Artigo da seção obras O Caçador de Diamantes

O Caçador de Diamantes

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoO Caçador de Diamantes: 1931
Filme

Análise
Dirigido por Vittorio Capellaro (1877-1943), O Caçador de Diamantes é um dos primeiros roteiros escritos do cinema nacional de que se tem notícia. O filme narra as aventuras de D. Fernando pelo sertão selvagem. Em seu vigésimo aniversário, o rapaz é presenteado com uma espada por Mestre Garro. Logo no começo do filme, D. Fernando é apresentado com princípios nobres, por defender um escravo índio e por enfrentar três homens. Sua disposição heróica faz com que um líder bandeirante o convide a participar de sua bandeira, e ele aceita prontamente. Porém, os dois irão se descobrir rivais, pois D. Fernando e Maria se amam, mas seus pais escolhem D. Luiz como seu futuro esposo, em razão de sua fortuna, e ordenam que ela esqueça Fernando, por ser pobre, o que muito a entristece.

D. Fernando, desolado, se afasta da bandeira, mas o armeiro Mestre Garro o consola, entregando-lhe um segredo que o pai do rapaz deixara a seus cuidados: o mapa da Ilha dos Diamantes. É sua chance de alcançar a fortuna e o amor. Mestre Garro consegue uma canoa para Fernando, seus amigos João e Pedro (a dupla cômica do filme) e o índio Imbu, seu fiel companheiro após ser salvo das chicotadas. O quarteto parte em expedição própria e, paralelamente, também parte a bandeira de Luiz. Ambas expedições enfrentam perigos, privações e imprevistos. Enquanto D. Fernando e seu grupo avançam, D. Luiz é traído pelo vil bandeirante D. Rui e tem todo seu bando dizimado pelos índios. O grupo de Fernando chega ao acampamento e, ao saber o que se passou com D. Luiz e seu grupo, em mais um gesto nobre, se junta ao grupo do rival, para a defesa comum. Mas os índios voltam a atacar, e todos são aprisionados. Imbu pertence ao grupo indígena que atacou os bandeirantes. Por isso, é solicitado para o julgamento, aceitando, a princípio, o papel atribuído. Ele condena D. Rui à morte imediata, e os outros dois, por serem chefes, à morte ao romper do sol, no cume sagrado. Este é o momento pretendido como de máximo suspense no filme, quando Imbu finge traí-los para salvá-los: leva-os a uma caverna e, do alto da montanha, joga dois cadáveres em lugar de seus amigos. Imbu indica a Fernando ser ali o lugar do tesouro, enquanto impede que Luiz se aproxime. Fernando e Imbu encontram um bilhete de despedida de Luiz que, reconhecendo o valor de Fernando e o amor que o une à Maria, segue sua busca no sertão, mesmo com risco de morte. No rio, Imbu rema numa balsa, levando Fernando, que volta para Maria.

O filme busca unir o discurso histórico oficial com um enredo cheio de aventuras ao modo dos romances de capa e espada. A sequência inicial se abre com a imagem de um brasão português e, numa fusão de imagens, vê-se um grupo de índios escravizados atravessando o quadro. O plano fixo mostra uma fonte em meio a vila de São Paulo, onde os índios, com torsos nus e pés descalços, formam uma fila. Eles portam cestos, vasos e carregam um homem deitado em uma rede. Um bandeirante organiza o conjunto. Em montagem alternada, D. Luiz, a cavalo, acompanha Maria, transportada por quatro escravos numa liteira. Um trio de bandeirantes passa pela cena. Eles cumprimentam Maria. D. Fernando surge e impede que Imbu seja surrado por um capitão do mato. Outros três bandeirantes intervêm e tem início a luta de espadas. A variação de ângulos acentua a destreza e coragem de D. Fernando, que duela com um sorriso estampado no rosto. D. Luiz interrompe o conflito e convida D. Fernando para fazer parte de sua bandeira. A sequência se encerra com o índio Imbu de joelhos, beijando a mão de D. Fernando em gratidão.     

A sequência revela o discurso histórico oficial por trás da encenação. Os bandeirantes aparecem como formando uma casta, com código de conduta, único elemento dotado de razão, impondo a ordem e a civilização. A quase fixidez dos escravos contrasta com a movimentação dos bandeirantes, e o desenho da bica d’água ressalta a assimetria das formas das árvores. A apreciação positiva do meio ambiente e dos personagens faz com que o filme reflita certa disposição de alguns literatos e instituições paulistas, que, desde a passagem do século XIX, buscavam criar uma identidade heróica para seus antepassados e com isso fundar uma história que justifique o presente de desenvolvimento político e econômico. A seu modo, o filme se coaduna a esse ideário e até o reforça na medida em que apresenta os bandeirantes como grupo social coeso, aproximando sua figura daquela do cavaleiro da Idade Média. O conservadorismo da concepção histórica não retira o aspecto divertido do filme de aventura. Algumas cenas escapam à simples apologia do bandeirante, como quando D. Fernando e seu grupo deslizam de canoa pelo rio, ou quando Imbu define sua concepção do amor, ou, ainda, com o contentamento expresso no primeiro plano de D. Rui quando dirige um grupo de bandeirantes e se prepara para se vingar da humilhação sofrida. Por outro lado, a dupla farsesca João e Pedro, cuja função é diminuir a tensão da narrativa, é de uma comicidade duvidosa.

A recepção ao filme foi entusiasta. A revista Cinearte o inclui nos grandes feitos do ano e afirma que se trata do “(...) melhor filme de Capellaro até agora”. Já o escritor paulista Guilherme de Almeida (1890-1969) o define como “(...) o filme de nossa terra e nossa gente! São Paulo do século XVII, das bandeiras e das entradas no sertão, transportado para a tela com realismo maravilhoso”.

O figurino, da Casa Teatral Temaghi; o número de figurantes; o acabamento técnico, com o sistema sonoro Vitaphone; e a fotografia de Adalberto Kemeny (1901-1969) e Rodolfo Lustig (1901-1970) surpreendem e atestam que o filme foi concebido como uma superprodução. Vinte anos depois, esses elementos ainda são comentados pelo crítico B. J. Duarte (1910-1995): “Ninguém poderá negar a essa fita de Capellaro a importância que assume na história do cinema brasileiro, como espetáculo, como realização técnica e, sobretudo, como experiência sonora”.

Apesar da boa recepção crítica, o filme foi um fracasso de bilheteria. Distribuído pela Paramount, O Caçador de Diamantes é exibido por pouco mais de uma semana em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 1997, o filme é restaurado pela Cinemateca Brasileira, com o apoio da BR Distribuidora, mas sem a parte sonora, que está perdida.

Notas
1 O interior de São Paulo da época dos bandeirantes foi recriado no parque Jabaquara, Cidade Jardim, São Paulo, onde, segundo a filmografia brasileira (www.cinemateca.org.br), o filme foi inteiramente locado. Há contradições: segundo B.J.Duarte, Capellaro chegou a filmar tendo como fundo o rio Tietê e o rio Pinheiros, além do jardim de sua casa ter servido como trecho de floresta ou gruta, e ter lá construído um pequeno estúdio para cenas interiores.

Ficha Técnica da obra O Caçador de Diamantes:

Fontes de pesquisa (14)

  • BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
  • CAPOVILLA, Maurice. O descobrimento do Brasil e bandeirantes, de Humberto Mauro. In: Festival de Arte Cinematográfica [Documento depositado na Biblioteca Genny Klabin (acesso: pasta 4, doc. 56)].
  • DUARTE, B.J. Caçadores de imagens: nas trilhas do cinema brasileiro. São Paulo: Massao Ohno, 1982.
  • FERREIRA, Antonio Celso. A epopeia bandeirante: letrados, instituições, invenção histórica. São Paulo: Unesp, 2002.
  • ALMEIDA, Guilherme de. O caçador de diamantes. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28 jan. 1934.
  • BERNARDET, Jean-Claude; RAMOS, Alcides. Cinema e História do Brasil. São Paulo: Contexto: Edusp, 1998
  • CINEARTE, n. 373, 15 ago.1933.
  • CINEARTE, n. 378, 1 nov. 1933.
  • GALVÃO, Maria Rita Eliezer. Crônica do Cinema Paulistano. São Paulo: Ed. Ática, 1975.
  • GOMES, Paulo Emilio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
  • MORETTIN, Eduardo. A representação da história no cinema brasileiro (1907 - 1949). In: Anais do Museu Paulista: história e cultura material, vol. 5, n. 1, 1997.
  • RAMOS, Fernão e MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • CAPELLARO, Victor. O caçador de diamantes: roteiro do filme. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004.
  • DUARTE, B.J. O caçador de diamantes. Catálogo da II Retrospectiva do Cinema Brasileiro. São Paulo: 1954.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Caçador de Diamantes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67330/o-cacador-de-diamantes>. Acesso em: 18 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7