocionar, informar e levar a tomada de posições, daquilo que documenta. Utiliza, em suas palavras, uma trilha sonora exagerada e piegas e narração em voz off que não o diferenciam dos artifícios de "ficcionalização" da grande mídia. Essa situação explicita-se, quando Lucélia Santos afirma “Na Annoni vão todos muito bem obrigada! E cada qual encontrou o seu jeito de trabalhar. Uns em coletivo outros em família, tirando da terra tudo o que ela pode dar”. A voz off tem como fundo a versão instrumental da música tema do filme “Assentamento. As imagens trazem as atividades produtivas da fazenda e suas construções, alternando planos abertos e fechados. Essa sequência é apresentada logo após as entrevistas de Darci e Egon e apresentam um tom dissonante daquele verificado nas falas dos trabalhadores. Enquanto eles explicam com firmeza suas decisões, a narração ganha ares condescendentes.

O documentário é importante para a construção de uma imagem positiva do MST, ainda hoje discriminado no Brasil. Bem como para as discussões sobre a reforma agrária, que avança pouco desde a ocupação da fazenda Annoni. O Sonho de Rose ganhou, entre outros, os prêmios de Melhor Documentário pelo júri popular no Festival do Rio BR; Melhor Documentário pelo júri popular na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo; e Prêmio documentário Memória do Centro Cultural Pablo de La Torriente Brau no Festival del Nuevo Cine Latinoamericano, Havana.

Notas
1  VALENTE, Eduardo. “O Sonho de Rose-10 anos depois”. Contracampo, Rio de Janeiro, n. 22, 2000. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/22/sonhoderose.htm >. Acesso em: 23 dez. 2015.

Ficha Técnica da obra Sonho de Rose, 10 Anos Depois:

Fontes de pesquisa (5)

  • CINEMATECA Brasileira. Disponível em: < http://www.cinemateca.gov.br/ >. Acesso em: 10 nov. 2015.
  • LESSA, Rodrigo Oliveira. Modos de Apreensão e representação da luta social do MST no cinema documentário: da terra ao sonho de Rose. Revista café com sociologia, Piúma (Espírito Santo), v. 2, n. 2., ago. 2013. Acesso em 07 nov. 2015.
  • MULHERES do cinema brasileiro. Disponível em: < http://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/ >. Acesso em 10 nov. 2015.
  • SILVA, João Guilherme Barone Reis e. A legião dos rejeitados: notas sobre exclusão e hegemonias no cinema brasileiro dos anos 2000. Revista Famecos: mídia, cultura e tecnologia, Porto Alegre, v. 20, n. 3, p. 776-819, set./dez. 2013. Disponível em: < http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/15915/10796 >. Acesso em: 7 nov. 2015.
  • VALENTE, Eduardo. “O Sonho de Rose-10 anos depois”. Contracampo, Rio de Janeiro, n. 22. Brasil, 2000. Disponível: <http://www.contracampo.com.br/22/sonhoderose.htm>. Acesso em: 23 de dez. 2015.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SONHO de Rose, 10 Anos Depois. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67381/sonho-de-rose-10-anos-depois>. Acesso em: 26 de Set. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7