Artigo da seção obras A Derrota

A Derrota

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoA Derrota: 1966
Filme

Análise
A Derrota é o único longa-metragem escrito e dirigido no Brasil por Mário Fiorani (1922 - 1996), crítico, ensaísta e produtor italiano. O filme inscreve-se na linhagem das reflexões sobre o golpe militar de 1964, com Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha (1939-1981); O Bravo Guerreiro (1969), de Gustavo Dahl (1938-2011); Fome de Amor (1968), de Nelson Pereira dos Santos (1928); e, sobretudo, O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni (1933-2012). Este é produzido por Fiorani, que aproveita o elenco e equipe técnica para seu próprio filme.

No texto de divulgação, A Derrota é apresentado como "um ensaio sobre a violência". A referência contemporânea à repressão e tortura por parte da ditadura militar brasileira se impõe, e a concentração dramática que isola a prisão de seu contexto sanciona leituras mais abstratas e universalistas. Essa abstração e o fato de que é produzido antes do Ato Institucional nº5 (AI-5), de dezembro de 1968, permitem que o filme escape da censura.

A história é de um homem (Luiz Linhares) encarcerado, cujo nome não é revelado em momento algum. Nada é dito, nem mesmo sugerido, sobre os motivos concretos da detenção e do caráter dessa prisão. De início, mesmo a definição do espaço como prisão é dúbia. O protagonista surge deitado no chão do que parece ser um saguão, acordando e se recuperando de um possível golpe na cabeça. Há outros homens na cena, que parecem vigiá-lo e o conduzem até um quarto.

Em cortes descontínuos, os créditos do filme são sobrepostos a movimentos de câmera focalizando as paredes carcomidas e sujas. A esse prólogo seguem-se algumas ações esparsas que começam a definir uma rotina do prisioneiro: um balde é retirado e reposto - na ausência de um banheiro; alternando dia e noite, comida e água são servidas, mas o prisioneiro as joga fora, no balde; tenta usar a pia imunda, mas, tal como o interruptor, a torneira está imprestável; bate desesperado na porta, passa mal, vomita, dorme, acorda; a presença de vigias se torna constante.

A situação narrada se torna mais clara quando o preso é convocado para um primeiro depoimento, que já prenuncia interrogatórios e possíveis torturas: o interrogador (Oduvaldo Vianna Filho) diz que "não tem pressa... por enquanto", já que tudo está claro. O prisioneiro e quem o interroga sabem do que se trata e o que é preciso contar. Depois de um breve retorno ao quarto/cela, o homem é levado a novo interrogatório, desta vez, conduzido por um homem um pouco mais velho (Ítalo Rossi), que também prenuncia, em sua abordagem ainda amena, um desenvolvimento violento. Entre as ameaças, ele presencia o enforcamento de um gato.

Enquanto o homem resiste, o palco da tortura vai se armando: chega à cela um outro prisioneiro, aparentemente vítima de choques elétricos; padiolas carregam feridos ou mortos; guardas reprimem qualquer esboço de reação exibindo metralhadoras. Afinal, chega sua vez, e as imagens do corpo se contorcendo em choques elétricos são diretas e terríveis. Na sala ao lado, de onde se ouvem seus gritos, sua mulher (Glauce Rocha) é pressionada para que "conte tudo". Em seguida, é levada para uma cela, numa situação em que fica nítida sua vulnerabilidade e submissão, forçada aos caprichos dos guardas.

A pressão sobre o prisioneiro cresce, até que, numa reviravolta, ele consegue dominar um guarda e o ataca numa ação que pode ser vista como uma referência à opção da luta armada, que circula na intelectualidade de esquerda naquele momento. O prisioneiro mata vários carcereiros, humilha seu torturador e resgata sua mulher. Seus movimentos são interrompidos. Um tiroteio que ocorre fora do campo visível resulta em seu ferimento e captura.

O movimento final de A Derrota, encenando o último círculo da repressão, reafirma o título e o tema: o homem é executado por enforcamento pelas mãos do Carrasco (Eugênio Kusnet). Em seguida, o corpo do detento é incinerado, com a fumaça do forno subindo ao céu, contra a silhueta indiferente dos prédios e antenas de TV, sugerindo uma aproximação entre a violência representada no filme e a realidade nos campos de extermínio nazistas.

Não é difícil ver na 'derrota' do homem preso e torturado, sem nenhuma explicação ou contexto de referência, ecos das narrativas kafkianas e influências de O Processo (1962), de Orson Welles (1915-1985), e de Um Condenado à Morte Escapou (1956), de Robert Bresson (1901-1999). Sem o rigor minimalista do cineasta francês, A Derrota é eficiente na encenação de uma atmosfera claustrofóbica e na suspensão temporal da situação apresentada. Contribuem para esses efeitos a trilha dodecafônica de Esther Scliar (1926-1978) e a direção de fotografia de Mário Carneiro (1930-2007), além da interpretação, de poucas palavras e muita tensão, de Luiz Linhares.

O filme recebe o prêmio de melhor trilha sonora, na Semana do Cinema Brasileiro de 1966, atual Festival de Brasília. Estrangeiro e de uma geração mais velha que a dos cinemanovistas, Mário Fiorani, numa entrevista concedida ao Jornal do Brasil, reivindica sua inclusão no cinema novo, tomando os parâmetros modernistas comuns como critério de afinidade.

Ficha Técnica da obra A Derrota:

  • Data de lançamento
    • 1966

Midias (1)

Direção: Mário Fiorani Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (4)

  • FIORANI, Mario. A Derrota - Um filme brasileiro. DiFilm, material de divulgação, 1966.
  • FIORANI, Mário. La Mia Vita a Memória". in GIUSTI, Mario e MELANI, Marco. Prima e Dopo la Revoluzione - Bresile anni' 60: del Cinema Novo al Cinema Marginal. XIII Festival Internacionale Cinema Giovani. Turim, 1995.;
  • FIORANI, Mário. Um Novo Caminho com A Derrota. Entrevista para Jornal do Brasil, 26 mar. 1967.
  • HOLANDA, Jorge Cunha e GERLING, Cristina Capparelli . Eunice Katunda e Esther Scliar no contexto do modernismo musical brasileiro. Música Hodie: Revista do Programa de Pós-graduação Stricto-Senso da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás. Vol., vol. 6, no. 12, 2006, pp.61-8

Como citar?

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  • A Derrota. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67305/a-derrota>. Acesso em: 20 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7