Artigo da seção obras Boleiros - Era uma Vez o Futebol

Boleiros - Era uma Vez o Futebol

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoBoleiros - Era uma Vez o Futebol: 1998
Filme

Análise
Boleiros - Era uma Vez o Futebol, de Ugo Giorgetti, é um filme de baixo orçamento, realizado com equipe técnica reduzida e regular. Ambientado na cidade de São Paulo, aborda os interesses diferentes das classes sociais, a exploração do trabalho e o desprezo generalizado pelo passado. Giorgetti, que também é cronista de futebol, se inspira na história do futebol paulista para contar momentos de quem a faz. São jogadores, técnicos, juízes e torcedores recontando suas trajetórias, formando um mosaico rico em situações e personagens.

As histórias contadas no filme surgem da conversa entre Otávio Alicate [Adriano Stuart (1944-2012)], Naldinho [Flavio Migliaccio (1934)], o Juiz (Rogério Cardoso), Ari [João Acaiabe], Tito [Oswaldo Campozana] e Mamamá [César Negro]. Os seis amigos estão em uma mesa de bar e relembram episódios que protagonizam ou escutam nos círculos de boleiros. Ao fim de cada história, o foco narrativo retorna para a mesa desses antigos protagonistas do futebol, até que um novo caso seja relembrado. Casos como o do juiz Virgílio "Pênalti" [Otávio Augusto, 1945], um inveterado jogador de pôquer que se deixa corromper para pagar as dívidas; o de Paulinho Majestade [Aldo Bueno], um grande atacante do Santos F.C. e da seleção brasileira, que termina por anunciar a venda de seus troféus no caderno de classificados; como a descoberta de Pivete (João Motta), bom de bola, por Otávio, em sua escola de futebol para filhos da elite; como a ascensão meteórica de Azul, o craque pobre cujo deslumbramento com a fama faz com que esqueça mulher e filho na pobreza; o dos três fanáticos torcedores do S.C. Corinthians (Eduardo Mancini, Robson Nunes e Adilson Gutierrez Pancho), que para ajudar a recuperação de Caco (André Bicudo), um amigo de infância que vira jogador do Timão, apelam para o curandeiro Pai Vavá [André Abujamra (1965)]; como o de Mamamá, uma revelação vinda do Recife, que chega à S.E. Palmeiras e se vê obrigado a obedecer à hierarquia imposta por um dos jogadores do elenco, o craque Fabinho Guerra [Paulo Coronato].

O clima de nostalgia pontua o filme, que expõe o futebol diante de uma série de forças que o distanciam da genuína paixão popular. O filme parece defender a tese de que os protagonistas do espetáculo acabam como vítimas de um mecanismo que os ultrapassa e domina, esquecendo-os com a mesma rapidez com que alcançam a popularidade e a fama. Sem um presente de glórias, aos amigos em volta da mesa, resta rememorar o passado com a paixão de quem ignora os interesses comerciais exteriores ao jogo, para se entregar a sua lógica interna, que cria um espaço em que a inventividade, a incontingência e o acaso podem se transformar em instantes "sublimes", como diria outro cineasta interessado no esporte.

As interpretações, os diálogos coloquiais, as gírias e histórias inspiradas na realidade fazem do filme uma análise profunda sobre o futebol brasileiro. Ganância, oportunismo e dominação social se mesclam com crença, talento, resignação, persistência e dignidade no complexo universo do futebol. A gente humilde, a raia miúda, merece atenção, e inúmeros são os personagens de Boleiros que, oriundos das camadas pobres, vivem o esporte de maneira intensa. Já na primeira história, um menino [Luiz Carlos de Miranda (1945)], encarregado de operar o placar do estádio, ofende, indignado, a mãe do juiz ladrão, cuja falta de escrúpulos o obriga a marcar o resultado desfavorável a seu time. Em seguida, um garçom [Luiz Carlos Rossi] e um porteiro [Gibe (1935-2010)] do restaurante reconhecem o ídolo de outrora, cuja dignidade permanece intocada, apesar da miséria material. O motorista do caminhão [Henrique Stroeter], que reboca o carro de Otávio após um incidente com os criminosos que fazem a guarda de Pivete, vai mais além ao evocar um lance decisivo na carreira do ex-craque. Os policiais (Luciano Quirino, Jaime Augusto da Silva, Afonso Duarte e Sérgio de Oliveira) que após humilharem o craque Azul se desculpam afavelmente ao reconhecê-lo. E Vandinho do Náutico (Francisco Carvalho), um craque nordestino que termina ascensorista de um hotel de luxo, tenta alertar o conterrâneo recém-chegado sobre os perigos da cidade. No filme, personagens secundários do espetáculo do futebol são valorizados, como os torcedores que ganham destaque a ponto de ocupar o centro da narrativa na história dos fanáticos da Gaviões da Fiel.

A idealização de momentos da história do futebol paulista no decorrer do século XX e a simplicidade da narrativa surgem inteiras já no plano-sequência que abre o filme. Na parede de um bar há retratos de craques como Julinho Botelho, Pepe, Oberdan Catani, Edu Bala, Zizinho, Pelé, Ademir da Guia, Luizinho, que aparecem ao lado de Ari, Naldinho e Otávio Alicate, todos com uniformes dos grandes clubes paulistas. A câmera recua para enfocar Naldinho, que discute com Otávio Alicate em qual cavalo apostar no próximo páreo. Sem corte, a câmera passa pelos dois, capta o andar inferior do bar, com mesas, clientes e mais retratos na parede, para se deter rapidamente no Juiz, que sobe as escadas e junta-se aos amigos. Em seguida, a câmera retorna a Naldinho e Otávio, que continuam falando sobre o páreo. O Juiz chega, cumprimenta os dois e se prepara para sentar-se quando os letreiros irrompem na tela sobre um fundo negro, a trilha sonora ascende e culmina no grito coletivo de torcedores.

Naldinho é um atacante do S.C. Corinthians nas décadas de 1950 e 1960, enquanto Otávio é o meia-direita do São Paulo F.C. nas décadas de 1970 e 1980. Os dois aguardam a chegada dos companheiros para o bate-papo amistoso regado a cerveja. Como Naldinho se confunde com os cavalos, Otávio é didático sem ser grosseiro com o amigo entusiasmado com a aposta no jóquei. Dada a idade, Naldinho é um espectador que acompanha com dificuldade as histórias narradas e necessita da atenção dos amigos, que relatam os casos com clareza exemplar. Apesar de as histórias seguirem a aparente gratuidade da conversa dos amigos no bar, há no filme uma cronologia flexível que remete aos resquícios do amadorismo do futebol paulista da década de 1950 (Virgílio Pênalti); aos anos gloriosos do Santos F.C. na década de 1960; à transformação do futebol em consumo das classes abastadas (Pivete) a partir da década de 1990; ao comércio milionário que desenraíza o atleta (Azul); à paixão desmedida por um clube que se transforma no centro da vida do torcedor (Gaviões); e ao jogo político clientelista vigente entre os próprios atletas (Mamamá), um reflexo da mercantilização generalizada.

A crítica reage bem a Boleiros e identifica elementos como a melancolia, o humanismo e o aspecto de crônica social. O jornalista Inácio Araújo, na Folha de S.Paulo, classifica o filme como um "drama do tempo" que recorre às memórias de seus personagens para construir uma "articulação entre o explícito e o implícito, o evidente e o secreto que faz surgir a beleza melancólica, e por vezes muito forte, desta quase comédia". José Onofre, na revista Bravo!, também saúda o filme pelo acabamento do roteiro e da direção segura. Para ele, Boleiros é "(...) fantasia em tons naturalistas que mais se aproxima dos mitos e lendas do futebol". Quase dez anos depois, em um panorama sobre o tema, o jornalista Luiz Zanin Oricchio reitera o tom positivo e aponta o tratamento do futebol como questão social e afirma: "(...) faz-se, pelo futebol, uma radiografia do país, com suas qualidades e terríveis problemas".

Com Boleiros, Ugo Giorgetti confirma sua vocação de cronista de São Paulo, que lamenta as mazelas sociais e aponta a degradação do espaço da cidade. A boa acolhida de público e crítica faz com que o diretor realize a continuação do filme em Boleiros 2, em 2006.

 

Notas
1 O cineasta em questão é o italiano Pier Paolo Pasollini, cujas ideias sobre o futebol são comentadas em WISNIK, José Miguel. Veneno remédio - o futebol e o Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.
2 Além da evocação de momentos do futebol paulista, há também a referência mais direta à realidade na história de Azul, livremente inspirada na de Dener, um dos grandes nomes do futebol paulista da década de 1990, apesar da morte prematura, em 1994. Assim como o bar do filme é inspirado no "Elias", um antigo bar no Parque Antártica, ponto de encontro de boleiros. O jornalista Matinas Suzuki e o médico Fernando Carmelo Torres interpretam a si mesmos. Existem também frases que são colhidas da boca de antigos jogadores, como a que Tito pronuncia ao final, quando diz: "Fui jogador de futebol durante vinte anos e sou técnico há mais de vinte anos. Só que, quando sonho, só sonho comigo jogando". Cf. A entrevista de Ugo Giorgetti para Cinemais, n.10, mar.-abr. 1998.
3 ARAÚJO, Inácio. Boleiros aborda a fugacidade do tempo. In: Folha de S.Paulo, 24 abr. 1998.
4 ONOFRE, José. Era uma vez o espetáculo. Bravo!, n.7, abr. 1998.
5 ORICCHIO, Luiz Zanin. Fome de bola - cinema e futebol no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.

Ficha Técnica da obra Boleiros - Era uma Vez o Futebol:

Midias (1)

Boleiros - Era uma vez o futebol
Direção: Ugo Giorgetti Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (10)

  • BRASIL, Ubiratan. Bairrismo é driblado pela simpatia dos personagens. O Estado de S. Paulo, 24 abr. 1998.
  • GIORGETTI, Ugo. Entrevista - cinco questões a Ugo Giorgetti. Cinemais, n.10, arço-abril, 1998.
  • MELO, Victor de Andrade de e Peres, Fabio de Faria (orgs.). O Esporte Vai ao Cinema. São Paulo: Senac, 2005.
  • ONOFRE, José. Era uma vez o espetáculo. Bravo!, n.7, abril 1998.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Fome de Bola - cinema e futebol no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Diretor diz detestar tudo que não tenha cor local. O Estado de S. Paulo, 24 abr. 1998.
  • PAVAM, Rosane. O sonho intacto nas palavras de Ugo Giorgetti. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004.
  • RAMOS, Lécio Augusto. Adhemar Gonzaga. In: MIRANDA, Luiz Felipe e RAMOS, Fernão (orgs.). A chanchada e o cinema carioca (1930-1955). In: RAMOS, Fernão (org.). História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.
  • ROCHA, Flávia. O cronista do homem comum. Bravo!, n.3, dez. 1997.
  • WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio - o futebol e o Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BOLEIROS - Era uma Vez o Futebol. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67311/boleiros-era-uma-vez-o-futebol>. Acesso em: 21 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7