Artigo da seção obras Sábado

Sábado

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoSábado: 1994 | Ugo Giorgetti
Filme

Análise
Sábado (1994) é o quarto longa-metragem do cineasta paulista Ugo Giorgetti (1942). O filme traz questões do interesse do diretor e roteirista presentes nos longas anteriores Jogo Duro (1985) e Festa (1989): o embate entre personagens marginalizados e a opulência, o olhar melancólico para a realidade, o humor fino e a preferência por contar a história em um único espaço. Sábado é todo filmado em estúdio, com exceção de duas cenas externas. Nele, é construído o Edifício das Américas, inspirado pelo Edifício Martinelli, tema de um média-metragem de Giorgetti de 1975. O filme é realizado na retomada do cinema brasileiro, após o desmonte operado pelo governo do presidente Fernando Collor de Mello (1949), contando com a Lei Mendonça, lei de incentivo municipal paulistana.

Num sábado quente, uma equipe de filmagem vai ao Edifício das Américas, no centro de São Paulo, rodar um comercial, Winter, de atmosfera europeia. A equipe ocupa o hall de entrada e utiliza o elevador que é marco arquitetônico dos anos 1940. O prédio, antes habitado pela classe alta, abriga a classe média baixa. Paralelamente à filmagem do comercial, dois funcionários do Instituto Médico Legal (IML) [Otávio Augusto (1945) e Tom Zé (1936)] buscam um cadáver [Gianni Ratto (1916)] no edifício. O outro elevador do prédio quebra com a equipe do IML, o cadáver, a diretora de arte do comercial [Maria Padilha (1960)] e um transeunte [André Abujamra (1965)]. Sem acesso aos elevadores, os moradores não conseguem chegar em seus apartamentos, aglomerando-se no hall de entrada, junto com a equipe de filmagem.  

Em Jogo Duro e em Festa, Ugo Giorgetti preocupa-se em retratar os marginalizados da sociedade e como eles veem e se relacionam com as classes mais abastadas. Jogo Duro narra a história de três personagens dentro de um casarão vazio em um bairro decadente de São Paulo. Festa, por sua vez, acompanha três personagens contratados para animar uma festa de ricos e que têm de esperar confinados numa sala. Em Sábado, o cineasta coloca os marginalizados e os ricos em conflito direto, fazendo-os conviver por horas, mesmo contra a vontade. O abismo social separa a equipe de filmagem, que esbanja riqueza (roupas de grife, excesso de comida, desperdício de negativo, preocupações fugazes), dos outros.  

Em Sábado, Giorgetti retrata a diferença de classes com crítica e minúcia. Usa o humor e a comédia como forma de evidenciar as questões sociais que lhe incomodam no Brasil. Seu humor é contido e melancólico, sem apostar na piada e no riso fáceis. Exemplo disso é quando Magda Bloom, a diretora de arte, logo após ficar presa no elevador, começa a se indagar se está segura naquele ambiente. Os homens com os quais está confinada têm uma aparência estranha (ela diz em voz over: “Que gente é essa? De onde eles saíram? Olha as caras!”). Giorgetti trabalha o registro caricatural, em um tom acima do naturalismo, para compor o absurdo das situações. O uso da voz over como pensamento de Magda também tem a função de reforçar o preconceito da personagem.

Um dos profissionais do IML tenta conversar com Magda, que permanece reticente. Adiante, esse funcionário evidencia que ela jamais se dirigiria a pessoas como eles se não fosse numa situação tão extraordinária como a que se encontram. Magda passa por uma experiência atípica, que lhe parece horrível, mas com a qual poderia ter aprendido sobre tolerância. O cinema de Giorgetti, porém, é pessimista. Magda atravessa essa experiência, saindo da mesma forma como começa. Esquece tudo com um banho. Giorgetti não acredita que um episódio como esse possa gerar aprendizado; para ele, as pessoas são indiferentes.

Sábado estreia em 05 de setembro de 1994, abrindo a 6ª Mostra Banco Nacional, e é lançado comercialmente em 07 de abril de 1995, levando 155 mil espectadores aos cinemas. Na Folha de S. Paulo, o crítico Inácio Araújo (1948) pontua que o filme mostra um país “ineficiente” e “atabalhoado” e aponta para a questão de classes sociais. Diz ele: “[O filme] Traz (...) uma vivência e um olhar bem paulistanos, ao juntar no mesmo espaço experiências contraditórias, opostas, em que dois brasis se espelham e se interrogam. É um filme de humor inquieto, que assume seus riscos e sabe administrá-los”1. Já Hugo Sukman (1970), em O Globo, considera o filme paulista demais. Escreve ele: “Apesar de a comédia ser bem urdida, sobretudo pelo elenco engraçado, a visão social do Brasil é essencialmente paulista. A divisão entre ricos e pobres que não convivem no mesmo espaço e são obrigados a conviver, a absoluta ignorância de uns em relação aos outros, é impensável em uma cidade como o Rio, que tem favelas ao lado das habitações mais caras. ‘Sábado’, por isso, deve ser visto como a visão particular que São Paulo tem do Brasil."2

Notas
1ARAÚJO, Inácio. ‘Sábado’ observa contradições do Brasil. Folha de S.Paulo, São Paulo, 07 abr. 1995. Ilustrada, p. 7.
2SUKMAN, Hugo. Uma comédia paulista demais. O Globo, Rio de Janeiro, 12 out. 1995. Segundo Caderno, p. 4.

Ficha Técnica da obra Sábado:

Fontes de pesquisa (18)

  • ARAÚJO, Inácio. ‘Sábado’ observa contradições do Brasil. Folha de S. Paulo, São Paulo, 07 abr. 1995. Ilustrada. p.7.
  • COUTO, José Geraldo. ‘Sábado’ abre Mostra Banco Nacional. Folha de S. Paulo, São Paulo, 05 set. 1992. Ilustrada. p.3.
  • COUTO. José Geraldo. Giorgetti capta confusão social em ‘Sábado’. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 jan. 1994. Ilustrada. p.5.
  • HEFFNER, Hernani. Giorgetti, Ugo. In: RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe. Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000. p.269-270.
  • LABAKI, Amir. Giorgetti ameaça processar pólo de Brasília. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 dez. 1992. Ilustrada. p.4.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Barato e inteligente, o cinema de Ugo Giorgetti. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 19 mar. 2002. Caderno 2. p. D2.
  • NAGIB, Lúcia (Org.). O Cinema da Retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002. p.221-227.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. ‘Sábado’ expõe senso de decadência. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 07 abr. 1995. Caderno 2. p. D2.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Giorgetti assina acordo para filmar. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 27 jul. 1992. Caderno 2. p.D2.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Giorgetti faz sua tragicomédia brasileira. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 07 abr. 1995. Caderno 2. p.D2.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Giorgetti se consagra como cineasta urbano. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 03 jan. 1996. Caderno 2. p.D7.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Giorgetti usa prédio decadente para criar metáfora do país. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 abr. 1994. Caderno 2. p.D11.
  • ORMOND, Andrea. Sábado. Estranho Encontro, Rio de Janeiro, 07 ago. 2007. Disponível em: < http://estranhoencontro.blogspot.com.br/2007/08/sbado.html >. Acesso em: 01 set. 2015.
  • PAVAM, Rosane. O cineasta historiador: o humor frio e o filme Sábado, de Ugo Giorgetti. São Paulo: Alameda, 2015.
  • PAVAM, Rosane. Ugo Giorgetti: o sonho intacto. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
  • SUKMAN, Hugo. Uma comédia paulista demais. O Globo, Rio de Janeiro, 12 out. 1995. Segundo Caderno. p.4.
  • Ugo Giorgetti filma ‘Sábado’ na Vera Cruz. Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 ago. 1994. Ilustrada. p.4.
  • UGO GIORGETTI. Entrevista concedida pelo cineasta a Gabriel Carneiro. São Paulo, 12 mar. 2015.

Como citar?

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  • SÁBADO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67362/sabado>. Acesso em: 27 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7