Artigo da seção obras Jogo de Cena

Jogo de Cena

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoJogo de Cena: 2006
Filme

Análise

Dirigido pelo documentarista Eduardo Coutinho (1933-2014) Jogo de Cena, de 2006, é o décimo documentário de longa metragem e um marco da filmografia do diretor desde Santo Forte, de 1997. Com a diretora-assistente Cristiana Grumbach e a montadora Jordana Berg, que o acompanham desde então, em Jogo de Cena, Coutinho retoma o início de sua carreira como diretor de filmes de ficção e volta a trabalhar com atores, mas desta vez em um documentário que se passa integralmente sobre um palco de teatro e conta apenas com a presença de mulheres. No filme, além das conhecidas atrizes Fernanda Torres (1966), Marília Pêra (1943) e Andréa Beltrão (1963), há atrizes desconhecidas pelo grande público assim como não atrizes. Com Jogo de Cena, Coutinho radicaliza e leva ao limite seu método baseado na entrevista, que ele prefere chamar de conversa, encontro, relação. Fazem parte desse método, até a realização desta obra, a delimitação espacial, seja geográfica ou social (um lixão, uma favela, um prédio de classe média em Copacabana, uma região do sertão paraibano), e a valorização da capacidade narrativa e expressiva de seus personagens, em geral pessoas comuns, que interagem com Coutinho e reagem à sua câmera no espaço da cena documental. Identificado a um "minimalismo estético", o método desenvolvido por Coutinho no filme tem por princípio a recusa ao que é "representativo" (o outro como representação ou síntese social) e a afirmação de sujeitos singulares, por meio de performances e autoencenações em que o real e o imaginário são entrelaçados. 

Para a realização de Jogo de Cena, em que pela primeira vez na obra de Coutinho o método se torna o próprio tema, monta-se um dispositivo de filmagem (conjunto de regras e limites, formais e espaciais, que o diretor também costuma chamar de "prisão"): no lugar de um espaço geográfico e social, Coutinho escolhe um espaço físico desprovido de significações de classe, o Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro, e no lugar de personagens comuns, a um só tempo ordinários e performáticos, ele alterna, entrelaçando, embaralhando e duplicando, depoimentos de atrizes com os de não atrizes. As não atrizes ou aspirantes a atriz são as primeiras a ser selecionadas com base em um anúncio de jornal que, em 2006, convida mulheres a contar suas histórias de vida para a equipe de um documentário. Atendendo a esse anúncio, 83 mulheres narram em estúdio os momentos mais significativos de suas trajetórias, em geral marcados por separações, interrupções e abandonos. Em junho de 2006, após a fase inicial de pesquisa, da qual Coutinho nunca participa (outra característica de seu método), 23 delas são selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes são convidadas por Coutinho a interpretar, sem imitar, julgar ou criticar, as histórias narradas pelas personagens escolhidas. Entre as atrizes, há desde as mais conhecidas do público, por causa de sua presença na televisão (como Fernanda Torres, Marília Pêra e Andréa Beltrão), até atrizes de teatro, menos conhecidas ou nem sempre reconhecidas (como Mary Sheyla, Jeckie Brown, Débora Almeida e Lana Guelero). 

Assim, há pelo menos três camadas de representação: as personagens com suas histórias reais; essas personagens tornam-se modelos para as atrizes profissionais (nem sempre reconhecidas como tais); que também falam sobre sua vida real. No filme, as atrizes conhecidas funcionam como uma espécie de âncora fincada na realidade. Delas, sabe-se que interpretam. Mas, e as atrizes profissionais, cujos rostos são desconhecidos, qual é a garantia que se tem, pois as narrativas dessas personagens tanto podem ser uma experiência real quanto imaginária. Quando atrizes e personagens reais se confundem em vários níveis, jogando com o que se sabe, se ignora ou apenas se espera de cada uma, os espectadores são levados a um exercício de dúvida quase permanente e a uma postura ativa diante de imagens e sons do filme. Por isso, Jogo de Cena não se reduz a uma busca pela definição do verdadeiro e do falso, já que, como é evidenciado, uma pessoa pode se apropriar da história do outra e, ao mesmo tempo, no ato de narrar, ser tão ou mais verdadeira. Não é por outro motivo e, como acredita Coutinho, o documentário tem como tema a impossibilidade de se chegar ao real. Jogo de Cena faz dessa "impossibilidade", aliada a uma interrogação sobre a natureza ética e estética da imagem, sua matéria criativa e reflexiva.

É expressivo dessa indistinção entre verdadeiro e falso, espontaneidade e encenação, vida e teatro, elaborada por um minucioso trabalho de montagem, o momento em que a atriz Fernanda Torres "fracassa" em sua tentativa de interpretar a personagem e não atriz Aleta. Tais indistinção e desestabilização narrativas se fazem presentes a partir de uma montagem que, ao alternar, repetir e antecipar trechos narrados, produz um incendiário curto-circuito entre as falas de uma e outra e entre as falas "de" Fernanda. Em dado momento, completamente desestabilizada, ela chega ao limite da ambiguidade, quando diz "que loucura, Coutinho, que loucura", e já não se sabe mais quem fala. A partir desses procedimentos que atravessam todo o filme, Jogo de Cena coloca sob suspeita os documentários baseados na fala como expressão da subjetividade e como relato testemunhal de histórias de uma vida. Ao pôr em dúvida a relação de propriedade entre o corpo falante e a fala pessoal, supostamente intransferível (a quem pertence essa fala? E ela fala sobre o quê?), Jogo de Cena acaba, portanto, como acredita o crítico Jean-Claude Bernardet, por desestabilizar a noção de sujeito e por inviabilizar a prática da entrevista - isto é, acaba por inviabilizar a crença corrente na entrevista como expressão da verdade dos personagens -, marca da filmografia de Coutinho desde Santo Forte

Mas por que um filme apenas com mulheres? Não somente porque elas são "o outro", o que Coutinho não é, mas porque as mulheres são um veículo privilegiado para a expressão de uma dimensão coletiva da fala feminina. Da tragédia Medeia, de Eurípides, à animação da Disney Procurando Nemo (2003), passando por sonhos reveladores, menções às mitológicas HQs de Hal Foster e a desejos de ser paquita no Show da Xuxa, os depoimentos das mulheres de Jogo de Cena são pontuados tanto pela tragédia quanto pelas lágrimas do melodrama. Ali, os sofrimentos e as histórias são de cada uma e de todas, diversos e os mesmos, singulares e coletivos. Nesse cinema em que a fala é um ato e a palavra é o núcleo da cena, interessa a Coutinho a forma como as coisas são ditas, sentidas e autoencenadas, e não simplesmente o conteúdo daquilo que se diz. Respondendo a um momento histórico em que o espetáculo é generalizado, quando o que disputa é a performance mais autêntica e a confissão surpreendente, o filme embaralha a noção de documentário e ficção, autêntico e encenado, verdade e representação, destilando dúvidas sobre a imagem documental, supostamente verídica, e questionando a noção de verdadeiro, autêntico e espontâneo, tão comumente remetida ao documentário.

Jogo de Cena recebe os prêmios de melhor filme da Associação Paulista dos Críticos de Arte, (APCA), em 2007; do júri de melhor documentário, no Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este, Uruguai, em 2008; e Troféu Alhambra de Ouro de melhor longa-metragem, no Festival Cinemas do Sul, Granada, Espanha, em 2008. No Brasil, a recepção crítica é favorável ao filme. Carlos Alberto de Mattos, em O Globo, chama atenção para o fato de que, a cada novo rosto e nova cena, tem de reajustar a expectativa e a relação de "fé" diante do que se vê e se ouve, sublinhado que a diferença entre documentário e ficção é uma questão de crença. Se é documentário aquilo em que se decide "acreditar", Coutinho é considerado por Marcelo Coelho1,  uma espécie de padre, e por Luiz Zanin2, um psicanalista. Diante do padre ou do psicanalista, uma situação aparentemente rígida e inviolável mostra-se propícia para que o milagre possa acontecer: quando uma pessoa, qualquer pessoa, ao confessar ou contar uma história, se inventa. "Que uma atriz possa se apossar da história alheia e, nesse ato, fazê-la sua própria, é apenas um outro milagre da subjetividade, restituído neste filme notável", conclui Zanin. 

Já para o crítico Jean-Claude Bernardet3, que escreve a respeito do filme desde 2008, Jogo de Cena seria uma explosão transformadora da magnitude que têm no passado filmes de Eisenstein ou Godard, anunciando o encerramento de um ciclo de cinema que Jean Rouch inicia há meio século com Eu, um Negro (Moi, un Noir, 1958). Considerando a obra de uma trágica radicalidade, Bernardet também enfatiza que esse cineasta sentado atrás da câmera não só não faria mais sentido como não seria mais possível após Jogo de Cena, "que dissolveu o sujeito entrevistado e, por consequência, o sujeito entrevistador". Com essa provocação, o crítico contempla os desdobramentos posteriores da obra de Coutinho, que, com Moscou (2009), aprofunda a investigação sobre o universo teatral.

Notas

1 COELHO, Marcelo. Mentiras e verdades de Coutinho. Folha de S.Paulo, Ilustrada, 05 de dezembro de 2007.
2 ZANIN, Luiz. Jogo de Cena. Blog do Estadão, Disponível em: < http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/ >. Disponível em: 11 nov. 2007.
3 BERNARDET, Jean-Claude. (Site oficial do crítico). Blog do Jean-Claude. Disponível em:  http://jcbernardet.blog.uol.com.br/ >. Acesso em: 11 nov. 2007. (onde se encontram diversos posts sobre o filme Jogo de Cena, ver comentários de 14/01/2008, 31/07/2009, 12/08/2009, além dos mais recentes).

Ficha Técnica da obra Jogo de Cena:

Midias (1)

Jogo de Cena
Direção: Eduardo Coutinho Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (13)

  • BALTAR, Mariana. Realidade lacrimosa: diálogos entre o universo do documentário e a imaginação melodramática. Tese (Doutorado) -  Universidade Federal Fluminense, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2007.
  • BERNARDET, Jean-Claude. (Site oficial do crítico). Blog do Jean-Claude. Disponível em:  < http://jcbernardet.blog.uol.com.br/ >. Acesso em: 11 nov. 2007. (onde se encontram diversos posts sobre o filme Jogo de Cena, ver comentários de 14/01/2008, 31/07/2009, 12/08/2009, além dos mais recentes).
  • BEZERRA, Claudio Roberto de Araújo. Documentário e Performance: modos de a personagem marcar presença no cinema de Eduardo Coutinho. 2009. Tese de (doutorado) - Universidade Estadual Paulista de Campinas (Unicamp) , Campinas, São Paulo, 2009.
  • BRAGANÇA, Felipe (org.). Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Azougue, 2008.
  • BRUNO, Fernanda.Jogo de Cena, 2007. Dispositivos de Visibilidade e Subjetividade Contemporânea. Disponível em: < http://dispositivodevisibilidade.blogspot.com/2007/11/jogo-de-cena.html >.
  • COELHO, Marcelo. Mentiras e verdades de Coutinho. Folha de S.Paulo, 05 dez. 2007. Ilustrada
  • FELDMAN, Ilana. Na contramão do confessional: o ensaísmo em Santiago, Jogo de cena e Pan-cinema permanente. In: MIGLIORIN, Cezar (org.) Ensaios no Real. Rio de Janeiro: Azougue, 2010. p.149-167.
  • LINS, Consuelo. O Documentário de Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
  • LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
  • MATTOS, Carlos Alberto. Eduardo Coutinho: o homem que caiu na real. Santa Maria da Feira, Portugal: Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, 2003.
  • MATTOS, Carlos Alberto. Acredite se quiser. O Globo, Docblog. Disponível em: < http://oglobo.globo.com/blogs/docblog/posts/2007/08/17/acredite-se-quiser-69921.asp >. Acesso em: 17 ago. 2007
  • XAVIER, Ismail. Indagações em torno de Eduardo Coutinho e seu diálogo com a tradição moderna. In: MIGLIORIN, Cezar (org.). Ensaios no Real. Rio de Janeiro: Azougue, 2010. p.65-79.
  • ZANIN, Luiz. Jogo de Cena. Blog do Estadão. Disponível em: < http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/jogo-de-cena-1/ > Acesso em: 11 nov. 2007.

Como citar?

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  • JOGO de Cena. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67310/jogo-de-cena>. Acesso em: 08 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7