Artigo da seção obras Todas as Mulheres do Mundo

Todas as Mulheres do Mundo

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoTodas as Mulheres do Mundo: 1966
Filme
Imagem representativa do artigo

Tôdas as Mulheres do Mundo [cartaz] , ca. 1966 , Jaguar
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Análise
Todas as Mulheres do Mundo é escrito e dirigido por Domingos Oliveira (1936) e traz no elenco Paulo José (1937) e Leila Diniz, além de Fauzi Arap (1938-2013) e jovens atrizes como Irma Alvarez, Isabel Ribeiro (1941-1990) e Joana Fomm. Conta com fotografia e câmera de Mário Carneiro (1930-2007). É o primeiro longa-metragem do diretor, sucesso de público e crítica à época de seu lançamento.

A história se passa no Rio de Janeiro contemporâneo às filmagens, entre jovens de classe média. Edu (Flávio Miggliaccio), solteiro convicto, encontra Paulo (Paulo José), seu antigo colega de farras, que lhe conta sua história com Maria Alice (Leila Diniz). Essa história se divide em seis partes: A conquista, Primeiras conseqüências, O bolo, A reconciliação, Outro bolo e Uma revelação. O filme abre com uma montagem em torno de uma narração em voz over do personagem Edu, que fala: "E a liberdade? O amor consome a liberdade. Castra a auto-iniciativa. Conduz à acomodação. Destrói a individualidade. Leva à fraqueza... Seja só. O homem mais forte é o mais só." Após ponderar sobre a impossibilidade de qualquer configuração amorosa, ele se pergunta:  "E mesmo que fosse possível o amor, como escolher a mulher? As mulheres são muitas! Todas de diferentes formas, tamanho, cor, personalidade. Impossível escolher. Impossível escolher. Impossível escolher. Impossível escolher".

Paulo e Maria Alice se conhecem numa festa de Natal. Paulo se sente imediatamente atraído por ela, mas ela tem um noivo, Leopoldo (Ivan de Albuquerque). Após alguma insistência de Paulo, ela resolve sair com ele e, pouco após seu primeiro encontro, Paulo começa a inventar desculpas para não mais ver suas antigas parceiras sexuais. Eles ficam juntos até o dia em que Maria Alice tem de ir a São Paulo visitar seu sobrinho e Paulo é convidado para uma festa só com mulheres. Ele termina por traí-la, e é flagrado por Maria Alice, que havia retornado mais cedo da viagem. Após um período separados, eles voltam a ficar juntos, mas repentinamente Leopoldo, ex-noivo de Maria Alice, morre. Ela fica muito abatida, mas decide reagir indo à praia, lugar que considera sua casa. No encontro de Paulo e Maria Alice na praia, eles resolvem ter filhos.

A personagem Maria Alice e a intérprete Leila Diniz possuem muitas semelhanças: a inspiração de Domingos de Oliveira na ex-mulher foi de tal grau que as duas, muitas vezes, se confundem. Luis Carlos Merten, em crítica no Diário de Notícias, define o longa-metragem como "uma declaração, ou um canto de amor a Leila. A mais terna, a mais radiosa, a mais fulgurante, a mais sublime jovem estrela do cinema brasileiro". Leila Diniz e Maria Alice são livres, sexuais, fiéis às suas paixões, intensas, solares. Ao fim do filme, Paulo fala que fazer amor com Maria Alice era "como dar uma volta ao mundo" e que "a alma dela era seu corpo".  O escritor e crítico literário Paulo Hecker Filho, em artigo no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, escreve "Com a liberdade sexual que as mulheres vão conquistando cada dia, já nos termos do homem em muitos meios, Licinha representa a mais auspiciosa afirmação, válida diante de toda a ficção, não só em cinema, da mulher atual ou futura.

A emancipação feminina é um tema subjacente ao filme, e questão relevante para a época. Na narração do início, Edu já expõe a questão: "Agora as mulheres resolveram ser independentes, o que complica as coisas de modo definitivo". Em certo momento, após receber uma crítica negativa de Maria Alice sobre seus escritos, Paulo fala: "mulher tem que ser burra". O que está implícito nessa fala é que a mulher dependente deve se comportar como burra, não expressar livremente suas opiniões; hipótese  impensável no caso de Leila Diniz/Maria Alice.  A diferença entre os sexos é explicitada nas teorias de uma das belas jovens que convivem com Paulo. Ela diz que o macho natural da mulher e a fêmea natural do homem foram extintos, e que, como resultado disto, "duas espécies essencialmente diferentes vivem numa simbiose anormal".

A habilidade de Mário Carneiro (1930-2007) como diretor de fotografia é uma das grandes qualidades do longa-metragem, que se impõe, em vários momentos, como um registro do cotidiano de uma geração. A montagem, feita por Raimundo Higino, João Ramiro Mello e Paulo Gracel, é ágil, cheia de cortes rápidos, e se utiliza por vezes do faux-raccord. O filme se utiliza ainda de recursos como o congelamento de imagens, a aceleração e desaceleração de movimentos (fast motion e slow motion), e o uso repetido de imagens em seqüências como, por exemplo, a da festa em que Paulo conhece Maria Alice e, também, a da festa final, com a casa repleta de crianças.  Há ainda, logo no início, um quebra das regras ilusionistas, com o ator Paulo José olhando diretamente a câmera. Esse modo moderno de construção da obra, que rompe com certas regras do cinema clássico, expressa na forma o conteúdo  da narrativa cinematográfica: sua história sobre jovens que vivem um novo modo de se relacionar.

A recepção crítica variou entre o favorável e o entusiástico. Algo unânime é a comparação aos filmes da Nouvelle Vague francesa; elas apontavam os diretores Jean-Luc Godard, François Truffaut, Phillippe de Broca e Richard Lester, diretor dos filmes dos Beatles, como influências diretas. Ely Azeredo, um dos críticos a elogiar o filme, entre outros aspectos, pela sua capacidade de dialogar com o cinema europeu moderno, observa que Domingos de Oliveira se coloca, já em seu primeiro filme, entre os cineastas brasileiros que "conseguem movimentar personagens legítimos, com os quais nos comunicamos com facilidade, e cujas reações podemos indetificar com as nossas, com freqüência ou em determinados momentos, pelo menos. Mas o grande êxito do cineasta, sem dúvida, é o retrato de Maria Alice, a protagonista" Ismail Xavier (1947), em crítica da época, define o longa-metragem como "uma comédia dinâmica, de ritmo fluente, cinematográfica. Onde o humor inteligente e refinado se alicerça na imagem, na mise-en-scène e na montagem. Onde os diálogos e o restante da trilha sonora se encaixam perfeitamente na ação." E elege Todas as Mulheres do Mundo "a melhor comédia até hoje realizada no Brasil".

Luis Carlos Merten, à época do lançamento do filme, escreve que o longa-metragem possui "uma rara e grande virtude: a sinceridade de Domingos de Oliveira", e que nele o diretor "procurar colocar, com sinceridade e paixão acima de tudo, uma verdade pessoal". A câmera solta e a naturalidade das interpretações dão ao filme um certo ar de improviso que se assemelha ao documental: Merten faz esse comentário em sua crítica, chamando-o de "primeiro (e único) documentário apresentado pelo nosso cinema sobre o homem moderno carioca". Em seu elogio ao filme, Paulo Hecker Filho vai ao extremo: chama-o do "único filme nacional de ficção que se pode considerar realizado" e Leila Diniz de "o primeiro intérprete integral que surge em nosso cinema".

A posição do longa-metragem em meio aos seus contemporâneos do Cinema Novo era a de adesão apenas parcial aos preceitos, já que o seu tema passava ao largo das questões políticas. Sobre isso, Ismail Xavier (1947) afirma em 1967: "Sem corresponder aos postulados básicos do cinema novo, sem constituir o tipo de cinema característico deste movimento no tocante à preocupação temática, vem sofrer indiretamente os seus reflexos".  Para Paulo Hecker, este traço é uma qualidade: "O cinema novo tem sido prejudicado quase sempre pela auto-imposição moral de seus autores de selecionar ideológica, teoricamente seus temas, sem ter com eles aquela aderência íntima que é condição da arte".

Venceu os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor argumento, melhor diálogo, melhor ator, melhor produtor, e menção honrosa para Leila Diniz no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (na época, chamado de Semana do Cinema Brasileiro), de 1966.

Ficha Técnica da obra Todas as Mulheres do Mundo:

Representação (1)

Fontes de pesquisa (9)

  • AZEREDO, ELY .Todas as mulheres do mundo. In: Jornal do Brasil. 1967.
  • AZEREDO, ELY. Olhar Crítico: 50 anos de cinema brasileiro. São Paulo, Instituto Moreira Salles, 2009.
  • CASTRO, RUY. Uma fábula amoral da Belle Époque: Todas as mulheres do mundo (18-05-2002). In Heloisa Seixas (org.)  Ruy Castro, um filme é para sempre: 60 artigos sobre cinema. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.
  • GOLDENBERG, Mirian. Toda Mulher é Meio Leila Diniz. São Paulo: BestBolso, 2008.
  • HECKER FILHO, P. Um filme, um tema, uma atriz. Suplemento Literário do jornal O Estado de S.Paulo. São Paulo, 16 mar. 1968.
  • LACERDA, Luiz Carlos. Leila Diniz. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010
  • MERTEN, L. C. Um Sonho de Cinema. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura: EDUNISC, 2004. Pp 34 - 37.
  • SANTOS, J. F. Leila Diniz: Uma Revolução na Praia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
  • XAVIER, I. Todas as mulheres do mundo. In: Artes, v. 2, n. 10, ago.-set. 1967.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TODAS as Mulheres do Mundo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67253/todas-as-mulheres-do-mundo>. Acesso em: 14 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7