Artigo da seção obras Sargento Getúlio

Sargento Getúlio

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoSargento Getúlio: 1978 | Data de término da criação 1983
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Sargento Getúlio [cartaz] , ca. 1979 , Walter Garcia
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Análise

Sargento Getúlio, dirigido por Hermano Penna, é a versão cinematográfica do romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), publicado em 1971 e contemplado com o Prêmio Jabuti no ano seguinte. O filme nasce como parte de um projeto intitulado "Momentos da Moderna Literatura Brasileira", que consiste em fazer, com modestos recursos financeiros, adaptações cinematográficas de obras relevantes da literatura brasileira moderna para serem veiculadas na televisão. A produção é iniciada graças a um convênio entre a companhia produtora Blimp Filmes e a Embrafilme. Sargento Getúlio é filmado em 16mm, em locações no sertão e na zona litorânea do Sergipe. A parceria com a tv se desfaz antes mesmo da conclusão do projeto. O apoio da Embrafilme também se perde, e o material do filme fica cinco anos aguardando a possibilidade de ser ampliado para 35mm e ser finalizado, o que ocorre, em 1983, ano que ganha os principais prêmios do Festival de Gramado e estreia em circuito comercial.

A ação se passa nos anos 1940, e sugere o contexto da ditadura do Estado Novo (1937 - 1945) de Getulio Vargas. Quem interpreta o personagem-título é Lima Duarte (1930), em uma das performances mais elogiadas de sua carreira. O sargento Getúlio é um jagunço militar que, em companhia de seu motorista e fiel escudeiro Amaro (Orlando Vieira), vai de Paulo Afonso (BA) a Aracaju (SE) transportando um preso que é inimigo político de seu chefe. No meio da missão, contudo, a situação política na capital sergipana se inverte, e Getúlio recebe uma nova ordem: libertar o prisioneiro. Como não recebe essa ordem diretamente do chefe, e sim através de outras pessoas que vêm dar o recado, para ele a missão original continua existindo e deve ser cumprida. Nada pode dissuadi-lo de levar o preso até Aracaju. O espectador está sempre colocado junto ao personagem de Lima Duarte, de modo que as transformações ocorridas na capital, as reviravoltas do poder, nada mais são que notícias trazidas por mensageiros, ou mesmo propagadas pelo vento. O que há de visível são as situações enfrentadas por Getúlio e Amaro. Essa escolha de ponto de vista se desdobra na criação de uma atmosfera interior para o drama. As ações de Getúlio são irredutíveis, peremptórias, mas sua expressão por vezes revela dúvida e tormento. Por meio de um uso eficaz da voz off, o conflito do personagem ganha forma em monólogos interiores. Estabelece-se uma dialética entre as ações incontornáveis de Getúlio e seus pensamentos. A sequência em que ele e Amaro buscam refúgio temporário numa igreja, é um exemplo disto, destacando o confronto com o padre que os recebe de espingarda na mão. Os efeitos de iluminação da cena noturna em que eles chegam à igreja são carregados de dramaticidade, opondo densas zonas de sombra a áreas de luz. Na cena, o filme mergulha na subjetividade tempestuosa do personagem, equilibrando o estilo barroco da composição plástica das imagens com um ritmo de montagem e de encenação inteiramente parcimonioso e sóbrio. Os diálogos da cena também são cruciais para questionar moralmente as ações que se desenrolam. Através de argumentos pragmáticos e objetivos, o padre expõe a dura moral de uma sociedade dominada pela brutalidade e termina por contestar as atitudes de Getúlio, que numa cena anterior, das mais impressionantes do filme, decapitara um oficial com quem havia duelado

Um dos aspectos mais complexos do filme é conseguir criar uma empatia, que a princípio parecia impossível, entre o espectador e o Sargento Getúlio, sem deixar de manter sobre ele um olhar crítico. Em parte, a empatia se deve ao humor de suas falas pitorescas, "enciclopédia do pensamento inconsciente do homem sertanejo", segundo o diretor Hermano Penna1. A própria violência de Getúlio se torna um fator de atração para o personagem. Grosseiro, agressivo ao extremo, teimoso, intransigente, um reservatório de valores rústicos e primitivos, o sargento se mostra, todavia, profundamente leal a seu companheiro Amaro e a seus preceitos éticos. Aprove-se ou não suas atitudes, a moral do personagem em nenhum momento se corrompe em nome de artimanhas políticas. "Sua obstinação delirante repousa na lealdade, na palavra empenhada, tão comum no universo sertanejo"2. Em face da dissolução de uma antiga ordem e da inconsistência de uma nova, Getúlio se torna um personagem errante, anacrônico, desajustado, ameaçado pelo desequilíbrio. Num diálogo com sua namorada, já na segunda metade do filme, ele afirma que costumava odiar os cangaceiros, porém agora não mais. Ao refutar a ordem de liberar o prisioneiro, Getúlio se insurge contra a política oficial. Ele se coloca na mesma situação dos cangaceiros, para os quais a ordem institucional não corresponde à verdade a ser seguida, e esta deve ser buscada em outro lugar. No caso de Getúlio, esse lugar é sua consciência mesma - ou sua inconsciência, como sugere Penna. Quase tão importante quanto o trabalho de Lima Duarte é o de Orlando Vieira: seu personagem, Amaro, é de interpretação serena; basta sua simples presença em quadro para que todo um mundo e todo um imaginário estejam ali não apenas evocados, mas concretamente atuantes.

Sargento Getúlio se destaca pelo admirável equilíbrio entre os recursos disponíveis e o resultado estético alcançado. A fotografia de Walter Carvalho explora ao máximo as possibilidades do 16mm: granulação da imagem, cores saturadas, constante movimentação (uso intenso de câmera na mão). A câmera não se limita a documentar a ação criada pelos atores, pois contribui para a dramaticidade através de sua instabilidade, suas panorâmicas de um rosto a outro, a materialidade que confere aos corpos e aos espaços entre os corpos. A terra do sertão, a pele e a farda do sargento Getúlio parecem convergir para uma mesma cor, reforçando a evidência sensível de seu pertencimento àquele espaço, e sugerindo inclusive um enraizamento determinista de suas ações no terreno em que elas se desenvolvem. Entre o personagem e o espaço há uma ligação vital inextricável. A aspereza das imagens reenvia o drama à aridez do sertão.

Walter Carvalho e Hermano Penna aportam à matéria dramática do filme um repertório estilístico variado. Em certos momentos, os personagens estão nas bordas do quadro, e a região central do plano se acha esvaziada da figura humana e ocupada por uma parte neutra do cenário. Isto reforça, mais uma vez, a natureza do drama de Sargento Getúlio, construído por vazios internos e externos à imagem. A ausência da figura humana no centro do quadro, nessa estratégia de descentralização, aponta para uma composição centrípeta da imagem, com a atração dos personagens pelas bordas do quadro. Outro traço estilístico marcante são os planos filmados do ponto de vista dos oponentes ou interlocutores de Getúlio. Na cena do duelo, por exemplo, a câmera assume por vezes a posição de seu adversário, encontrando o ponto de vista mais apropriado para captar o olhar feroz e bestial do personagem de Lima Duarte. Em outros momentos, dialoga-se olhando para a câmera, o que cria uma ideia de que toda a narrativa, mesmo em seus aspectos duais, desemboca num monólogo ininterrupto ou num fluxo de consciência de Getúlio.  

O filme é a grande sensação do Festival de Gramado de 1983 e ganha diversos prêmios, incluindo os de melhor filme, melhor ator (Lima Duarte) e melhor ator coadjuvante (Orlando Vieira). A recepção da crítica é bastante favorável ao filme.  Em Jornal do Comércio, o crítico Roberto M. Moura escreve que Penna "acertou ao dirigir o filme com profundo respeito por aquele sentimento nacional, típico e arquetípico, que confere grandeza e identidade às obras de arte"3. Em hipótese controversa porém digna de nota, Júlio César Lobo enxerga no filme uma retomada do Nordeste enquanto palco privilegiado para se encenar uma condensação histórica do Brasil: "Sargento Getúlio retoma, no cinema brasileiro, a temática do Nordeste, que, se foi bastante valorizada nos tempos do Cinema Novo - onde o Nordeste era o gancho para se repensar o país inteiro -, ficou ao largo das telas depois que inventaram um tal de 'milagre econômico' e todo mundo passou a ter, no Brasil, vergonha de ser 'subdesenvolvido'"4.  O crítico Orlando L. Fassoni, além de publicar uma crítica positiva na Folha de S. Paulo, quando do lançamento comercial de Sargento Getúlio, escreve ainda um artigo comparando o filme à obra literária que lhe deu origem. Ele afirma que o filme "tem o cheiro da epopeia, o que Hermano Penna consegue porque, fiel ao romance, teve sensibilidade para organizar a caótica - no bom termo - estrutura narrativa do romance, construído quase em forma de um longo monólogo só rompido nos momentos [em que] Getúlio conversa com Amaro. [...] não se busca, nem na literatura nem no filme, a intenção de se fixar sobre um determinado tema, e sim sobre as contradições de um personagem cuja grandeza está nos sentimentos e não na ação"5.  

Notas

1 FASSONI, Orlando L."Narrativa épica de um homem leal". In: Folha de S. Paulo,  24 de fevereiro de 1981.
2 Idem.
3 MOURA, Roberto M., "Sargento Getúlio". In: Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 29 de maio de 1983.
4 LOBO, Júlio César, "Sargento Getúlio ou a metafísica da caatinga". In A Tarde, Salvador, 26 de maio de 1986.
5 FASSOLINI, Orlando, "No cinema toda a grandeza de um romance". In Do Leitura, ano I, n. 11, São Paulo, abril de 1983.

Ficha Técnica da obra Sargento Getúlio:

  • Datas de criação da obra:
    • data de início: 1978  |  data de fim: 1983

Representação (1)

Midias (1)

Sargento Getúlio (1971)
Direção: Hermanno Penna Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (14)

  • A jornada alucinada do Sargento Getúlio. Cinemin, v. 1, n. 5, pp. 10-11, junho/julho de 1983.
  • CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL. Lima Duarte: profissão ator. Curadoria Amilton Pinheiro; incl. textos de Leon Cakoff e outros. Rio de Janeiro, 2
  • DUPONT, Wladir. Sargento Getúlio - Retrato fiel do Brasil. Do Leitura, ano I, n. 11, São Paulo, abril de 1983.
  • FASSONI, Orlando. Narrativa épica de um homem leal. Folha de S.Paulo. 24 fev.1981.
  • FASSONI, Orlando. No cinema toda a grandeza de um romance, Do Leitura, ano I, n. 11, São Paulo, abril de 1983.
  • FILHO, Expedito. Hermano Penna dá a volta por cima. Jornal de Brasília, 9 de outubro de 1983.
  • GUERRA, Flávia. O longo caminho de Sargento Getúlio, o filme. Programadora Brasil, n. 2, pp. 26-29, abril de 2008.
  • HOLDFELDT, Antônio. Obra de João Ubaldo Ribeiro retrata luta de nosso povo. Correio do Povo, Porto Alegre, 27 de março de 1983.
  • LABAKI, Amir (org). O cinema brasileiro: de O Pagador de Promessas a Central do Brasil. São Paulo: Publifolha, 1998.
  • LOBO, Júlio César. Sargento Getúlio ou a metafísica da caatinga. A Tarde, Salvador, 26 de maio de 1986.
  • MOURA, Roberto M. Sargento Getúlio. Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 29 de maio de 1983.
  • MÜLLER, Regis. Filmes de transição. Correio do Povo, Porto Alegre, 26 de maio de 1983.
  • PENNA, Hermano. A garra atropela os erros. Correio Braziliense, 31 de março de 1984.
  • MEDINA, Cremilda de Araújo, Torturador e torturado convivem na mesma alma. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 29 mai. 1983.

Como citar?

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  • SARGENTO Getúlio. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67257/sargento-getulio>. Acesso em: 24 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7