Artigo da seção obras A Hora da Estrela

A Hora da Estrela

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoA Hora da Estrela: 1977 | Clarice Lispector
Livro

Análise
A Hora da Estrela é o último livro publicado em vida pela ficcionista e cronista Clarice Lispector (1925-1977). A escrita do romance se dá em paralelo à do volume de prosa publicado postumamente Um sopro de vida (1977), durante período em que a autora luta contra o câncer. Trata-se de uma obra tardia, e, como sugere o biógrafo Benjamin Moser (1976), de livro no qual Lispector “consegue juntar todos os fios de sua escrita e de sua vida”. Nele afloram aspectos da biografia da autora. Um deles, a infância vivida no Nordeste brasileiro e seguida de deslocamento para o sudeste, compartilhada por escritora e personagem. Outro, a presença do imaginário judaico que se transmite na formação religiosa de Lispector e no nome da protagonista, referência ao episódio das escrituras sagradas judaicas em que os macabeus resistem à dominação grega.

O livro apresenta o tratamento reflexivo sobre a introspecção e a existência, o autoquestionamento do trabalho com a linguagem e a tonalidade poética da prosa. Esses mesmos traços tornam a obra de estreia da artista, Perto do coração selvagem (1944), um marco da consolidação da literatura moderna brasileira. No entanto, em A Hora da Estrela destaca-se ainda um enfrentamento da temática social, até então pouco presente na obra literária de Lispector.

A narrativa se passa no Rio de Janeiro da década de 1970 e consiste, como declara a autora em sua última entrevista, na “história de uma inocência pisada, de uma miséria anônima”. Do imaginário de heroísmo ligado ao nome da protagonista, Macabéa, o leitor encontrará apenas sua convocação irônica. É o que o narrador deixa claro ao caracterizar como “fracas aventuras” os acontecimentos vivenciados pela moça órfã, raquítica na infância, e datilógrafa que “Por ser ignorante era obrigada a copiar na datilografia letra por letra por letra”. Moradora de um cortiço após o falecimento da tia que a levara à capital, Macabéa chega a namorar Olímpico de Jesus, operário ávido de grandeza, mas perde-o para Glória, colega de trabalho. É Glória quem lhe apresenta a cartomante e ex-prostituta Madama Carlota, que prevê para a protagonista um futuro afetivo e financeiro glorioso. Saindo da consulta com Madama Carlota, contudo, Macabéa é atropelada por um Mercedes-Benz. A promessa de redenção estelar da personagem reduz-se ao destino tragicômico, simbolizado pela estrela que aparece na marca do carro que tira sua vida.

A composição da narrativa é sofisticada e contundente. Como sugere o crítico Benedito Nunes (1929-2011), consiste na conjugação de três histórias, a de Macabéa, a do narrador Rodrigo S.M e “a da narração mesma”, do “curso oscilante” imposto pelas hesitações e reflexões do narrador. Na dedicatória do autor, que abre o livro, torna-se explícito o jogo de identificações entre o narrador, a autora e a personagem Macabéa. Soma-se a isso a terceira história, em que a situação social ambígua do escritor diante da realidade narrada entrelaça-se com a dificuldade em dar sentido, por meio da escrita, à existência rarefeita de Macabéa. Entrecruzam-se, de modo singular, a voz da autora, entranhada na narrativa, e o jogo ficcional, a elaboração literária do social e a reflexão acerca dos limites da linguagem.

Segundo Benedito Nunes, a publicação de A Hora da Estrela corresponde ao início do reconhecimento da obra de Clarice Lispector, marcada por sua consagração definitiva perante o grande público e por sua canonização pela crítica especializada. Trata-se de um momento em que a interpretação das obras de Lispector supera as abordagens como literatura “intimista”, “existencial” ou, posteriormente, “feminina”. Este é o panorama que possibilita a um crítico como Silviano Santiago (1936) a avaliar o livro como “uma gargalhada na cara da tradição” literária brasileira que até as primeiras décadas do século XX preconiza uma cultura literária substancialmente nacionalista. Ou seja, A Hora da Estrela destaca-se na fortuna crítica clariciana por sua consensual excelência literária e por abrir um caminho para além do modelo naturalista-nacionalista. Trata-se de uma versão própria e transfiguradora da elaboração literária da realidade social.

Tão rara quanto a síntese entre inteligência construtiva e sensibilidade afetiva que críticos como Antonio Candido (1918) atribuem à ruptura causada por Perto do coração selvagem é a singularidade do livro de 1977.

De fato, a combinação do alcance universal de sua investigação da vida interior com a imersão na realidade social do país. Essa fusão aproxima a novela de outros clássicos da literatura moderna brasileira como Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967), ou, como sugere a crítica literária Vilma Arêas, das Vidas secas (1938) de Gracilano Ramos (1892-1953), cuja narração consiste no desafio da “imitação do silêncio dos que não têm fala”.

Ficha Técnica da obra A Hora da Estrela:

Fontes de pesquisa (6)

  • ARÊAS, Vilma. A hora da estrela. In: Clarice Lispector com a ponta dos dedos. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  • CANDIDO, Antonio. No raiar de Clarice Lispector. In: Vários escritos. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1970.
  • MOSER, Benjamin. Nossa Senhora da Boa Morte. In: Clarice. São Paulo, Cosac Naify, 2009.
  • NUNES, Benedito. Clarice Lispector ou o naufrágio da introspecção. In: Remate de males 9. Campinas: Unicamp, 1989.
  • ROSENBAUM, Yudith. Clarice Lispector. São Paulo: Publifolha, 2002. (Folha Explica)
  • SANTIAGO, Silviano. A aula inaugural de Clarice. Folha de S.Paulo, São Paulo, 07 dez.1997. Mais!  p. 12.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Hora da Estrela. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67356/a-hora-da-estrela>. Acesso em: 25 de Mar. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7