Artigo da seção obras Braza Dormida

Braza Dormida

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoBraza Dormida: 1928
Filme

Análise
Braza Dormida, de Humberto Mauro (1897-1983), faz parte do ciclo de filmes de Cataguases, um movimento cinematográfico ocorrido nos anos 1920, dentro dos chamados "ciclos regionais" do cinema brasileiro silencioso. Diferentemente das primeiras experiências de Mauro, Braza Dormida marca a presença forte da cidade e seus hábitos e, sobretudo, a incorporação definitiva de um jeito de contar típico do cinema popular norte-americano.

O filme narra a história do florescimento do amor entre Luiz (Luiz Soroa) e Anita (Nita Ney). Luiz é um jovem carioca que, passando por uma crise de consciência, recebe do destino ou do vento forte a página de um jornal que anuncia uma oportunidade de trabalho. Sem demora corre à casa do proprietário de uma usina localizada no interior de Minas Gerais. A contratação é feita pelo usineiro em sua mansão na cidade do Rio de Janeiro, momento em que Anita, sua filha, e o jovem Luiz se conhecem e se enamoram, na linha "amor à primeira vista". Na usina, Luiz trabalha arduamente e é auxiliado pelo enteado (Máximo Serrano) de Pedro Bento (Pedro Fantol). Este é caracterizado como vilão da história desde o início, ex-funcionário ressentido que Luiz vem substituir na posição de gerente. Irado, Pedro Bento passa a escrever cartas ao ex-patrão, denunciando o namoro da sua filha com o novo gerente. O senhor Carlos Silva (Côrtes Real), por não conhecer a família de Luiz, desaprova a relação e obriga a moça a ir para o Rio de Janeiro. Mas o casal passa a namorar em segredo. Pedro Bento, inconformado com o sucesso de Luiz, que conquista o novo emprego e a amizade de seu enteado, termina por sabotar a usina, dinamitando sua chaminé. Após a explosão, Luiz interroga Pedro Bento e os dois iniciam uma feroz luta, que é encerrada com o vilão caindo num tacho de melado fervente. O pai da moça descobre que Luiz é filho de um velho amigo e termina por aprovar o casamento. Com a morte de Pedro Bento, seu enteado fica livre do jugo e comemora solitário o final feliz.

Como observa o crítico Paulo Emílio Salles Gomes, o filme assimila algumas das práticas correntes no cinema universal, mas impressiona pela maneira com que revela a originalidade de Mauro ao transformar essas referências e criar um estilo próprio, muito marcado pelo contato com a realidade local. A sequência do diário de Luiz demonstra bem esse avanço. Após a humilhação do enteado por Pedro Bento, aparece o primeiro plano do diário. Numa sobreposição de planos, notam-se as imagens do diário e a de Luiz sentado, fumando cachimbo. Há o corte e o rapaz é visto deitado na relva a conversar com Anita. O plano aproximado salienta um gramofone, enquanto seu rosto fica à esquerda do quadro e os pés da moça à direita. Um corte focaliza Anita que fala, em primeiro plano, sem que letreiro algum reproduza suas palavras. Luiz está debruçado, o gramofone continua a rodar e Anita se apoia em seu braço direito. A moça se afasta enquanto Luiz troca o disco. Ela ensaia alguns passos para o rapaz, que, compenetrado, a observa. Num jogo de campo e contracampo, em que se apresentam sucessivos pontos de vistas recíprocos dos personagens, a moça dança, se exibe para ele. O idílio campestre é intensificado pela brincadeira do casal, que se persegue em volta de uma árvore. As imagens alternam os primeiros planos dos jovens que se observam com ternura, para terminar com um plano médio dos dois em volta da árvore. A cena é interrompida por um corte abrupto, que mostra a chegada do enteado do antigo gerente ao quarto onde Luiz lê o diário.

A sequência é rica em recursos correntes no cinema narrativo. É um flashback, com uma decupagem característica e Mauro o  usa de maneira particular, na medida em que faz com que o recurso promova uma aceleração da narrativa. Em vez de um retorno ao ponto de partida, o que daria uma sensação de lentidão da história, há um avanço, já que o enteado aparece revigorado da surra que leva para despertar Luiz. Quando este, em sua recordação, tenta puxar a moça para trás da árvore, o enteado bate à porta e o traz de volta ao presente, mas esse momento não é o ponto em que Luiz abre o diário. Conclui-se que, entre a sequência da humilhação do empregado por Pedro Bento e o despertar de Luiz, se passa toda uma noite.

A figura do enteado é o dado que informa sobre a passagem do tempo, e ainda contribui para o delineamento do estilo de Mauro. Além do domínio narrativo, o cineasta se caracteriza pela maneira orgânica com que articula e enfoca tipos humanos e sua paisagem. O personagem do enteado é o melhor exemplo da modalidade de realismo do cineasta. Sem autonomia, ele parece não estar em pé de igualdade com nenhum dos outros personagens. Ele é uma espécie de agregado, um tipo do Brasil tradicional que vive de favor no seio de uma família de posses, para quem presta diversos serviços.

Com Braza Dormida, fica evidente a proeminência de Mauro diante dos outros realizadores do período. Com esse filme, o cinema brasileiro alcança qualidades estéticas novas que supera o tatear de Segredo do Corcunda (filme rudimentar em sua frágil arquitetura e tradicional em sua ideologia), o conservadorismo ideológico disfarçado de esteticismo em São Paulo, a sinfonia da metrópole - por mais que alguns de seus letreiros, como no documentário, pretendam imprimir um dinamismo ausente da imagem -, e se equipara ao domínio narrativo de Fragmentos da Vida e Barro Humano. No entanto, é mais rico na medida em que apresenta um estilo original, que não se contenta com o domínio de uma fórmula.

No que se refere à parte técnica, o salto qualitativo se deve a Edgar Brasil, o grande fotógrafo do cinema brasileiro, e à manipulação dos negativos feita por Paolo Benedetti. No lançamento, o filme tem uma publicidade inédita para uma produção brasileira. Humberto Mauro amplia seu contato com Adhemar Gonzaga, o diretor de Cinearte. As boas relações de Gonzaga com seus distribuidores permite um contrato da Phebo com a Universal Pictures do Brasil. Braza Dormida fica em cartaz no Pathé-Palace, no Rio de Janeiro, durante uma semana inteira e depois é exibido no Ideal, na Rua da Carioca, para em seguida percorrer o circuito da Universal.

Em São Paulo, o filme consegue a proeza de ser exibido em mais de 15 salas somente no mês de abril. No mês seguinte, é a vez de Minas Gerais, primeiro em quatro salas de Belo Horizonte e depois por todo o interior, até chegar a Cataguases. O filme também é exibido em Porto Alegre e Curitiba. Sucesso de público, mas fracasso de crítica. Poucos são os textos e, apesar do tom indulgente de alguns, Braza Dormida é muito atacado. Pedro Lima lamenta a falta de direção dos atores, suas vestimentas e a cenografia. Para o crítico de Cinearte, seria fundamental que o filme tivesse ambientes luxuosos com pessoas de alto nível social. Já para Paulo Duarte, o Saulo do Diário Nacional, "Braza Dormida é uma fita detestável. Enredo simplesmente bobo. Um dos personagens é maluco pela certa. Passa os oito atos a dar pancada no enteado porque este é um inveterado seresteiro. Fotografia péssima. O 'palacete luxuoso' não tem luxo algum e é de um rastaquerismo bravo". O crítico e cineasta Canuto Mendes de Almeida também reforça o coro e desqualifica o roteiro. Voz quase isolada, Octavio de Faria, o crítico e teórico do Chaplin-Club, louva Braza Dormida e ressalta as qualidades do roteiro e da direção.

Braza Dormida é distribuído pela Universal Pictures do Brasil, que promove algumas alterações na montagem, uns poucos cortes e novos letreiros. Três meses depois Mauro reconstrói o filme em busca da retomada do projeto original. Em 1947, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince), em que Mauro trabalha como diretor técnico a partir de 1936, obtém uma cópia com um curioso adendo no título: Flagrantes da Vida Mineira. É desta que deriva a versão em 16mm que serve de base para a restauração da Cinemateca Brasileira, em 2008, que recupera alguns letreiros e a cor de algumas sequências.

Notas

1.Paulo Emílio Salles Gomes pesquisa em profundidade a carreira de Humberto Mauro em Cataguases. O verbete segue de perto suas interpretações de Braza Dormida. Cf. GOMES, Paulo Emílio Salles. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo: Perspectiva, 1974.
2. LIMA, Pedro. Braza Dormida. Cinearte, 17 jul.1929. p. 4

Ficha Técnica da obra Braza Dormida:

Fontes de pesquisa (19)

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  • LIMA, Pedro. Braza Dormida. Cinearte, 17 jul. 1929. p.4.
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Como citar?

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  • BRAZA Dormida. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67271/braza-dormida>. Acesso em: 13 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7