Artigo da seção obras Hércules 56

Hércules 56

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoHércules 56: 2006

Análise
Com direção de Silvio Da-Rin (1949), Hércules 56 é um documentário em torno de um dos episódios mais significativos da luta armada contra a ditadura militar instaurada no Brasil com o golpe de 01 de abril de 1964. No dia 4 de setembro de 1969, integrantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Dissidência da Guanabara (DI-GB) sequestram o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick com o objetivo de pressionar os militares a libertar 15 presos políticos e a ler, em rede nacional, um manifesto contra a ditadura. Apesar da censura do governo aos meios de comunicação, o sequestro, ocorrido durante os festejos da semana da independência, ganha repercussão internacional e termina, entre os dias 6 e 7 de setembro, com a libertação dos presos e sua extradição para o México, em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com o nome Hércules 56. Com imagens de arquivo e entrevistas com os principais envolvidos no episódio, a obra de Silvio Da-Rin  retrata o acontecimento concentrando-se no relato dos militantes que organizaram a ação e que dela se beneficiaram ao serem libertados. O filme também é uma resposta tanto ao romance O que É isso Companheiro? (1979), escrito por Fernando Gabeira (1941) sobre o episódio (e que não participa do documentário) como ao filme de mesmo nome, lançado em 1997, de Bruno Barreto (1955).

Em Hércules 56, convivem dois tempos históricos, aquele em torno de 1968 e 1969, em páginas de jornais, fotografias e imagens em movimento, e o contemporâneo, registro do documentarista no qual os militantes procuram avaliar o que significou para eles e para o Brasil o sequestro do embaixador. No filme, essas temporalidades são intercaladas: resgatar as imagens de arquivo  objetiva evocar a memória audiovisual do episódio para melhor conhecê-lo hoje, em seus detalhes e contradições. O recurso utilizado por Silvio Da-Rin é próximo daquele empregado pelos diretores Renato Terra e Ricardo Calil  no documentário Uma Noite em 67 (2010), sobre a final do 3º Festival de Música Popular Brasileira, produzido pela TV Record: retomar fragmentos do passado permite situar o espectador em relação aos acontecimentos, ao mesmo tempo em que desperta nos envolvidos o desejo de comentar criticamente, e em detalhes, um processo do qual foram protagonistas. Em Hércules 56, é esse um dos dispositivos em funcionamento para repensar a história. No início do filme, logo após os créditos de abertura, parte dos presos políticos libertos, dentre eles Mario Zanconato, Maria Augusta Carneiro e José Dirceu, têm suas reações filmadas ao se depararem com imagens de 1969 em um televisor. O documentário introduz, por metalinguagem, um dos modos como pretende abordar a questão do sequestro: após a surpresa por uma lembrança evocada, os militantes podem dirigir-se à câmera para relatar o evento.

Este relato, um confronto inevitável com o passado, é dividido em dois momentos. De um lado, dentro de uma espécie de estúdio que simula um bar, encontram-se reunidos, em volta de uma mesa, os responsáveis por articular o sequestro do embaixador. Neste estúdio, com iluminação propositalmente anti-realista, monta-se um espaço para que Cláudio Torres, Daniel Aarão Reis, Franklin Martins, Manoel Cyrillo e Paulo de Tarso Venceslau reflitam, em grupo, sobre o sentido da ação política que realizaram em 1969. Instigados pela lembrança e pelas questões levantadas por Silvio Da-Rin, que participa da mesa, eles recontam o processo do sequestro - de sua preparação ao término - e debatem uma série de questões fundamentais para a melhor compreensão do episódio. As informações, ricas em detalhes, surgem da memória oral: relatam que a ação nasceu do desejo de libertar o ex-presidente da UNE, Vladimir Palmeira; que a lista dos presos políticos a serem trocados pelo embaixador foi  elaborada de modo a incluir representantes de diversos grupos da esquerda; e comentam como a leitura em rede nacional do manifesto por eles escrito foi fundamental para desmascarar a ditadura naquele momento.

O que também emerge dessa conversa é a diversidade de opiniões quando os militantes passam a avaliar o significado da ação para a história política do Brasil. Ao reunir os articuladores do sequestro, cada um com diferentes percepções críticas e afetivas do episódio, Silvio Da-Rin desfaz uma visão homogênea em torno da luta armada contra a ditadura. Com o cuidado de não reproduzir uma leitura simplista da guerrilha, seja pelo viés heróico ou vilanesco, o documentário permite confrontar as profundas contradições do processo. É justamente o que acontece em um dos últimos debates no estúdio. Não há consenso sobre o impacto positivo do sequestro para a sociedade brasileira: enquanto Manoel Cyrillo  o considera uma das "respostas mais importantes que nós, o povo, já deram às arbitrariedades do que o Estado americano representa"; Daniel Aarão Reis contesta, afirmando que a luta armada não tinha sustentação popular; Paulo de Tarso Venceslau sugere que talvez o melhor fosse que a ação tivesse dado errado, pois a ditadura militar  intensificou a repressão à esquerda após o episódio; e Franklin Martins destaca que, apesar dos erros, a guerrilha foi um movimento fundamental de resistência à ditadura. Presentes em cena, as divergências relembram que a representação da história não é linear ou homogênea, mas um processo complexo, social, em parte mediado pela memória particular de seus agentes.

Esta questão, percebida pelo crítico Cléber Eduardo no texto "A história atualizada por indivíduos", publicado na revista eletrônica Cinética, é também o aspecto predominante dos depoimentos concedidos por aqueles que foram libertados em decorrência do sequestro. Diferentemente daqueles que são filmados em grupo, no estúdio, ex-militantes como José Ibrahin, Ricardo Zarattini, José Dirceu e Vladimir Palmeira falam sozinhos para a câmera e dão seus depoimentos nos espaços privados em que vivem ou trabalham. A estratégia utilizada por Silvio Da-Rin para o registro dos presos políticos libertos, cujas entrevistas são intercaladas com imagens de arquivo, parece estimulá-los a observar o episódio do sequestro não apenas do ponto de vista social e político, mas também do afetivo.  A riqueza documental nas imagens de 1969, em especial no registro dos ex-militantes chegando ao México após a extradição, ganha um outro sentido, mais particular, quando complementada pelas falas emocionadas dos depoentes. É como o caso de Flávio Tavares que, ao contar pormenores do momento em que se encontrava no interior do avião Hércules 56, relata a tensão de ver o comunista Gregório Bezerra dar ordens a um cabo da aeronáutica para que afrouxe as suas algemas. Se a fotografia de treze (dos quinze) presos políticos na pista de voo é o retrato de um instante fundamental da história, são os relatos, o ponto de vista único de quem esteve envolvido no episódio, que permitem conhecer um lado até então reservado à memória pessoal.

No filme Hércules 56, a leitura da história se dá por esta articulação da memória oral com as imagens de arquivo, principalmente fotografias e registros televisivos. Mas é preciso levar em consideração, também, a  participação de Silvio Da-Rin e de sua equipe na representação em torno do sequestro do embaixador norte-americano. Se a montagem do documentário é a grande responsável por organizar os inúmeros depoimentos dos ex-militantes, de modo a  recompor a cronologia do sequestro, é também a partir da edição que as imagens de arquivo adquirem uma dramaticidade que  transmite a tensão vivida no Brasil de 1969, um dos anos mais violentos do regime militar. Em Hércules 56, a escolha não é apresentar o passado com neutralidade: ao longo do filme, a leitura dramatizada do manifesto redigido pelos idealizadores do sequestro e as imagens de arquivo acrescidas de uma sonoridade sombria definem uma opção estética para a leitura da história brasileira entre 1968 e 1969. O documentarista  interfere pouco nos depoimentos dos ex-militantes; seu trabalho encontra-se na forma como articula as técnicas cinematográficas para contribuir com a representação da história do país. Junto a outros documentários, como Que Bom te Ver Viva (1984), de Lúcia Murat (1949), e No Olho do Furacão (2003), de Toni Venturi (1955), o filme Hércules 56  dá a conhecer em mais detalhes os caminhos enfrentados por aqueles que viveram na clandestinidade durante o governo militar e optaram pela luta armada como forma de enfrentar o regime ditatorial.

Ficha Técnica da obra Hércules 56:

Fontes de pesquisa (8)

  • DA-RIN, Silvio. Espelho partido. São Paulo: Azougue Editorial, 2004.
  • GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. São Paulo: Ática, 1998.
  • CAETANO, Maria do Rosário. Entrevista: Silvio Da-Rin por uma renovação no audiovisual. Revista de cinema, v. 8, n. 83, dez. 2007, 26-29 p.
  • CORDEIRO, Veridiana Domingos. Hércules 56: uma análise do cinema documental e reflexões sobre a teoria social da memória coletiva. Primeiros estudos, n.1, 2011, p. 62-80.
  • DA-RIN, Silvio (org.). Hércules 56. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
  • EDUARDO, Cléber. A história atualizada por indivíduos. Revista Cinética. (Acesso em 7 nov. 2011). http://www.revistacinetica.com.br/hercules56.html
  • FERNANDES, Fernando Seliprandy. Imagens divergentes, "conciliação" histórica: memória, melodrama e documentário nos filmes O que é isso, companheiro? e Hércules 56. Dissertação de mestrado. História social/USP, São Paulo, 2012.
  • PULS, Mauricio. Filme reconstitui mais famosa ação da esquerda brasileira. Folha de S.Paulo, 11 mai. 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • HÉRCULES 56. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67267/hercules-56>. Acesso em: 22 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7