Artigo da seção obras O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

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Cinema  
Filme

Histórico
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é dirigido por Cao Hamburger (1962), realizado pelas produtoras Gullane Filmes, Caos Produções e Miravista. O roteiro é realizado por Cláudio Galperin (1962), Bráulio Mantovani (1963), Anna Muylaert (1964) e o próprio Cao Hamburger.

O enredo se passa no bairro do Bom Retiro1, em São Paulo, em 1970, marcado pela disputa da Copa do Mundo de Futebol, no México e, pela repressão política oriunda do governo militar instalado no país2. O filme tem como protagonista o jovem Mauro [Michel Joelsas (1995)], que desconhece o real motivo que o levou a morar com o seu avô [Paulo Autran (1922-2007)], depois que seus pais, militantes de esquerda, são obrigados viver na clandestinidade. As pressas, o menino é deixado pelos pais em frente ao prédio onde morava o avô, que sofre um mal súbito e falece enquanto trabalha em sua barbearia. Impossibilitado de se comunicar com os seus pais e avisá-los a respeito desse fato, o menino recebe a ajuda do vizinho do avô, o velho judeu Schlomo [Germano Haiut (1938)], homem solitário que dedica a vida às tarefas religiosas e administrativas da sinagoga do bairro. As diferenças entre os dois personagens gera um atrito inicial. Schlomo tem seu cotidiano alterado pela presença do jovem, que por sua vez  desconhece os hábitos da casa. Mas, aos poucos, a convivência entre eles torna-se harmoniosa. 

O amadurecimento de Mauro o desperta para diversas coisas. O garoto descobre a amizade com o militante estudantil Ítalo [Caio Blat (1980)], os sentimentos próximos ao primeiro amor no convívio com a garota Hanna [Daniela Piepszyk (1995)] e o despertar do desejo sexual na figura da cobiçada Irene [Liliana Castro (1979)], bela jovem que atrai o olhar dos adolescentes do Bom Retiro. Neste bairro, além de experimentar as sensações típicas da juventude, ele encontra um refúgio para a forçada distância da família: é em meio aos imigrantes de diversas regiões do mundo, entre descendentes de poloneses, italianos, africanos e gregos - neste caldo cultural característico da cidade de São Paulo - que encontra uma camaradagem necessária para esperar semanas até o reencontro com a mãe [Simone Spoladore (1979)], que sofre a violência imposta pela ditadura. O longa-metragem tem, como proposta dramática, esse compasso de espera. Centrando-se no ponto de vista de Mauro, com um estilo de filmagem que capta nos reflexos dos vidros as imagens observadas pelo personagem, o filme permite ao espectador aproximar-se da difícil tarefa imposta ao garoto: sem informações sobre o paradeiro dos pais, resta a ele aguardar no movimento dos adultos seu próprio destino.

O campeonato mundial de 1970, especialmente pela vitória da seleção brasileira em um dos piores anos da ditadura, é um elemento fundamental na construção narrativa de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Por um lado, a seleção formada de nomes como Tostão, Rivelino e Pelé exerce um encantamento sobre os personagens: mesmo o cotidiano de Schlomo, que não demonstra interesse por futebol, é interrompido para acompanhar as transmissões ao vivo dos jogos. Em uma das sequências cômicas do filme, até mesmo o engajamento de Ítalo a favor do comunismo encontra um limite. Na estreia da seleção, embora discurse pela vitória da Tchecoslováquia como possível conquista do socialismo, comemora fervorosamente a goleada do Brasil pelo placar de quatro a um. A Copa do Mundo de Futebol tem um significado particular na vida de Mauro. Seu pai, que compartilha com ele o mesmo entusiasmo pelo esporte, promete regressar a tempo de ver os jogos. Conforme avança o copa, aumenta a angústia pelo retorno dos pais, que não se realiza. Por vezes, quando o time brasileiro entra em campo, Mauro vive o conflito entre a expectativa de torcer e a frustração do regresso adiado dos pais. Assim, a copa é dispositivo dramático em dois níveis: reverberando sobre a vida do país e, mais especificamente, atuando diretamente sobre o garoto. Como proposta de cinema, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias apresenta este resgate da história como pano de fundo para o drama particular de um protagonista.

É justamente por esse motivo que vários dos textos publicados na imprensa - dentre estes o do cineasta Walter Salles (1956)3 - procuram aproximar o filme de uma parcela da recente produção cinematográfica argentina, cuja tendência tem sido inserir o drama pessoal, com toques universais, em meio a acontecimentos históricos. Segundo o colunista da Folha de S.Paulo José Geraldo Couto, o longa se aproxima de Kamchatka (2002), realizado pelo argentino Marcelo Piñeyro (1953), no qual também há, observada do ponto de vista de uma criança, a dissolução da família em tempos de ditadura militar. Para o crítico, o trabalho de Cao Hamburger entrelaça vários fios temáticos e dedica um olhar amoroso a cada um dos personagens:

[...] é essencialmente, como já disse seu diretor, um filme sobre o exílio, sobre a necessidade humana de construir um lar onde quer que esteja. Como no futebol de botão, em que uma mesa da cozinha é transformada pela imaginação num estádio lotado, a fantasia infantil transfigura  em poesia a miséria do mundo4.

O que há de mais poético em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é que Mauro encontra em seu exílio familiar a possibilidade de viver laços afetivos com uma comunidade. Para além de um espaço realista, o Bom Retiro de Cao Hamburger é um lugar simbólico, de encontro possível entre múltiplas culturas. Ali, na ficcionalidade, existe um Brasil ainda hoje desejado, um ideal de convivência entre povos que garante a solidariedade necessária para enfrentar as dificuldades impostas pelo mundo. No entanto, esta ilha democrática sofre o contínuo perigo da ameaça ditatorial: em uma das sequências mais significativas do filme, o protagonista acompanha um Bar Mitzvah de seu colega, cerimônia judaica de iniciação para a vida adulta, quando militares a cavalo interrompem a celebração e invadem um diretório acadêmico para prender estudantes politizados. Caberá à comunidade dar o suporte a Mauro e ajudar o personagem Ítalo, machucado pelas pancadas dos policiais. Como observa o psicanalista Contardo Calligaris (1948),

a torcida de todos, em 70, é o momento comovedor de uma aposta, um ato de fé numa comunidade de destino, que surge por um momento no Bom Retiro (...). É como se a torcida nacional celebrasse não uma bandeira abstrata, mas a comunidade real, concreta, aquela que não existe, mas cujo sonho vive e continua"5.

Como fio condutor da narrativa, a Copa do Mundo tem, portanto, uma ambivalência em relação à comunidade simbólica do Bom Retiro. Nas contradições do nacionalismo de 1970, o campeonato de futebol representa o prazer da conquista e a possibilidade de aproximação multicultural - como nas inúmeras cenas em que as pessoas se unem em frente aos televisores - em meio à crise de um país no qual a opressão é praticada pelo Estado. A copa é a expressão das expectativas de Mauro, dos desejos de ser goleiro ou de completar o álbum de figurinhas, mas é também a aflição de esperar o retorno da família. Cao Hamburger consegue, com isso, criar um drama no qual os personagens vivem um complexo sentimento de adesão e de repulsa ao Brasil de 1970: como na sequência final do filme, quando em meio às comemorações do triunfo brasileiro no futebol Mauro caminha solitário em direção ao apartamento onde vive para descobrir o regresso inesperado da mãe. A montagem, entre os papeizinhos que voam pela cidade, os fogos de artifício e a angústia expressa no rosto dos personagens, gera esta sensação de desgaste em meio à festa. Embora o filme não opte por exibir as torturas praticadas pela ditadura ou mostrar a clandestinidade dos militantes políticos, fica evidente o sofrimento vivido pelos pais do protagonista. Ao término da narrativa resta à família, ao filho e à mãe, o exílio, a fuga de um país onde a repressão convive com a alegria da vitória esportiva.

Notas
1 Neste período, o bairro do Bom Retiro é caracterizado por abrigar uma grande colônia de imigrantes, principalmente de origem judaica.
2 A ditadura militar se instaura em 1º de abril de 1964 e permanece até 15 de março de 1985. Os direitos políticos dos cidadãos são cassados e os dissidentes perseguidos.
3 SALLES, Walter. O ano... emociona sem manipular. Folha de S.Paulo, 12 dez. 2006.
4 COUTO, José Geraldo. Drama com bela história simples comove sem abrir mão da inteligência. Folha de S.Paulo, 25 out. 2006.
5  CALLIGARIS, Contardo. O ano em que meus pais.... Folha de S.Paulo, 9 nov. 2006. 

Ficha Técnica da obra O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias:

Midias (1)

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias
Direção: Cao Hamburger. Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (3)

  • CALLIGARIS, Contardo. O ano em que meus pais.... Folha de S.Paulo, 9 nov. 2006.
  • COUTO, José Geraldo. Drama com bela história simples comove sem abrir mão da inteligência. Folha de S.Paulo, 25 out. 2006.
  • SALLES, Walter. O ano... emociona sem manipular. Folha de S.Paulo, 12 dez. 2006.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67328/o-ano-em-que-meus-pais-sairam-de-ferias>. Acesso em: 22 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7