Artigo da seção obras Ao Redor do Brasil

Ao Redor do Brasil

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoAo Redor do Brasil: 1932
Filme

Histórico
Ao Redor do Brasil é dirigido por Luiz Thomaz Reis (1878 - 1940). Documentário silencioso que reúne os principais registros do major Thomaz Reis em suas incursões pelo interior das Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil, entre 1924 e 1930, acompanhando diferentes episódios do projeto militar-científico-civilizatório conhecido como Comissão Rondon. O projeto, embasado no ideário positivista e nacionalista, corresponde ao grande esforço que a nascente república brasileira empreende para a ocupação das mais distantes fronteiras nacionais e agilizar a integração das tribos indígenas de regiões remotas. Cândido Mariano da Silva Rondon (1865 - 1958) é a figura central do projeto, e entre suas atribuições estão a Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, o estabelecimento e a coordenação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e a Inspetoria de Fronteiras. As linhas telegráficas são consideradas "um instrumento geopolítico de fixação, integração e colonização do território nacional herdado do império".¹ As missões da comissão incluem o "levantamento cartográfico de grande parte do sertão brasileiro, a descrição fisiográfica e demográfica de áreas indígenas, e a coleta de dados linguísticos, antropométricos e etnográficos em geral".²

Rondon vê no cinema uma eficaz ferramenta de comunicação e convencimento da opinião pública, utilizando-o para divulgar as missões e garantir os meios materiais necessários a sua continuidade. Para tal, precisa de um aliado forte, que não apenas seja bom cinegrafista, mas que se adapte aos percalços da vida na selva. Reis torna-se essa pessoa. Ligado à Comissão de Linhas Telegráficas desde 1910, é nomeado chefe, em 1914, da Seção de Fotografia e Cinematografia da representação.

Ao Redor do Brasil mostra a comissão mapeando vastas regiões desconhecidas do país. No caminho, visita diversas tribos indígenas, algumas a travar o primeiro contato com o homem branco. Passa também por vilarejos, cidades, por uma fortificação antiga do século XVIII e uma fábrica da Ford às margens do Rio Tapajós ("a 120 km de Santarém", como informa uma cartela de intertítulo). O filme constitui, com No Paiz das Amazonas (1922) e No Rastro do Eldorado (1925), ambos de Silvino Santos (1886-1970), o mais típico exemplar das fitas de expedição na região amazônica realizadas em notável quantidade entre meados dos anos 1910 e começo dos 1930.

As imagens de Ao Redor do Brasil trabalham "temas" como aspectos naturais das regiões visitadas (fauna, vegetação, topografia), aspectos socioeconômicos (pesca, extrativismo vegetal e mineral, costura artesanal na fronteira com a Venezuela, focos de industrialização, comércio de cacau, castanha e borracha na região do Rio Tocantins etc.), aspectos políticos e históricos (discurso sobre a integração pacífica das aldeias "primitivas", visitas a sítios históricos e corporações - Exército no Acre, por exemplo - que recebem cordialmente o inspetor de fronteiras), aspectos culturais e etnográficos das tribos indígenas abordadas (exibição dos rituais e estudo das características anatômicas dos índios). 

O primeiro episódio marcante de Ao Redor do Brasil se dá no começo do filme: a travessia do Rio Ronuro, afluente do Xingu. A narrativa busca, embora timidamente, instalar um clima de aventura nos momentos tensos da travessia. A tarefa de prender a atenção do público e fasciná-lo com o teor exótico e aventureiro das imagens está entre as principais preocupações de Reis, como se pode ler neste trecho de um relatório seu sobre a expedição de 1924 ao Rio Ronuro: "Vendo que não conseguiria resultado algum das minhas esperas na proa da canoa, limitei-me a tomar aspectos da viagem. Mas isso não poderia encher um programa, pois estes eram mais ou menos parecidos e a repetição indefinida produziria efeito enfadonho".³ Tal preocupação o leva a buscar o inusitado e pesquisar formas de filmagem capazes de tornar a ação enfocada atraente ao olhar. Quando a expedição corta a floresta rio adentro, por exemplo, a câmera está posicionada na proa de uma das canoas, e o efeito de movimento obtido, assim como a qualidade da composição que acentua a opulência da vegetação à volta, evidencia o apuro estético de Thomaz Reis.

Outro importante episódio de Ao Redor do Brasil é a visita ao forte do século XVIII, na fronteira com a Bolívia (o conjunto da fortificação se encontra em bom estado de preservação, enquanto as partes internas consistem em ruínas), e a escalada da pedra de Cucuhy, do alto da qual se pode ver boa parte da planície amazônica. A etnografia do filme destaca momentos em que rituais indígenas são observados e registrados, como na prolongada cena da dança "aruan" (em que só tomam parte os homens da tribo). Pontuando os episódios narrados, é um motivo recorrente a imagem de um grande mapa do Brasil, com alguém apontando os lugares em que o filme se passa, de modo a orientar didaticamente o espectador ao longo do percurso - que começa em Mato Grosso, sobe pelo Rio Tocantins e segue rumo ao noroeste até as fronteiras com a Bolívia, o Peru e a Venezuela, fixando imageticamente o território brasileiro, dado importante dentro do discurso nacionalista da época.

A montagem do filme não obedece a padrões narrativos rigorosos, mas coloca-se como algo mais que uma simples acumulação de registros. A lógica de agrupamento dos planos na montagem final, embora obedeça a uma demanda de criação de episódios e de construção de um fio narrativo, segue uma continuidade menos dramática do que temática e/ou geográfica.

A preocupação, por parte da comissão, com a antropometria e a compleição física dos povos indígenas demonstra que estes já são encarados como objetos privilegiados da ciência antropológica. Numa das cenas em que se explicita o caráter científico, um membro da comissão mede o corpo dos índios. A cena é introduzida por uma cartela que anuncia: "O trabalho de fixa anthropometrica". Em plano geral, um índio é filmado em pé ao lado de um estadiômetro (instrumento que mede a estatura das pessoas), enquanto um comissionado mede o diâmetro de sua cabeça com uma ferramenta antropométrica de menor porte. O procedimento se repete com outro índio, que, à semelhança do primeiro, aparenta timidez diante da câmera. O enquadramento é frontal e simples sem deixar de incluir, todavia, o tronco de uma árvore em paralelo à margem direita do quadro, denotando uma busca de equilíbrio na composição estética do plano. 

No nível prático da realização, uma das grandes dificuldades de Reis consiste na revelação in loco do material captado, já que seu equipamento inclui não só câmeras e negativo, mas também um completo laboratório fotográfico. As noites frias, com temperaturas abaixo de 10º C, e "a quantidade de insetos de pequeno talhe", que atacam a película e se grudam à gelatina, são alguns dos inconvenientes relatados pelo major.4

Como de praxe, a comissão exibe comercialmente os filmes realizados durante seus trabalhos  e Ao Redor do Brasil estreia nos cinemas. Sua publicidade vende a ideia de um Brasil "lendário e poético", "um desfile portentoso de florestas milenares". Algumas propagandas exploram o nudismo dos índios em tom de alerta, porém claramente querendo atrair o público para as sessões: "Aviso: Neste filme, alguns índios são vistos completamente nus, tal qual foram encontrados".5 Outras investem também no lado "interessante e educativo" da fita, sua qualidade de mostrar "belos exemplares de nossa fauna e flora" e "índios em estado primitivo".

O crítico Paulo Antonio Paranaguá (1948) aponta em Ao Redor do Brasil uma propaganda institucional da integração pacífica do índio ao mundo civilizado: "O letreiro se encarrega de sacar a moral: logo estes 'trabalhadores' se somarão ao 'convívio de nossa sociedade'. A palavra-chave é trabalhadores, que revela a ideologia subjacente de regeneração e integração mediante o trabalho".6 Já o pesquisador Samuel Paiva afirma que as imagens de Reis, ainda que indissociáveis dos ideais positivistas que orientam a Comissão Rondon, revelam "um cineasta de fato interessado no outro com todas as suas diferenças".7


Notas
1. DA-RIN, Sílvio. Luís Tomás Reis e Silvino Santos: imagens da Amazônia nas origens do cinema brasileiro. Disponível em: [http://www.telabrasilis.org.br/chdb_silvio.html]. Acesso em: set. 2009. (Texto originalmente publicado no livro-apostila do Curso de História do Documentário Brasileiro, realizado em 2006)
2. Idem.
3. CINEMATECA BRASILEIRA. III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. Apresentação de Carlos Roberto de Souza e outros; incl. textos de Caroline Patte e outros. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009. p. 28. 
4. Idem.
5. O Estado de S.Paulo, 3 de janeiro de 1933.
6. LABAKI, Amir. Introdução ao Documentário Brasileiro. Apresentação Ismail Xavier. São Paulo: Francis, 2006. p.28.
7. PAIVA, Samuel. Ao Redor do Brasil - cinema como apropriação. In: Socine - Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema. Estudos de cinema Socine VII. São Paulo: Annablume, 2006. p. 227

Ficha Técnica da obra Ao Redor do Brasil:

Fontes de pesquisa (10)

  • DA-RIN, Sílvio. Luís Tomás Reis e Silvino Santos: Imagens da Amazônia nas origens do cinema brasileiro. Disponível em: [http://www.telabrasilis.org.br/chdb_silvio.html]. Acesso em: set. 2009.
  • GAUDREAULT, André. Cinéma et attraction. Paris: CNRS Éditions, 2008.
  • HEFFNER, Hernani. Vagas Impressões de um Objeto Fantasmático. Associação Cultural Tela Brasilis. Disponível em: [http://www.telabrasilis.org.br/chdb_hernani.html]. Acessado em: set. 2009.
  • MACIEL, Laura Antunes. A Nação por um Fio. Caminhos, práticas e Imagens da 'Comissão Rondon'. São Paulo: Educ/FAPESP, 1998.
  • MAJOR LUIS THOMAS REIS. O Cinegrafista de Rondon. Rio de Janeiro: Depto. de documentação e divulgação da Embrafilme, 1982. 10 p. il. [Filmografia elaborada por Nelie Sá Pereira].
  • PAIVA, Samuel.  Ao Redor do Brasil: Cinema como apropriação. In: SOCINE - Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema. Estudos de Cinema Socine VII. São Paulo : Annablume, 2006.

     

  • REIS,  Luiz Thomaz. Trechos de relatórios. In: CINEMATECA BRASILEIRA. III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. Apresentação de Carlos Roberto de Souza e outros; incl. textos de Caroline Patte e outros. São Paulo : Imprensa Oficial, 2009. 88 p. il.

     

  • SOUZA, Carlos Roberto de. A Fascinante Aventura do Cinema Brasileiro. São Paulo: Fundação Cinemateca Brasileira, 1981. 106 p.
  • TACCA, Fernando de. A Imagética da Comissão Rondon. Campinas-SP: Papirus, 2001.

     

  • LABAKI, Amir. Introdução ao Documentário Brasileiro. Apresentação Ismail Xavier. São Paulo: Francis, 2006. 123 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AO Redor do Brasil. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67250/ao-redor-do-brasil>. Acesso em: 18 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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