Artigo da seção obras Ato de Violência

Ato de Violência

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoAto de Violência: 1980
Filme
Imagem representativa do artigo

Reproduçõo fotográfica autoria desconhecida

Análise

Ato de Violência é dirigido por Eduardo Escorel (1945), traz contribuição importante para uma linha de filmes brasileiros do fim dos anos 1970, baseados na crônica policial corrente, entre os quais podem ser citados Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1976), de Hector Babenco (1946), e O Caso Cláudia (1979), de Miguel Borges. Escrito em parceria com o filósofo Roberto Machado, em 1977, o roteiro de Ato de Violência é baseado em caso verídico que tem bastante repercussão na mídia: a história de Francisco da Costa Rocha, apelidado de "Chico Picadinho" por matar e esquartejar uma mulher em 1966 e, exatos dez anos depois, cometer outro crime praticamente idêntico. No filme, o personagem nele inspirado ganha o nome de Antônio Nunes Correa, interpretado por Nuno Leal Maia. Para a preparação do roteiro, Escorel obtém cópias dos autos do processo referente ao caso, além de fazer um levantamento exaustivo do que é publicado na imprensa sobre o assunto. Não se trata, porém, de uma reconstituição real dos fatos, e sim de uma obra ficcional livremente construída com base nesse conjunto de materiais que servem de pesquisa para o roteiro. Rodado em 14 semanas, entre maio e agosto de 1979, Ato de Violência é finalizado em fevereiro de 1980. 

As primeiras tomadas acompanham os momentos que se seguem ao segundo dos dois crimes: enquanto Antônio foge de São Paulo para o Rio de Janeiro os jornais noticiam o retorno do "esquartejador". Após as cenas de abertura, um flashback transporta o filme de volta à época do primeiro assassinato, pelo qual Antônio é condenado a 20 anos e seis meses de reclusão. Na cadeia, ele tem bom comportamento, mostra-se estudioso, dócil e trabalhador. Casa-se com uma moça correta, Tânia (Selma Egrei), e completa o curso supletivo, esses acontecimentos contribuem para a redução da pena e a transferência para regime semiaberto em uma penitenciária rural. Antônio consegue a liberdade condicional e reencontra a família e os amigos em almoço de boas-vindas. 

Contudo, o estigma de ex-presidiário impede que consiga um emprego. Então, começa a beber, deixa a mulher, passa a viver de favores, endivida-se. Sozinho, vai à procura de seu amigo Manoel (Renato Consorte, 1924-2009) e pede para morar com ele por uns tempos. Manoel aceita, desde que seja só por dois dias, mas semanas se passam e Antônio vai ficando, até provocar a irritação do amigo. Numa madrugada em que vaga de bar em bar, Antônio leva uma prostituta para o apartamento. Durante o ato sexual, ele a estrangula, numa cena em que erotismo e violência se misturam. Na noite seguinte, foge para o Rio de Janeiro. Localizado pela polícia em uma movimentada praça pública, é preso novamente. Numa longa entrevista que concede à imprensa, filmada num único plano-sequência frontal que encerra o filme, Antônio desmonta, com surpreendentes palavras, todos os discursos psicológicos e sociológicos que tentam em vão explicar seus dois crimes. Ele afirma desconhecer os impulsos que o levam às mortes e diz-se aliviado por ter sido preso outra vez. A entrevista de Antônio apenas reforça o "mistério que se encerra em seu mundo inacessível"1.

O filme apresenta, assim, uma problematização das insuficientes teorias geralmente elaboradas em relação aos delitos como os de Chico Picadinho. Apesar de rejeitar as explicações convencionais para os crimes, Escorel não aceita ou assume a visão subjetiva do personagem que os executa. Sua preocupação é com a "exposição da personalidade do autor dos crimes e com o sistema que o envolve"2. Ele rechaça tanto as especulações sociopsicológicas quanto as tintas sensacionalistas que a imprensa cria sobre o evento, entregando ao espectador apenas a presença bruta das ações do personagem e dos lugares por onde ele passa.

A minuciosa construção da longa cena de abertura já define o personagem e o estilo que o diretor adota para retratá-lo: numa rua iluminada por letreiros de néon de hotéis baratos, a câmera faz uma panorâmica que acompanha, a média distância, uma prostituta perambulando pela calçada. Em seguida, desliza para o alto e mostra a janela e a sacada de um apartamento. Ao ritmo das luzes que piscam, corta para dentro do apartamento, onde Antônio está deitado num sofá, como que afundado na penumbra. As luzes dos letreiros que vêm das ruas continuam se alternando em diferentes cores, atravessando as persianas e iluminando intermitentemente o ambiente escuro e em desordem. Antônio se levanta do sofá, escreve um bilhete, que deixa sobre um pequeno móvel, e sai. Na calçada em frente do prédio, a câmera faz um lento travelling se aproximando da prostituta. Ela está de costas para a câmera. A mão de Antônio entra no quadro e se dirige diretamente ao pescoço da moça, até tocá-lo. Ela se vira de imediato. Antônio pede as horas, ela informa que são 8h20 da noite e pergunta se ele está com pressa, insinuando-se. Ele a dispensa, dizendo estar com pressa, pois vai viajar. E se afasta até sumir do foco. Depois, Manoel chega ao apartamento. Tudo é mostrado lentamente, em detalhes: ele lê o bilhete deixado pelo amigo, constata a desordem na casa, vai ao banheiro guardar uma toalha que ficara espalhada na sala, vê sangue na privada e se encaminha à sacada, onde acha o corpo esquartejado da vítima. A cabeça da mulher está dentro de um saco plástico, com as luzes coloridas incidindo sobre ela e sublinhando o grotesco do crime. 

Nessa cena inicial, a atmosfera é tão importante quanto a ação. Quando a mão de Antônio se aproxima do pescoço da prostituta, o espectador ainda não sabe que ele é autor de dois assassinatos, e que as duas vítimas são mulheres, mas a tensão construída pela obscuridade do relato e pela carga expressiva da fotografia é suficiente para que o plano da mão se dirigindo a um pescoço seja digno de filme de suspense. A pulsão de morte se traduz num gesto banal, sem significação aparente.

A cena do primeiro assassinato é também paradigmática: com ar documental, em som direto, luz naturalista, Escorel acompanha parcimoniosamente Antônio acordando ao lado de uma mulher morta, procurando uma faca na cozinha, carregando o corpo da vítima para o banheiro, e arrancando-lhe as vísceras. O procedimento consiste basicamente na "desdramatização de um fait-divers sangrento, reduzido a um estudo gestual próximo da abstração"3.

Com o mesmo ar "documental", Escorel mostra o cotidiano dos presídios em que Antônio está. As locações reais dão espessura concreta às imagens. Não há tom de denúncia ou comentário crítico explícito, apenas a evidência de uma instituição depauperada, de um espaço apodrecido, de um cotidiano deprimente. O filme indica algumas técnicas de reportagem: indicar o maior número possível de detalhes sobre um fato, buscar acompanhar o evento de perto, deixar o julgamento ao espectador.

No ano anterior ao da estreia comercial, o filme recebe cinco prêmios no Festival de Brasília, de 1980: direção, roteiro, cenografia (Paulo Chada), ator coadjuvante (Renato Consorte) e som (Victor Raposeiro). 

A crítica brasileira, em sua maioria, aprova. Segundo José Carlos Avellar, "Ato de Violência se propõe a fazer o espectador sentir o que o personagem experimenta, essa desagradável sensação de ser uma espécie de monstro, de ser obrigado a viver na sombra e de carregar essa culpa como um fardo". Edmar Pereira, no Jornal da Tarde, afirma que "Nuno Leal Maia domina e conduz o filme por transmitir toda a complexidade do seu difícil personagem com uma segurança que encontra poucos paralelos no cinema brasileiro". Já Ely Azeredo, no Jornal do Brasil, observa a "documentação crítica de uma sociedade repressiva e carcerária", a "neutralidade ante fatos que o aparelho judiciário e a psiquiatria (no caso) não deslindaram".

Notas

1 Cf. David Neves, Filme Cultura, n. 37, jan-mar. 1981, p. 78.
2 Ver matéria publicada na Folha de S.Paulo, em 20  fev. 1981.
3 Paulo Antonio Paranaguá, em Cinéma brésilien 1970-80: une trajectoire dans le sous-développement, Locarno: Editions du Festival international du film de Locarno, 1983. p. 120.

Ficha Técnica da obra Ato de Violência:

Representação (1)

Fontes de pesquisa (8)

  • AVELLAR, José Carlos. L'entrée des Ouvriers dans l'Usine Lumière. In: Cinéma Brésilien 1970-80: Une trajectoire dans le sous-développement. Locarno: Editions du Festival international du film de Locarno, 1983.
  • AZEREDO, Ely. Um Ato Frígido, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 jun. 1981.
  • Filho, Rubens Edwald. Talento, dignidade, técnica: é o novo filme de Escorel, O Estado de S.Paulo, São Paulo 8 de abril de 1981.
  • NEVES, David E. Sem pressa.Filme Cultura nº 37, jan-mar. 1981.
  • PARANAGUÁ, Paulo Antonio. Brésil. Positif nº 244/245, jun-agos. 1981.
  • PEREIRA, Edmar. Uma reportagem sombria, sem bandidos nem heróis. Como na vida real, Jornal da Tarde, São Paulo 8 abr. 1981.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
  • XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ATO de Violência. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67301/ato-de-violencia>. Acesso em: 22 de Jun. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7