Artigo da seção obras São Paulo Sociedade Anônima

São Paulo Sociedade Anônima

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoSão Paulo Sociedade Anônima: 1965 | Luiz Sergio Person
Filme

Análise
São Paulo Sociedade Anônima é dirigido e roteirizado por Luiz Sergio Person (1936-1976), cineasta que inicia sua carreira no gênero cômico e que, entre 1961 e 1963, estuda no Centro Sperimentale di Cinematografia [Centro Experimental de Cinema] de Roma, onde é influenciado pelo cinema moderno Europeu. Ao retornar ao Brasil e fundar sua primeira produtora, a Socine Produções Cinematográficas, inicia em 1° de maio de 1964 as filmagens de São Paulo Sociedade Anônima.

No filme, Carlos (Walmor Chagas, 1930-2013) é um homem em crise que vive em São Paulo durante o processo de industrialização dos anos 1950 e procura se inserir na lógica de uma cidade em crescimento e mutação. Bem-sucedido para os padrões dessa sociedade cuja existência é mediada pelo dinheiro, Carlos não encontra satisfação na gerência de uma empresa produtora de autopeças, no relacionamento com belas amantes ou no casamento com  Luciana (Eva Wilma, 1933), boa moça de classe média. Quanto mais ascende social e profissionalmente, mais vazio o protagonista se sente: sua angústia é exposta desde a primeira sequência do longa. Contra isso ele reage com desespero, oscilando entre o tédio e a agressão verbal, e procurando uma fuga que não parece possível.

O drama de Carlos, na visão de Person, é o do homem comum inserido em um contexto histórico de industrialização intensa e crescimento desordenado. O filme, que se passa entre os anos 1957 e 1961, evoca o período sob a presidência de Juscelino Kubitschek (1902-1976), em que há um rápido desenvolvimento econômico a partir do qual regiões como São Paulo se tornam espaços para a implantação de parques industriais formados principalmente por multinacionais estrangeiras. O tumultuado crescimento modifica a dinâmica da cidade e multiplica os problemas sociais.

No filme, personagens com poucos escrúpulos ou com desejo de ascensão social aproveitam essa oportunidade para melhorar de vida: é o caso de Ana, (Darlene Glória, 1943), que transforma seu corpo em mercadoria, ou de Arturo (Otello Zeloni, 1921-1973), dono de empresa cujo crescimento só é possível graças às artimanhas políticas e à exploração de operários. Há, por outro lado, aqueles cuja sensibilidade resulta em angústia, como Hilda (Ana Esmeralda, 1931), intelectual que comete suicídio, e o próprio Carlos, cujo sofrimento está relacionado às metamorfoses da cidade. De certo modo, São Paulo Sociedade Anônima, acompanhado por Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri (1929-2003), inicia no cinema brasileiro uma reflexão sobre a crise existencial devido ao espaço urbano em transformação, baseado na dinâmica do capitalismo avançado.

Person define seu filme a partir dessa chave ao mostrar algumas formas criadas pelo poder, sempre anônimo, de transformar o homem burguês em conformista. Entre elas está uma estratégia que tem como fim automatizar o indivíduo, tornado-o apenas uma parte anônima da engrenagem da sociedade industrial. Nesse sentido, ao propor uma leitura na qual a metrópole provoca no indivíduo o embrutecimento e a acomodação, o cineasta faz de São Paulo uma das protagonistas do longa-metragem.

Mediando as relações entre os personagens, encontra-se um espaço urbano visualmente opressor que em diversas cenas acompanham o desencanto vivenciado por Carlos, em uma relação na qual a cidade age sobre o estado de espírito de seus habitantes. Assim sendo, quando Carlos encontra-se melancólico no Ano-Novo, após ser abandonado pela amante e pela namorada, a montagem alterna seu carro em alta velocidade com cenas da tradicional corrida de São Silvestre. Evocando a velocidade dos corpos humanos e do veículo, aproximando o registro documental do ficcional, o cineasta parece relembrar ao espectador que a crise do indivíduo não se resume a problemas de ordem pessoal, mas é, também, e principalmente, derivada de uma sociedade automatizada na qual o homem passa por um processo de desumanização e mercantilização da vida.

O crítico Ismail Xavier (1947) analisa como a angústia se origina em uma cidade na qual o paradigma é a relação entre homem e máquina, em que o trabalho industrial é o “solo da experiência a contaminar todos os aspectos da vida”. Ao escrever sobre a primeira sequência, o autor reconhece essa dinâmica na qual a realidade social (exterior) exerce influências sobre o indivíduo (interior), pois mesmo antes de ocorrer uma cena externa, uma panorâmica de dentro do apartamento já apresenta a cidade, mesclando exterior e vida privada: “[É] um gesto de tipificação: [...] uma multiplicidade de destinos ou de dramas não muito distintos vividos na cidade, tal como sugere a série de prédios, as outras coberturas e janelas”.

Em São Paulo Sociedade Anônima, as aflições provocadas pela “sociedade-dinheiro” se intensificam conforme o personagem Carlos, de forma irrefreável, se compromete com os valores da classe burguesa. Com desprezo pela celebração do consumo como sinônimo de felicidade, ele vivencia um duplo “apagar de luzes” que dá início à sua tentativa de romper com a comodidade e operar uma fuga para longe da metrópole. Durante um jantar na casa de campo de Arturo, em que uma falha na eletricidade termina em escuridão, revela-se o mal-estar de Carlos em fazer parte do mesmo mundo de seu chefe, bom pai de família que oculta em seus laços afetivos um capitalista sedento por lucro. Para sua infelicidade, é justamente nesse homem, dono de fábrica, que Luciana idealiza o marido ideal. A tensão com a companheira, que atinge o ápice quando ela sugere uma sociedade entre Arturo e Carlos, reverbera em uma segunda escuridão proposta pelo filme, aquela que toma o corpo da intelectual Hilda como prenúncio de sua morte.

Entre o suicídio da antiga amante, incapaz de suportar a crise, e a pressão da esposa para tornar-se o que menospreza, o protagonista age desesperadamente, rouba um carro como ato de rebeldia contra quem (e o que) o oprime e, em êxtase, ruma para fora de São Paulo. A fuga, no entanto, é inútil: com certa dose de ironia, Person faz seu personagem despertar, no dia seguinte, entre trabalhadores cuja função é abrir estradas. A cidade se amplia e não permite a emancipação de Carlos. Resta a ele regressar à metrópole e resignar-se às angústias provocadas pela lógica do capital. O crítico José Wolf (1937-2012) aponta que Carlos simboliza “o náufrago da sociedade pequeno-burguesa do século XX”, utilizando-se do trabalho para não sucumbir e, como última alternativa, fugir em carro roubado, sem rumo definido.

Em São Paulo Sociedade Anônima a trajetória da crise de Carlos é recontada pelo próprio personagem em flashbacks sem uma ordem cronológica convencional. O crítico Jean-Claude Bernardet (1936) sugere um filme fragmentado, com uma montagem pouco usual no cinema brasileiro até então. Isso se dá porque o personagem não tem dinâmica própria, é movido pelo externo, portanto “não controla o enredo do filme”. Logo, a ordem cronológica é subvertida e na primeira parte a “evolução temporal é substituída por uma sucessão de fragmentos de ação cuja apresentação nos dá uma impressão de simultaneísmo”.

O longa é exibido no circuito comercial principalmente no segundo semestre de 1965. A imprensa escreve uma série de críticas positivas, reconhecendo a capacidade do cineasta em propor reflexões a respeito da temática urbana e sugerindo a inclusão da cinematografia paulista no movimento cinema-novista. A boa recepção dos jornalistas, que tampouco deixa de reconhecer a qualidade estética de São Paulo Sociedade Anônima, é acompanhada por uma série de premiações nacionais e internacionais, com destaque para o Prêmio de Público na 1ª Mostra Internacional do Novo Cinema, em Pesaro, na Itália, em 1965.

Notas
1 Criada pelo jornalista Cásper Líbero em 1924, a mais famosa corrida de rua de São Paulo ocorre no dia 31 de dezembro. Esportistas de todo o mundo participam da prova. 
2 XAVIER, Ismail. São Paulo no cinema: expansão da cidade-máquina, corrosão da cidade-arquipélago. Sinopse, v. 8, n. 11, set. 2006.
3 WOLF, José. A tragédia do homem-multidão. Jornal do Comércio, 5 dez. 1965.
4 BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempos de cinema. São Paulo: Companhia das letras, 2007.
5 Caso dos textos de Paulo Perdigão (1939-2006), no Diário de Notícias, e de Francisco Luiz de Almeida Salles (1912-1996), no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

Ficha Técnica da obra São Paulo Sociedade Anônima:

Midias (1)

São Paulo Sociedade Anônima (1965)
Direção: Luiz Sergio Person Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (5)

  • BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempos de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • PERDIGÃO, Paulo. São Paulo S.A. Diário de Notícias, 31 nov. e 1° dez. 1965.
  • PERSON fala sobre São Paulo S.A. e sobre Person. Boletim do Cineclube do Centro Dom Vital, 1965.
  • SALLES, Francisco Luiz de Almeida. Em louvor de Person. O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, 9 out. 1965.
  • XAVIER, Ismail. São Paulo no cinema: expansão da cidade-máquina, corrosão da cidade-arquipélago. Sinopse, v. 8, n. 11, set. 2006.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SÃO Paulo Sociedade Anônima. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67339/sao-paulo-sociedade-anonima>. Acesso em: 16 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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