Artigo da seção obras Árido Movie

Árido Movie

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoÁrido Movie: 2005
Filme

Análise
Além de ser título do segundo longa-metragem do pernambucano Lírio Ferreira (1965), árido movie é o termo cunhado pelo diretor Amin Steplle para designar um pequeno grupo de projetos cinematográficos dos anos 2000, em Pernambuco: Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, Deserto Feliz (2007), de Paulo Caldas, e o próprio Árido Movie, de Ferreira. Nos três filmes, há a conexão de um Brasil de dentro, ainda arcaico, com um Brasil para fora, urbano, mais próximo das novidades do mundo. Essas novas obras do cinema pernambucano é posterior à boa acolhida do público e da crítica a Baile Perfumado (1997), longa-metragem de Ferreira e Paulo Caldas (1964), e à recepção aquecida a Amarelo Manga, longa-metragem de estreia de Cláudio Assis, que recolocam, com prêmios em festivais brasileiros, a produção pernambucana em posto central nos anos 2000. Estes dois filmes, assim como Árido Movie, têm a roteirização de Hilton Lacerda, um dos profissionais revelados pelo núcleo recifense.

Árido Movie é realizado com 1,3 milhão de reais, maior parte viabilizada pelo edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura (MinC). As filmagens param por um ano por falta de dinheiro, mas a arrecadação de recursos não impede o filme de promover nomes prestigiados em sua ficha técnica. A direção de fotografia é do cineasta Murilo Salles, também um dos produtores do filme. No elenco, Guilherme Weber, revelado no grupo de teatro paranaense Sutil Companhia de Teatro, interpreta o protagonista. Entre os personagens secundários, Matheus Nachtergaele (1968) a Aramis Trindade, de Selton Mello (1962) a Paulo César Pereio (1940), de José Celso Martinez Corrêa (1937) a Mariana Lima, de Giulia Gam a José Dumont, intérpretes de origem regional, sotaques e formações diversas (teatro, cinema, televisão). 

Em sua maior parte ambientado no sertão de Pernambuco, o filme filia-se às representações do cinema novo, não sem estranhamento. A perspectiva agora é composta de olhares de fora do sertão, com o qual o protagonista mantém uma postura de defesa e recuo, já sem o sofrimento na pele e a violência inevitável dos filmes dos anos 1960. Esse deslocamento do personagem central é uma das marcas do cinema brasileiro dos anos 1990, sobretudo do cinema de Pernambuco e do Ceará, que têm vitalizado o road movie nos últimos anos. Em Árido Movie, o sertão é Rocha, homenagem a Glauber Rocha (1939-1981). Na realidade, trata-se do Vale do Catimbau, no sertão de Pernambuco, onde Meu Rei, morto em 1999, funda a Fazenda Teológica e Metafísica Princípio de um Reinado, na qual armazena água. No filme, Meu Rei é Meu Velho, interpretado por Martinez Corrêa, que aparece com a barba que o caracteriza como Antônio Conselheiro em suas montagens de Os Sertões, adaptado do romance de Euclides da Cunha (1866-1909).

A narrativa de Árido Movie divide-se em núcleos distintos que, eventualmente, se cruzam. O principal núcleo dramático é de Jonas (Guilherme Weber), apresentador do tempo em uma emissora de TV de São Paulo e natural de Rocha, para onde volta após a morte do pai. Em seu lugar de origem, que estranha e desconhece após anos afastado, Jonas é jogado em uma arapuca, envolvendo sexo, morte e água. Os outros núcleos interagem com o de Jonas: os amigos "bons de farra", os "indígenas" sem lugar, a documentarista atrás dos sentidos da água no sertão, a família de poderosos com sede de vingança. Árido Movie se constrói assim na alternância dos núcleos contrastantes. Passa-se de um para outro em uma lógica de simultaneidade quase constante, em que os eventos correm em paralelo, sem estabelecer entre si uma relação causal, de motivos e consequências. Nota-se um esforço metafórico nas imagens de água desde os primeiros planos e uma aplicação de recursos técnicos para efeitos simbólicos (como a imagem desfocada de Jonas, no começo do filme, para visualizar seu deslocamento). 

Esse personagem desconectado de sua origem reflete um olhar contemporâneo que, ao encarar o passado, encontra apenas uma paisagem, alheio às motivações de outra época. Se o vaqueiro Manoel corre em direção ao mar no fim de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, em Árido Movie a água termina como matéria estrategicamente incorporada a uma instalação de arte contemporânea, com a utopia dos anos 1960, reduzida a uma representação urbana. Essa diferença entre dois momentos históricos e dois olhares voltados para o mesmo local de fundação da mitologia cinematográfica nacional manifesta-se de forma sintética em uma sequência específica. Jonas e Zé Elétrico (José Dumont) são mostrados no alto de um vale, onde acabam de tomar um chá de raízes fortes. Zé Elétrico diz que as coisas, apesar de estarem por aí, não são vistas nem entendidas. Nesse momento, a câmera começa a se mover: passa por trás de Jonas e circula pela paisagem, vista do alto do vale (um vazio humano repleto de pedras no extenso horizonte filmado em plano geral).

Essa circularidade da câmera completa 360 graus em pouco mais de três minutos. Por todo esse tempo, com raros momentos de silêncio, Zé Elétrico desenvolve seu monólogo. Se ele nunca tinha visto o cachorro na Pedra do Cachorro e o elefante na Pedra do Elefante (antes de ver uma e outra imagem pela primeira vez), então, conclui, as coisas estão por aí sem ser vistas por conta de preguiça e preconceito. Razão para ele gostar de Raul Seixas, porque não gosta de ter opinião formada. No fim do movimento circular, enquanto Jonas olha para a paisagem, Zé Elétrico sintetiza: "Cabeça aberta e estar alerta". A voz de Zé Elétrico, antigo nativo da terra, sábio popular, vinculado à natureza e à tradição, é a voz da razão mítica e telúrica. Atento às deformações discursivas e perceptivas da sociedade, concentrado em significados nunca antes percebidos, ele procura e encontra sentido nas coisas, construindo-o. Jonas apenas ouve, com um olhar disperso e distante, próprio, a sua experiência de homem do tempo na TV.

A diferença entre o discurso mítico e histórico de Zé Elétrico e o olhar calado e perdido de Jonas coloca em convivência não apenas duas perspectivas culturais diante do sertão, mas também, e principalmente, dois momentos de experiências do cinema. Zé Elétrico ainda traz da década 1960 um empenho em significar, procurando sentido nas aparências, atitude que passa muito longe de Jonas, personagem urbano deslocado da geração anterior. Jonas não vê sentido em nada, talvez porque os sentidos, estando em toda parte, não sejam evidentes. A nova geração estranha o velho sertão. Se a ambientação sertaneja, a questão do uso da terra e a câmera às vezes inquieta remetem a Glauber Rocha, a considerável importância da trupe dos amigos "bons de farra" rompe com a seriedade cinema-novista, estabelecendo mais afinidade com as referências pop e com a curtição alucinada (em versão moderada) de filmes como Meteorango Kid (1969), de André Luiz Oliveira, e das produções da Belair, a produtora de Rogério Sganzerla (1946-2004) e Julio Bressane (1946) do início dos anos 1970. Como em Baile Perfumado, a trilha sonora de Árido Movie é pop, de Renato e Seus Blues Caps a Otto, Ceppas, Berna, Kassin e Pupilo, documentos sonoros contemporâneos empregados em um filme com olhos em contrastadas camadas de tempo.

Árido Movie é exibido no 62º Festival de Veneza, na mostra competitiva Horizonte, e recebe seis prêmios no Cine PE: melhor filme, direção, ator coadjuvante (Selton Mello), fotografia, montagem e prêmio da crítica. Kleber Mendonça Filho, na revista eletrônica Cinética, chama atenção para o sertão pobre e rico, misterioso e fascinante, arcaico e moderno, que, no filme, se constitui o retrato mais completo, apesar de incerto, desse universo cultural, geográfico, social e cinematográfico. Na seção Cinema Falado, da revista eletrônica Contracampo, que debate os filmes lançados no ano anterior, Ruy Gardnier vê em Árido Movie um amálgama da visão do Nordeste pelo audiovisual brasileiro, o que contempla desde os sonhos revolucionários do cinema novo até o sotaque genérico das telenovelas da Rede Globo. Na mesma Contracampo, em crítica de Tatiana Monassa, o filme é visto como obra conceitual, que não apenas representa um estado de coisas, mas também coloca a representação em jogo, com assumido artificialismo e distanciamento das coisas representadas. Inácio Araújo, na Folha de S.Paulo, identifica uma exuberância barroca, que demonstra influências de Jean-Luc Godard e Orson Welles, Sergio Leone e Glauber Rocha, aliada a uma reelaboração do clichê das vinganças nordestinas até sua desfiguração, que resulta para o crítico em uma obra com vontade de verdade (e não de arte) em relação a sua paisagem.

Ficha Técnica da obra Árido Movie:

Midias (1)

Árido Movie
Direção: Lírio Ferreira Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (11)

  • ARANTES, Silvana. Lido assiste ao brasileiro Árido movie. Folha de S.Paulo, 09 set. 2005. Ilustrada.
  • ARAÚJO, Inácio. Diretor enlaça histórias em filme de exuberância barroca. Folha de S.Paulo, 14 abr 2006, Ilustrada,.
  • EDUARDO, Cléber. Estrangeiro no espaço da infância. Revista Cinética, 2006. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/aridomovie.htm
  • GARDNIER, Ruy; MONASSA, Tatiana; CAETANO, Daniel. Cinema falado, parte 3: O veneno da madrugada, Árido movie e estréias em longa-metragem. Contracampo, 85. Disponível em:
    http://www.contracampo.com.br/85/cinemafaladoparte3.htm

  • MENDONÇA FILHO, Kleber. Os Sertões (Árido, Máquina e Aspirinas). Revista Cinética, 2006. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/sertaokmf.htm
  • MONASSA, Tatiana. Árido movie e A Concepção: proposições para uma história em curso. Contracampo, 81. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/81/artaridomovieconcepcao.htm.
  • NAGIB, Lucia (org.). O Cinema da Retomada: Depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Ed.34, 2002. p. 137-144.
  • OROCCHI, Luiz Zanin. Cinema de Novo: Um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003. p. 27; 122; 132-134
  • TOLENTINO, Célia. O Rural no Cinema Brasileiro. São Paulo: Ed. UNESP, 2001.
  • VITOR, Fabio. Cinema seco. Ilustrada, Folha de S.Paulo, 17 de nov 2003.
  • XAVIER, Ismail. Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome. São Paulo: Editora Brasiliense. 1983.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ÁRIDO Movie. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67309/arido-movie>. Acesso em: 16 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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