Artigo da seção obras A Margem

A Margem

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoA Margem: 1967
Filme

Histórico

A Margem (1967), de Ozualdo Candeias, é realizado em um esquema de cooperativa, tendo por sócios iniciais Ozualdo Candeias e Michel Saddi, sociedade rompida durante as filmagens, sobrando nas mãos do cineasta paulista a tarefa de finalizar e lançar o filme. O orçamento é bastante limitado e os atores trabalham de graça, esperando pelo dinheiro que seria recebido com a exibição. Trata-se do primeiro longa-metragem de um cineasta já formado, com quinze anos de experiência no cinema e contatos cada vez mais estreitos com produtores, atores e técnicos da Boca do Lixo.

A margem trata da história de dois casais, que perambulam entre as margens do rio Tietê e o centro de São Paulo. Eles vagam a esmo, entre a vida e a morte, sustentando-se por meio da mendicância e da prostituição. Sua passagem pelos confins urbanos é observada por uma estranha mulher: ela dá início à história, com sua chegada em cima de uma barca, e a finaliza, retornando para levá-los depois de mortos, para um mundo melhor. Na primeira metade do filme, um homem desempregado e uma prostituta apaixonam-se. Sua relação é lúdica e grotesca, incluindo um casamento imaginado, às beira de uma favela, e também, o sexo sem pudor. O segundo casal é formado por um mendigo e uma copeira. Ele a persegue com seus galanteios circenses, tentando entregar-lhe uma flor. A paixão ingênua, porém, é rompida, quando o rapaz depara-se com o cadáver da amada, que havia sido morta num prostíbulo de periferia. A salvação de todos é figurada por um final apoteótico, com os personagens ressurretos, dentro de um barco, vagando em direção ao clarão do horizonte.

Em termos estéticos e da relação com o cinema do período, A Margem é uma obra marcada pela ambiguidade. A produção precária, a exclusão social dos personagens, o andar a esmo sem perspectivas, bem como o gosto pelo lixo e pelos espaços deteriorados, são pontos de aproximação com o cinema marginal paulista, consolidado na Boca do Lixo a partir de 1968. Num período de acirramento da repressão militar, o filme de Candeias tem um quê de transgressão, aproximando-se do gesto deste grupo de cineastas que se colocaria à margem, diante da impossibilidade de intervenção política no país. Por outro lado, o rigor formal, presente na montagem e na composição dos planos, atribui ao filme um traço poético, ou um espírito de redenção, incompatível com o universo violento da produção marginal. Tal ambiguidade é retomada por Fernão Ramos (1957), no livro Cinema marginal, e caracterizada como uma busca pelo “sublime” em meio ao “abjeto”. De acordo com ele, entre as várzeas repletas de lixo, onde habitam seressórdidos, o filme preocupa-se em mostrar a existência da pureza, presente nos gestos e olhares dos personagens. De fato, desde a primeira seqüência do filme, nota-se a construção da referida ambiguidade. Durante os quatro primeiros minutos, a chegada de uma embarcação é observada pelo quarteto de personagens, que se misturam à paisagem alagadiça e abandonada, às margens de um rio. Para lá de uma precária ponte de madeira, o movimento dos carros são os únicos vestígios da vida urbana. O contato entre os personagens, por sua vez, é pontuado pela troca de olhares. O primeiro movimento é retilíneo, visto de dentro da barca, que desliza em direção às margens do rio. Depois do primeiro contato visual, entre os personagens da várzea e a passageira da embarcação, o movimento retilíneo se dispersa. Forma-se então uma sucessão de planos, que articulam os pontos de vista dos diferentes protagonistas. A tensão é mantida, a partir dos olhares de surpresa em direção à câmera, e também, pelo ritmo damontagem. Este jogo tem algo de sublime e humanizante. Por meio dele, cria-se uma relação próxima e calorosa entre os personagens. Apesar dos dejetos e declives da paisagem, os espectadores são levados a flanar pelos confins da cidade. Eles compartilham os movimentos e olhares dos protagonistas, como se estivessem num sonho, onde a fascinação pelo fluxo, em termos mais amplos, associa-se à redenção prometida pelo final do filme.

A articulação de planos que correspondem aos pontos de vista dos personagens, dissonante em relação ao dito Cinema Marginal, possui pontos de contato com outra vertente do cinema paulista dos anos 1960. Em O Corpo Ardente (1966), de Walter Hugo Khouri (1929-2003), nota-se o uso do mesmo recurso, para a representação do marasmo e da falta de perspectivas, presente na vida conjugal de um casal da burguesia urbana. Numa festa ao som de jazz, o casal e seus amigos intelectuais reúnem-se numa mesa, para debater o quadro de um artista abstrato japonês, a partir de um palavreado intelectual e incompreensível. Durantea troca de olhares, a repetição enfática, de certos movimentos pendulares de câmera, reafirma o desencontro, dos personagens entre si e destes com o mundo. O recurso é retomado por Candeias, em 1967, de maneira invertida, para representar a compreensão humana, existente entre seres excluídos pela metrópole. A referência, nada ingênua, pode ser um acerto de contas do cineasta, com contatos estabelecidos no final dos anos 1950. Apesar de não fazer parte dos créditos iniciais, Maximo Barro (1930) influencia na montagem de A Margem e, provavelmente, colabora na construção da troca de olhares entre os personagens. As relações de Máximo com o cineasta remontam ao Seminário de Cinemado MASP, curso freqüentado por professores, técnicos, críticos e cineastas remanescentes das falidas Vera Cruz e Maristela.  A formação cinematográfica de Candeias, portanto, deu-se num ambiente de defesa de um cinema industrial, preocupado com grandes orçamentos, e certamente em sintonia com a tendência de Khouri. Ao unir referências ao futuro Cinema Marginal e a O Corpo Ardente, A Margem coloca-se como uma obra de passagem, de um cineasta que repensa suas referências cinematográficas.

Em seu lançamento comercial, A Margem fica apenas uma semana em cartaz, sendo considerado um fracasso de público. Apesar da recepção restrita por parte dos espectadores, trata-se da mais comentada das realizações do cineasta, aparecendo em críticas de jornais de S. Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Inspirada pelos comentários de Rubens Biáfora (1922-1996) no artigo “Um Pasolini brasileiro”, parte da crítica paulista, e também a carioca, usa o adjetivo “primitivista” para referir-se a Candeias e a sua obra. A tendência será pensar em no cineasta como um artista tardio, ingênuo e autodidata, que aprende a filmar de maneira milagrosa, e cuja técnica cinematográfica consiste em filmar a realidade  sem intervenções, por meio da intuição. Assim, sete meses antes da estréia de A Margem, Biáfora ressalta a simplicidade e a despretensão. Traços próprios aos “verdadeiros pintores ou artistas primitivos.”1 Carlos Maximiano Motta, por sua vez, vê A margem como a “obra de um instintivo, de um artista que quer criar em um nível de pureza e honestidade totais, sem qualquer malícia ou parti pris. [...] A fita transcende o próprio fenômeno da criação cinematográfica – como se a realidade se filmasse a si mesma a se desenvolvesse por um processo de geração espontânea.”2 Em sua crítica, Moniz Viana reafirma a mesma idéia, dizendo que “O milagre cinematográfico de Ozualdo Candeias, tão involuntário como a maioria dos milagres, consiste em dar a uma realidade social, um revestimento mitológico.”3 Tais argumentos, que omitem a complexidade formal de A Margem, vendo-o como o trabalho de um artista naif, são rearticulados pelo júri do Instituto Nacional do Cinema, para considerá-lo como o melhor filme de 1967. Além da melhor direção, lhe são atribuídos ainda os prêmios de melhor atriz coadjuvante (para Valéria Vidal), de melhor partitura musical (para Luiz Chaves) e o Prêmio Adicional de Qualidade.4 Tal premiação ofuscou a presença do filme Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha (1939-1981), que também estava no páreo aquele ano. De acordo com José Mário Ortiz Ramos5, A Margem ganha destaque, exatamente pelo embaraço causado a Glauber. Cineasta visto com desprezo pela comissão do Instituto Nacional de Cinema (INC), em parte composta por inimigos declarados do Cinema Novo, e que defendiam um cinema pautado pelos moldes importados. Entre os componentes do Juri, encontravam-se os críticos acima citados: Antônio Moniz Vianna, Carlos Maximiano Motta e Rubem Biáfora  (1922-1996).

Notes

1BIÁFORA, Rubem. Um Pasolini Brasileiro. O Estado de S. Paulo, 5 fev. 1967.
2MOTTA, Carlos M. O filme é como os outros deveriam ser mas não são. O Estado de S. Paulo. 21 dez. 1967.
3VIANNA, Antônio Moniz. A margem. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 18 abr. 1968.
4 No Festival de Brasília, de 1967, recebe a menção honrosa de Melhor Música e Melhor Atriz (Valéria Vidal). Em São Paulo, ganhao Prêmio Governador do Estado, de melhor diretor, melhor atriz (Valéria Vidal), e melhor música.
5RAMOS, José Mário Ortiz. Cinema Estado e lutas culturais: anos 50/60/70. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1983. p.72.

Ficha Técnica da obra A Margem:

Midias (1)

A Margem (1967)
Direção: Ozualdo Candeias Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (51)

  •  CINEMA BRASILEIRO: novos filmes. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n. 6, ano I, set. 1967, p. 33.
  • A história de um filme pobre que de repente ganha cinco milhões de prêmio. O Estado de São Paulo, São Paulo, 1 mar. 1967.
  • A Margem: cinema nacional que não copia nem imita. Diário da Noite. São Paulo, 26 dez. 1967.  
  • A., F. À margem do ridículo um filme genial. UH-São Paulo. São Paulo, 19 dez. 1967.
  • ARAÚJO, Inácio. Em A margem, Candeias escapa das fórmulas do Cinema Novo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 5 ago. 1990.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Reflexões. In: PUPPO, E.; ALBUQUERQUE, H. C. (Org.). O. R. Candeias. São Paulo: CCBB, 2002. p.33.
  • BIÁFORA, Rubem. Fitas de Bergman, Khouri e Candeias. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5 fev. 1967.
  • BIÁFORA, Rubem. Um Pasolini Brasileiro. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5 fev. 1967.
  • BLANCO, Armindo. Amor com flor e algum salame. O Globo, Rio de Janeiro, 4 dez. 1967.
  • CAMARGO, Francisco. Candeias, o homem e sua margem. Estado do Paraná, Curitiba, 27 ago. 1967.
  • Candeias, um primitivo do cinema. O Globo. Rio de Janeiro, 8 mar. 1968.
  • Candeias, um primitivo do cinema. O Globo. Rio de Janeiro, 8 mar. 1968.
  • CARVALHAES, A. Khouri e Candeias. Diário de São Paulo, São Paulo, 22 dez. 1967.
  • Denis. Crítica de Denis Mattar, da escola superior de cinema São Luiz. A Gazeta, São Paulo, 20 dez 1967.
  • DURST, Walter G. Sobre Ozualdo Candeias e o filme Meu nome é Tonho. TV Cultura, São Paulo, 197-. Coleção Ozualdo Candeias – Biblioteca Paulo Emilio Sales Gomes, Cinemateca Brasileira.
  • FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Max Limonad/Embrafilme, 1986.
  • FERREIRA, Reynaldo. Cinema A margem. Correio brasiliense, Brasília, 1 dez. 1967.
  • FILHO, Rubens Ewald. Ozualdo Candeias - um autor, um artista. A Tribuna, Santos, 29 mar. 1968.
  • FONSECA, Carlos. Candeias, na estrada do cinema. Filme Cultura. Rio de Janeiro, n. 10, julho. 1968, pp. 20-27
  • FONSECA, Carlos. Candeias, na estrada do cinema. Filme Cultura. Rio de Janeiro, n. 10, julho. 1968, pp. 20-27
  • FRAGA, Ody. A margem. Programa Cinema/ Arte/ Cultura n. 12, TV Cultura, São Paulo, 198-. Biblioteca Paulo Emilio Sales Gomes, Cinemateca Brasileira.
  • FRAGA, Ody. Candeias o pioneiro. DO leitura, 1984. p.14.
  • GAMO, Alessandro C. Aves sem rumo: a transitoriedade no cinema de Ozualdo Candeias. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Instituto de Artes, Unicamp. Campinas, 2000.
  • INC DISTRIBUI os prêmios dos melhores filmes de 1967. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 mar. 1968.
  • IWERSEN, Sonia Regina. A margem, arte e morte na vida. Estado do Paraná, Curitiba, 13 jun. 1968.
  • JOSÉ, Angela. Cinema Marginal, a estética do grotesco e a globalização da miséria. ALCEU, v.8, n.15, p.155-163, julho-dezembro 2007. http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/Alceu_n15_Jose.pdf
  • JOSÉ, Angela. Cinema Marginal, a estética do grotesco e a globalização da miséria. ALCEU, v.8, n.15, p.155-163, julho-dezembro 2007. http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/Alceu_n15_Jose.pdf
  • LIMA, Antônio. O amor e a vida à margem do rio. Jornal da Tarde, São Paulo, 19 dez. 1967.
  • MACHADO JR., Rubens. Uma São Paulo de revestrés: Sobre a cosmologia varziana de Candeias, Significação, nº28. São Paulo: CEPPI, Anablume, CTR/ECA-USP, 2007.
  • Margem para muita polêmica. Folha da Tarde. São Paulo, 10 mai. 1968.
  • MOTTA, Carlos M. Filme é como os outros deveriam ser mas não são. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 dez. 1967.
  • PEREIRA, Miguel. Filme de Arte. O Globo, Rio de Janeiro, 29 nov. 1967.
  • POLÊMICA: veja esta fita brasileira tão controvertida. Folha da tarde, São Paulo, 10 mai. 1967. 
  • RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968/1973). São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • RAMOS, José Mario Ortiz. Cinema, Estado, e lutas culturais (anos 50/60/70). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
  • S., N. H. A margem. O jornal . Rio de Janeiro, 24 de abril de 1968.
  • SENADOR, Daniela Pinto A fabricação do mito A margem, de Ozualdo Candeias. In: MACHADO JR., R.; SOARES, R. de L.; ARAÚJO, L. C. de (Org.). Estudos de Cinema. São Paulo: Annablume; Socine, 2006 (Estudos de cinema – Socine, VII) pp.173-180. 
  • SENADOR, Daniela Pinto. A margem versus Terra em Transe: estudo sobre ascensão de Ozualdo Candeias no universo cinematográfico. Caligrama, São Paulo, v.1, n.3, setembro-dezembro. 2005. Disponível em: . Acessado: 5 de setembro  de 2011. 
  • SENADOR, Daniela Pinto. A margem: instrumento de combate ao cinema novo? Revista margem esquerda, n. 7, Boitempo, São Paulo, 2006.
  • SPENCER, George Bernad. Comentário à margem. Gazeta de S. Paulo, São Paulo, 3 jun. 1968.
  • Stam, Robert. “On the margins: brazilian avant-garde cinema”. In: Johnson, R.; Stam, R. Brazilian Cinema. N.Y.: Columbia Press, 1995. 
  • STAM, Robert; JOHNSON, Randal. Brazilian Cinema. New York: Columbia University Press, 1995.
  • TAMBELLINI, Flávio. Insurreição contra a derrota. Filme Cultura. Rio de Janeiro, nº 4, março /abril 1967, p. 2
  • TELES, Angela A. Ozualdo Candeias na Boca do Lixo – a estética da precariedade no cinema paulista. São Paulo: EDUC/Fapesp, 2012.
  • TELES, Angela A. São Paulo, entre o rural e o urbano. Urbana, Campinas, ano 2, n 2, 2007. Disponível em: http://www.ifch.unicamp.br/ciec/revista/artigos2/%5B05%5DURBANA2_TELES.pdf. Acessado: 8 de março de 2013.
  • TOLENTINO, C.; ALMEIDA NETO, A. R de. Mestre Candeias: o homem e seus filmes. Baleia na rede, Marília, v.1, n.4, 2007. Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/baleianarede/article/view/1401>. Acessado: 8 mar. 2013.
  • UCHÔA, Fábio R. El concepto benjaminiano de imagen dialéctica y el San Pablo de A margem. In: BUCHENHORST, R.; VEDDA, M. Oservaciones Urbanas: Walter Benjamin y las nuevas ciudades. Buenos Aires: Editorial Gorla, 2008. pp.161-173.
  • VIANA, Antônio M. A margem. Correio da manhã, Rio de Janeiro, 18 abr. 1968.
  • BERNARDET, Jean Claude. Cinema marginal? In: CENTRO Cultural Banco do Brasil. Cinema marginal e suas fronteiras: filmes produzidos nas décadas de 60 e 70. São Paulo, 2001.
  • XAVIER, I. O Cinema Marginal revisitado ou o avesso dos anos 80. In: PUPPO, E.; HADDAD, V. (Org.). Cinema Marginal e suas fronteiras. São Paulo: CCBB, 2001. pp. 21-23.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Margem. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67244/a-margem>. Acesso em: 15 de Ago. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7