Artigo da seção obras A Estrela Sobe

A Estrela Sobe

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoA Estrela Sobe: 1974
Filme

Análise
A Estrela Sobe é o segundo longa-metragem do cineasta Bruno Barreto (1955). Bastante precoce, com apenas 18 anos de idade, apresenta o filme que atinge enorme sucesso de bilheteria e o apoio da maior parte da crítica especializada. Financiado pela Empresa Brasileira de Filmes - Embrafilme, seu orçamento é quase duas vezes maior do que o custo médio de uma película desse período, permite reunir alguns dos profissionais mais criativos do período e adaptar o romance homônimo de Marques Rebelo (escritor que dá origem ao seu primeiro filme, Tati, a Garota (1973). Seus pais, os produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto, associam-se a Walter Clark, nome de peso no aparato industrial da televisão, e contratam Betty Faria (1941) e Carlos Eduardo Dolabella (1937-2003) para compor o elenco, figuras de grande destaque na telenovela brasileira da época.

Betty Faria interpreta Leniza Mayer, uma senhora, jurada de um programa de calouros da TV, e outrora uma mocinha ambiciosa dos anos 1930 e 1940, cujo maior sonho - tornar-se uma famosa cantora de rádio, é reconstituído por meio de um longo flash-back que forma a trama principal.

No primeiro núcleo de ação, descreve-se o meio de origem de seus personagens e de Leniza: subúrbio pacato do Rio de Janeiro, a vida sacrificada da mãe (Vanda Lacerda), dona de pensão, um hóspede doente, o ar de fracasso do médico Oliveira [Paulo César Pereio (1940)], que está apaixonado por ela, a amiga costureira; enfim, um ambiente cuja expectativa de ascensão social é quase nula e, principalmente, sem nenhuma possibilidade de aproximação com a indústria do rádio. Vaidosa e pouco recatada para os padrões morais da época, Leniza sabe da importância de uma "escada" - um homem que a introduz no mundo superior que ela ambiciona atingir.

O conquistador Mário Alves (Carlos Eduardo Dolabella), dono de uma loja de rádios, serve de primeiro degrau, na medida em que se apresenta como amigo do gerente de uma pequena emissora. Um encontro premeditado no sorvete-dançante oferece a Leniza a oportunidade de um teste na rádio e, logo depois, a promessa de um contrato. Em troca, ela cede a virgindade em um quarto de hotel - sua primeira "queda moral", acentuada pela música-tema.

Em dois outros momentos se repete o mesmo recurso de dramaturgia - depois da alegria de galgar mais uma etapa da vida profissional (ascensão a uma brilhante carreira) vem a tristeza e a melancolia de sua vida particular. No primeiro, a cantora Dulce Veiga [Odete Lara (1929-2015)], ao convencer um amigo compositor a entregar uma música exclusiva para Leniza, substitui Mário Alves no relacionamento amoroso, já antecipado por um olhar cobiçoso de Dulce logo na cena do teste. É Dulce quem a introduz no universo cáustico, mas glamouroso, do meio musical e jornalístico.

Mas o compromisso com Dulce não a leva até onde ela quer e, da mesma maneira como havia acontecido com Mário Alves, também precisa ser superado. Reaparece em cena Amaro, empresário e patrocinador de programas de rádio, que já demonstrara interesse por Leniza nos estúdios da rádio e que agora vai cumprir todas as exigências que ela lhe faz: um contrato em uma emissora mais famosa, a participação no cinema, o sucesso nos espetáculos do Cassino da Urca. É o topo da carreira que novamente culmina com o aniquilamento de sua vida pessoal.

Essa forma dada ao relato parece neutralizar uma certa sordidez presente tanto na trama do filme (o sujeito como mercadoria com valor de troca) quanto nos espaços marcados por paredes sujas e degradadas, ressaltando do conjunto um forte sentido moralista e sentimental que as sucessivas quedas enfatizam. Na última, grávida de Amaro, Leniza procura o auxílio de Oliveira mas ele se recusa a fazer o aborto. Ela insiste com outro "profissional" e quase não resiste às complicações. Quando se recupera, é abandonada pela mãe e por Oliveira, e só não paga o preço final da solidão porque recebe o acolhimento de "seu" Alberto, um velhinho da pensão, violonista, que sempre a incentiva e que, aparentemente, continua a ampará-la, sem as cobranças morais da mãe ou as sexuais dos amantes.

Ao término do flash-back, retornando aos palcos do programa de TV, a velha cantora Leniza Mayer incentiva a jovem caloura (interpretada pela mesma atriz) a adentrar na carreira artística, exibindo no entanto uma aparência entristecida de quem já sabe tudo o que esses pobres moços terão de sofrer para atingir o estrelato. O tom fatalista da sentença segue, portanto, o senso comum sobre a relação do indivíduo com o entorno do meio artístico.

Sua forma de representação, bastante clássica, procura a fluidez narrativa: a fala que encerra uma cena introduz a cena posterior, uma mesma música faz a passagem de uma seqüência a outra, em nenhum momento o espectador se sente distanciado da ação na medida em que o foco narrativo está integralmente centrado na figura de Leniza.
Para o crítico Jean-Claude Bernardet trata-se de uma 'banalidade temática e dramatúrgica', com 'temas e formas que não trazem informações novas', narração linear, construção rígida das situações e personagens, enfim, um exemplo do 'estilo bem comportado' que um filme pode adotar 1.

Embora reconheça os mesmos problemas apontados por Bernardet - os personagens planos, as situações sem ambigüidades, a moral bastante explícita, José Carlos Avellar absorve a proposta do filme e conclui que seu "objetivo (...) é prosseguir na antiga inclinação do cinema, contar histórias, perseguir a narrativa simples, ingênua e compreensível com o olhar" 2, exemplificada na singela metáfora das escadas, cuja presença recorrente na espacialização do filme visualiza a ascensão e as quedas de sua personagem pela vida, conferindo-lhe veracidade.

Ronaldo Brandão é taxativo: 'a linha espetáculo, esquecida pelo filme nacional dos anos 1960 e deste início dos anos 1970, foi finalmente readotada". 3 Para ele, A Estrela Sobe ajuda a enterrar de vez as propostas "realistas" e "herméticas" do Cinema Novo. Embora o cinemanovismo permaneça então mais como mito, o momento parece exigir um tipo de produção mais "empenhado" com produtos de "qualidade", sucesso de bilheteria e "prestígio cultural", que escape ainda dos apelos das "vulgares" comédias eróticas que tendem a ocupar o mercado. Assim se retribuem tanto a legislação protecionista para o cinema brasileiro que está sendo promulgada pelos governos militares quanto o investimento do Estado na produção por intermédio de um órgão financiador - a Embrafilme, que desde 1970 vem ganhando em eficiência.4

Ao se abstrair as conjunturas de época, Bernardet procura salientar a ausência de uma postura de 'autor', enquanto Avellar e os demais críticos destacam a competência de Bruno Barreto como 'artesão', conforme a distinção apresentada por Paulo Emilio Salles Gomes ainda no início dos anos de 1960: 'o artesão (...) é um homem com profundo espírito de equipe' que procura 'dar forma a idéias achadas e discutidas em comum', geralmente de caráter acadêmico, sem ousadias formais ou expressão de cunho pessoal.5

É inegável que A Estrela Sobe ostenta um artesanato cujo modelo é a produção norte-americana de série, bastando atentar para os cuidados que cercam a seleção musical, as interpretações homogêneas, o roteiro de 'ferro', a direção de arte e a bela fotografia em cores vinho, ocre e bege. Entretanto, como é uma criação brasileira, além do drama realista que lhe dá origem e do modo de produção que respeita, acaba sendo uma evocação nostálgica do "showbusiness" brasileiro a propiciar momentos altamente originais: desde o americanizado baile do sorvete dançante até as apresentações nos estúdios das rádios, a inveja e a rivalidade entre as cantoras, a reconstituição de um esquete musical de chanchada, a reinvenção possível dos espetáculos do Cassino da Urca. A música, mais que a trama, nesse caso parece impor-se como a crônica de uma parte do passado brasileiro que o filme termina por recuperar.

Notas
1 BERNARDET, Jean-Claude. O Cinema Brasileiro sobe. Opinião, 28 fev. 1975, p.24.
2 AVELLAR, José Carlos. Nada além de uma ilusão. Jornal do Brasil, 21 out. 1974.
3 BRANDÃO, Ronaldo. Como um foguete. Veja, 30 out. 1974, p. 96-98.
4 RAMOS, José Mário Ortiz. O cinema brasileiro contemporâneo: 1970-1987, p. 411-425.
5 GOMES, Paulo Emilio Salles. Crítica de cinema no Suplemento Literário, p. 333, 335.

Ficha Técnica da obra A Estrela Sobe:

Fontes de pesquisa (10)

  • APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte. Anuário das artes: 1972-1974. São Paulo, 1975. p. 256-258.
  • AVELLAR, José Carlos. Nada além de uma ilusão. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21 out. 1974.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Cem anos depois. Opinião, n.120, 21 fev. 1975, p.23.
  • BERNARDET, Jean-Claude. O cinema brasileiro 'sobe'. Opinião, 28 fev. 1975, p.24.
  • BRANDÃO, Ronaldo. Como um foguete. Veja, 30 out. 1974, p. 96-98.
  • FOMM, Joana. A estrela sobe. Ultima Hora, São Paulo, 27 nov. 1974.
  • GOMES, Paulo Emilio Salles. Crítica de cinema no Suplemento Literário. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilme, 1981. v.2, p. 333-340.
  • GONÇALVES, Antonio Carlos. A Estrela Sobe. São Paulo: Fundação para o Desenvolvimento da Educação, 1992.
  • RAMOS, José Mário Ortiz. O cinema brasileiro contemporâneo: 1970-1987. In: RAMOS, Fernão (org). História do Cinema Brasileiro. São Paulo; Art Editora, 1987, p. 399-454.
  • VARTUCK, Pola. Filme foge à rotina. O Estado de S.Paulo, 20 nov. 1974.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Estrela Sobe. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67317/a-estrela-sobe>. Acesso em: 18 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7