Artigo da seção obras O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoO Cheiro do Ralo: 2006 | Heitor Dhalia
Filme

Análise
Segundo longa-metragem de Heitor Dhalia (1970), O Cheiro do ralo (2006) baseia-se no romance homônimo do escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli (1964), lançado em 2002. Mutarelli já havia trabalhado com o diretor no filme Nina (2004)  fazendo os desenhos que cercam a  personagem principal. O roteiro criado por Dhalia e Marçal Aquino tem como protagonista Lourenço [Selton Mello (1972)], dono de uma loja que compra objetos usados. Ele é apaixonado pela bunda de uma garçonete e desenvolve uma relação de perversão e abuso com seus clientes. Trabalha em um escritório inundado pelo odor que sai do ralo do banheiro contíguo, que Lourenço é o único a utilizar. Com um orçamento de filmagem de 315 mil reais (a previsão inicial era de mais de 2 milhões de reais), mais 300 mil reais de um edital de finalização e 200 mil reais para o lançamento, O Cheiro do Ralo estreou com cerca de quinze cópias 35mm.

Selton Mello é fã da literatura de Mutarelli e procura Dhalia oferecendo-se para o papel do protagonista. O ator diz ter encontrado inspiração no “humor corrosivo” do ator Paulo César Pereio (1940) para construir seu personagem (é de Pereio a voz do pai da noiva de Lourenço, que ele decide abandonar). A presença de Selton Menllo contribui para o sucesso do filme junto ao público: 173 mil espectadores foram vê-lo nos cinemas, contra 25 mil em Nina). Ao explicitar a metáfora do ralo – lugar para onde vai a sujeira que todos tentam esconder – Mello oferece a leitura de Lourenço como um solitário que tenta preencher o próprio vazio ao comprar objetos e, no limite, pessoas1. A superficialidade responde à intensificação desse sentimento de vazio.

A direção de arte é de Guta Carvalho com locações em três ambientes: a loja de Lourenço, o apartamento onde vive e a lanchonete em que trabalha a garçonete, e marcada por por tons de marrom, bege, cinza e verde. As poucas cenas externas, como a que abre o filme, são gravadas no bairro paulistano da Mooca e mostram o caminhar dos personagens que chegam ou saem da loja. No escritório e nas externas, a montagem privilegia a câmera fixa e a frontalidade. Isso acontece em planos mais gerais, em que se vê a arquitetura de galpões do bairro industrial, cujas paredes foram adornadas com desenhos de círculos e coqueiros. Também em sequências internas de diálogo, que alternam plano e contraplano de maneira simétrica.

As situações se repetem com poucas variações. Cada entrada em cena de um cliente inicia um novo esquete cômico. Os personagens não são singularizados pelo nome (Lourenço é o único nomeado) ou por sua história de vida, mas pelo objeto que tentam vender. O cliente o apresenta a Lourenço, que propõe (ou não) um valor, esboça-se alguma negociação e, em seguida, o cliente sai de cena, de maneira teatral. As ações também se repetem quando o protagonista vai à lanchonete: ele senta-se ao balcão, faz o pedido e se deleita quando a garçonete abaixa para pegar o refrigerante.Tais ações são pontuadas por ácidos (e cômicos) solilóquios de Lourenço em voz off.

O início do filme nos apresenta a equipe técnica. Acompanhamos, em close, o requebrar da garçonete que entra na lanchonete vestindo um short bem curtinho, e presenciamos o momento em que Lourenço se apaixona pela bunda dela. Um corte conduz à fachada da loja, onde um letreiro que informa: “tudo o que a vida tem a oferecer”. Um cliente de terno cinza entra na sala de Lourenço, tentando vender um relógio de bolso, relíquia que pertencera a um certo “professor Sorin”. As respostas do protagonista ao cliente mesclam-se a comentários que ele faz, em voz over. Demonstrando sua insegurança (“fiquei com medo que ele pensasse que o cheiro vinha de mim”), ou debochando dos fregueses, essa estrutura se repete ao longo do filme. Depois de ouvir a história da mercadoria e de a observar com lupa, Lourenço diz que não tem interesse. “Se tivesse tampa, talvez”, acrescenta. O protagonista exibirá prazer semelhante ao recusar outros objetos ou a oferecer valores irrisórios: ele se satisfaz menos em comprar coisas que aprecia do que em humilhar quem tenta vendê-las. No desenrolar do filme, essa atitude tomará proporções grotescas, e Lourenço chegará a pagar pelos corpos de seus clientes.

Referências de cinéfilo pontuam falas e ambientes – como um pôster de Acossado (1960), do diretor francês Jean-Luc Godard, (1930), visto num canto da sala de Lourenço. Dhalia reivindica sobretudo a influência dos diretores norte-americanos Todd Solondz (1959), Quentin Tarantino (1963) e dos irmãos Joel (1954) e Ethan (1957) Coen2.

A transposição do romance para as telas esvazia a dramaticidade dos personagens e intensifica o sarcasmo e o humor, conforme sugere o estudo de Heloísa Pisani3. Enquanto alguns críticos louvam o humor dos diálogos de Mutarelli e o desempenho de Selton Mello, outros condenam o filme por aquilo que consideram sua superficialidade, a facilidade das piadas e a obviedade das metáforas. Luiz Carlos Merten ressalta os risos da plateia diante da “rude franqueza” de Lourenço e afirma que se trata de um filme “muito bem realizado e genialmente interpretado – por Selton, mais do que todos”4. Já para Inácio Araujo, “só existe um personagem em O Cheiro do Ralo, que é a matéria fecal. Esse personagem único permanece fora de quadro durante todo o filme. Só temos contato com suas metáforas (o personagem), eufemismos (a bunda feminina) e simbologia (o dinheiro). Me parece que o encantamento provocado junto a parcelas do público deve-se a essa enunciação truncada, como essas piadas de teatro de revista que dizem tudo sem dizer nada”5.

O filme fez parte da seleção oficial do Festival de Sundance e recebeu os prêmios de Melhor Filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, de Melhor Ator (Selton Mello) e Melhor Filme Latino-americano no Festival do Rio.

Notas
1 MELLO, Selton, e PONTES, Marcelo. Diário de bordo de Selton Mello – O cheiro do ralo (bônus do DVD O cheiro do ralo), 2007.
2 DHALIA, Heitor. “UOL (chat com internautas sobre O cheiro do ralo), 24 out. 2006. Disponível em: < http://tc.batepapo.uol.com.br/convidados/arquivo/cinema/heitor-dhalia-comenta-o-longa-o-cheiro-do-ralo-em-cartaz-na-30-mostra.jhtm >. Acesso em: 10 out. 2015.
3 PISANI, Heloisa. O cheiro do ralo: a poética de Lourenço Mutarelli e o processo de transposição para o cinema de Heitor Dhalia. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Instituto de Artes da Unicamp, Campinas, 2012.
4 MERTEN, Luiz Carlos. Baixo orçamento, mas altíssima criatividade. Crítica. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 mar. 2007. p. 43.
5 ARAUJO, Inácio. Ralo, não profundo. Canto do Inácio, 3 abr. 2007. Disponível em: < http://cantodoinacio.blogspot.com.br/2007/04/ralo-no-profundo-incio-araujo-s-existe.html >. Acesso em: 10 out. 2015.

 

Ficha Técnica da obra O Cheiro do Ralo:

Fontes de pesquisa (8)

  • ARAUJO, Inácio. Ralo, não profundo. Canto do Inácio, 3 abr. 2007. Disponível em: < http://cantodoinacio.blogspot.com.br/2007/04/ralo-no-profundo-incio-araujo-s-existe.html >. Acesso em: 10 out. 2015.
  • DE OLIVEIRA, Rodrigo. O cheiro do ralo. Contracampo, n. 85. Disponível em: < www.contracampo.com.br/85/critocheirodoralo.htm >. Acesso em: 10 out. 2015.
  • DHALIA, Heitor. Bate-papo com convidados. UOL (chat com internautas sobre O cheiro do ralo), 24 out. 2006. Disponível em: < http://tc.batepapo.uol.com.br/convidados/arquivo/cinema/heitor-dhalia-comenta-o-longa-o-cheiro-do-ralo-em-cartaz-na-30-mostra.jhtm >. Acesso em: 10 out. 2015.
  • MELLO, Selton, e PONTES, Marcelo. Diário de bordo de Selton Mello: o cheiro do ralo (bônus do DVD O cheiro do ralo). In: O cheiro do ralo. Direção: Heitor Dhalia. Produção: Geração Conteúdo, Primo Filmes, RT Features. Brasil: Universal Pictures distribuidora, 2006. 1DVD.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Baixo orçamento, mas altíssima criatividade. Crítica. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 mar. 2007.  p. 43.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Baixo orçamento, mas altíssima criatividade. Crítica. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 mar. 2007.  p. 43.
  • PISANI, Heloisa. O cheiro do ralo: a poética de Lourenço Mutarelli e o processo de transposição para o cinema de Heitor Dhalia. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Instituto de Artes da Unicamp, Campinas, 2012.
  • VALENTE, Eduardo. Como era cheirosa a minha merda. Cinética. Disponível em: < http://www.revistacinetica.com.br/cheirodoralo.htm >. Acesso em: 10 out. 2015.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Cheiro do Ralo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67343/o-cheiro-do-ralo>. Acesso em: 20 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7