Artigo da seção obras Terra para Rose

Terra para Rose

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoTerra para Rose: 1987 | Tetê Moraes
Filme

Análise
Terra para Rose é um documentário de longa-metragem dirigido por Tetê Moraes (1943). O roteiro é uma parceria com o cineasta José Joffily (1945), narrado pela atriz Lucélia Santos
(1957). Com produção da Vemver Comunicação e coprodução da Embrafilme, apresenta a história da luta das famílias assentadas nas terras da fazenda Annoni, Rio Grande do Sul. Focando na atuação das mulheres no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), como a de Roseli Celeste Nunes da Silva (1954-1987), a Rose, o filme é uma narrativa sobre os conflitos em torno das questões agrárias no Brasil.

Tetê Moraes acompanha a invasão da fazenda Annoni, a marcha dos trabalhadores sem terra até a cidade de Porto Alegre, o acampamento na Assembleia Legislativa gaúcha e a volta para a fazenda Annoni. Em agosto de 1987, quando se encerram as filmagens, das 1.500 famílias ali acampadas, 170 estão assentadas em fazendas desapropriadas na região. Na Annoni, 1.200 famílias continuam aguardando uma solução.

O filme é dividido em seis blocos: “A Promessa”, “A Pressão”, “A Espera”, “O Confronto”, “O Sonho” e “ A Trégua”, cada qual separado pela imagem centralizada de uma carroça. Uma espécie de prelúdio para os blocos abre as sequências: inicia-se com um plano fechado e imagens dos trabalhadores sem terra, em especial, mulheres e crianças. Em um primeiro  momento, a câmera acompanha o caminhar dos trabalhadores, focalizando seus pés, para, em seguida, apresentar suas fisionomias. O plano se abre e surge a imagem de uma ponte, sobre a qual passam os trabalhadores. O plano volta a se fechar e mostra-os parados, empunhando galhos de plantas, enquanto cantam o hino nacional. Nesse momento, o público é apresentado à Rose, identificada por uma legenda.  

Na sequência passa-se ao primeiro bloco do documentário, “A Promessa”, aberto com a imagem da bandeira brasileira centralizada em um plano fechado (a bandeira encontra-se no Palácio do Planalto, e sua imagem será apresentada outras vezes). Ouve-se o hino nacional em versão instrumental. O plano começa a se abrir e mostra o Congresso Nacional. Em voz off, Lucélia Santos fornece dados relativos à questão agrária, em um texto que enfatiza as desigualdades relativas à produção agropecuária no Brasil. Em seguida, são apresentadas imagens de arquivos, em particular, vídeos de reportagens televisivas com os desdobramentos das declarações do presidente José Sarney, que cria o Ministério do Desenvolvimento e da Reforma Agrária. De acordo com Aramis Millarch (1943-1992), em artigo publicado em outubro de 1987, a cineasta é implacável na crítica à Nova República, ao colocar o presidente José Sarney e o ministro da reforma agrária como responsáveis pela situação dos trabalhadores da Annoni.

No segundo bloco da narrativa, “A Pressão”, enquanto a câmera apresenta cenas da fazenda, a narradora conta que o processo de desapropriação da Fazenda Annoni teve início em 1972. Uma série de apelações dos proprietários fez com que o processo não fosse concluído. Em outubro de 1985, a fazenda foi ocupada. Alguns minutos depois, a câmera apresenta Rose, relatando a história da ocupação da fazenda. A fala de Rose é intercalada à de Bolívar Annoni, identificado com a legenda “proprietário rural”. Este cotejo coloca os relatos em perspectiva e evidencia a articulação de Rose, e a desarticulação de Bolívar Annoni, em suas respectivas falas.

Rose é apresentada, por meio de suas palavras, como uma mulher determinada e engajada. A trabalhadora afirma sobre o dia da ocupação: “Não tinha medo nenhum”, e em seguida, ao ser questionada sobre a opinião do marido diz: “Ele não queria que eu fosse...mas eu disse eu vou”. Ela reproduz, então, uma fala do marido “tu que sabe, se tu quiser ir, se acha que tu pode ir”, E na sequência conta, em tom enfático, sua reposta a ele: “Se acha não, eu posso..e vou”. Essa maneira de retratar e dar voz às mulheres atribui ao filme um sentindo político, que não apenas a luta pela terra, mas a valorização da participação feminina nas lutas sociais.

Como observa a pesquisadora Renata Soares da Costa Santos, a escolha de Rose para protagonizar o documentário, tem aspecto simbólico: ela deu à luz, em 1 de novembro de 1985, à primeira criança nascida no acampamento, Marcos Tiaraju, que surge como um símbolo de vida e de esperança e este aspecto  fica explícito nas cenas finais. Por meio da narradora, sabemos que Rose morre atropelada, o que cria um clima de tristeza. No entanto, nos instantes finais, um tom de esperança, associado a Marcos, ganha a cena: Rose segurando seu filho diz: “Espero que quando ele esteja grande, tudo isso não seja em vão, que tenha futuro melhor”. Para além da dimensão simbólica, Costa Santos enfatiza que a escolha de Rose como personagem principal é resultado de sua participação decisiva nos protestos, como a própria diretora sublinha em entrevista .Como destaca Aramis Millarch, o filme trata da reforma agrária com um olhar assumidamente feminino, a numa leitura didática, revolucionária e comunicativa.

Terra para Rose recebe prêmios como o Prêmio Gran Coral como Melhor Filme no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, Havana; Melhor Direção de Longa Metragem em 16 mm e Melhor Fotografia em Longa-Metragem em 16 mm no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Notas

1 MILLARCH, Aramis. “Terra Para Rose”, o documentário do ano. O Estado do Paraná, Curitiba, 25 out. 1987. Almanaque, p.3. Disponível em: < http://www.millarch.org/artigo/terra-para-rose-o-documentario-do-ano >. 
2 Idem.
3 SANTOS, Renata Soares da Costa. O cinema como registro. Cenas de violência e gênero no documentário brasileiro. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, n. 40, ano 22, p. 92, 1º sem. 2009. 
4 Idem
5 Millarch, Aramis. Op. Cit. 

Ficha Técnica da obra Terra para Rose:

Fontes de pesquisa (6)

  • CINEMATECA Brasileira. Disponível em: < http://www.cinemateca.gov.br/ >.
  • FILME B. Disponível em: < http://www.filmeb.com.br >
  • LESSA, Rodrigo Oliveira. Modos de Apreensão e representação da luta social do MST no cinema documentário: da terra ao sonho de Rose. Revista café com sociologia, Piúma (Espírito Santo), v. 2, n. 2., ago. 2013. Acesso em 07 nov. 2015. p. 50-66.
  • MILLARCH, Aramis. “Terra Para Rose”, o documentário do ano. O Estado do Paraná, Curitiba, 25 out. 1987. Almanaque, p.3. Disponível em: < http://www.millarch.org/artigo/terra-para-rose-o-documentario-do-ano >.
  • MULHERES do cinema brasileiro. Disponível em: < http://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/ >. Acesso em 10 nov. 2015.
  • SANTOS, Renata Soares da Costa. O cinema como registro. Cenas de violência e gênero no documentário brasileiro. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, n. 40, ano 22, p. 92, 1º sem. 2009. p. 91-101.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TERRA para Rose. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67380/terra-para-rose>. Acesso em: 22 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7