Artigo da seção obras Os Anos JK: uma trajetória política

Os Anos JK: uma trajetória política

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoOs Anos JK: uma trajetória política: 1980
Filme
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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Histórico
Os Anos JK: uma trajetória política, com produção da Terra Filmes e distribuição da extinta Empresa Brasileira de Filmes S.A.(Embrafilme), é o primeiro longa-metragem dirigido por Silvio Tendler e trata da trajetória da vida pública e pessoal do ex-presidente Juscelino Kubitschek, falecido em 1976, em decorrência de um acidente de carro na Rodovia Dutra. O documentário é narrado por Othon Bastos, com texto de Cláudio Bojunga, que reorganiza e apresenta novas leituras a imagens de antigos cinejornais. O cineasta entrevista personalidades que conviveram com o estadista, caso do marechal Henrique Lott, dos políticos Juracy Magalhães e Tancredo Neves e do advogado Sindival Palmeira.

Da montagem desses depoimentos com as imagens de arquivo surge um quadro presente em filmes como Getúlio Vargas (1974), de Ana Carolina, e Revolução de 30 (1980), de Sylvio Back, todos claramente preocupados com o contexto em que são realizados. Entre 1976 e 1980, período de pesquisa e produção de Os Anos JK, o Brasil está sob a ditadura militar, marcada por um processo de gradual retorno ao sistema político democrático, com a organização da sociedade civil e movimentos a favor da anistia política aos exilados e as greves operárias no ABC paulista.

Ao fazer um documentário sobre Juscelino Kubitschek, afastado da política nacional pelos militares nos anos 1960, o interesse do cineasta não é simplesmente recuperar o percurso e os feitos do ex-presidente, analisando-os apenas em contextos originais, mas refletir sobre o passado recente do país para pensar os rumos do Brasil contemporâneo, o que se evidencia desde os planos iniciais do filme. Registros de arquivo de 1946 mostram homens públicos celebrando a Constituição promulgada após o fim do Estado Novo (1937-1945). Há a promessa de consolidar a democracia recém-instaurada, e a montagem destaca o líder do Partido Comunista Brasileiro, Luís Carlos Prestes. A multidão eufórica saúda o novo sistema governamental, numa imagem que Tendler incorpora para, por meio dessa referência histórica, transmitir uma mensagem de contestação e sugerir a tão desejada abertura democrática.

Esse mesmo procedimento, de mobilizar a experiência passada como reflexão para o presente, está na origem da construção de uma imagem positiva para Kubitschek. Ele é celebrado como homem sorridente e cordial, responsável por um projeto de modernização do país e político hábil capaz de conciliar, em sua gestão à frente do Poder Executivo, os interesses dos grupos políticos de direita e de esquerda, dos latifundiários e dos industriais associados ao capital estrangeiro. Entusiasta do desenvolvimento nacional, carismático e bem aceito pelas camadas populares, no filme, Kubitschek personifica o defensor dos ideais democráticos e liberais. Em contraponto ao regime militar em vigor, Tendler constrói um protagonista heroico que não pode desaparecer da curta memória brasileira, pois é exemplo de virtude a ser relembrado em meio à obscuridade ditatorial.

No artigo "Os anos JK: como fala a história?", publicado em dezembro de 1981 na revista Novos Estudos Cebrap, Jean-Claude Bernardet comenta esse procedimento. Para o crítico, Tendler opta por um modelo de interpretação do país com base em paralelismos comparativos, o que gera uma leitura da história brasileira a partir de jogos de oposição. Esse "princípio de organização" existente no filme "dispõe elementos em ecos positivos (JK) e ecos negativos (ditadura militar) [...] Por exemplo: JK pede ao Congresso autorização para processar um deputado, autorização negada, governo derrotado, JK respeita a decisão. O governo militar quer processar um deputado, é derrotado, o Congresso é fechado".

Paulo Sérgio Pinheiro, no texto "Cinema, historiografia e análise política", publicado na revista Filme Cultura, observa que a leitura da trajetória de Kubitschek é favorável ao ex-presidente porque Tendler privilegia a oposição entre democracia e ditadura: "A interpretação aparentemente se deixa contaminar pelo espírito daquela época, o ufanismo relido através do plano de metas, cinquenta anos em um [...] [seria] equivocado, como por vezes o filme tende a fazer, confundir essas artes [políticas] com o desempenho, com a intervenção de um governante democrático. [...] Foi justamente no governo [JK] que mais se aprofundou, num quadro populista, o uso da estrutura corporativista da legislação trabalhista e que se promoveu um estrito controle oficial sobre as organizações sindicais".1

Embora aponte que o governo Kubistchek tenha aumentado a dependência do Brasil em relação ao capitalismo estrangeiro, Pinheiro, tal como a crítica da imprensa da época, elogia Tendler pela realização de um documentário, o qual, além de animar o debate sobre os rumos da política nacional, se compromete com um posicionamento a favor da redemocratização do país. Na época do lançamento do filme, em agosto de 1980, a maior parte da crítica jornalística, mesmo aquela incomodada com o enaltecimento público e privado a Kubitschek, legitima a estratégia de retorno ao passado para propor uma intervenção crítica contra a ditadura militar. É essa união de esforços em torno de um processo de abertura política que repercute em inúmeros textos.

Orlando Fassoni, em "Anos JK, contribuição para o cinema e a história", crítica publicada na Folha de S.Paulo, em 23 de agosto de 1980, escreve como a escolha de Tendler em trazer à tona os acontecimentos históricos anteriores a 1964 é fundamental para recuperar a história nacional: em sua opinião, filmes como esse permitem lutar contra os aparatos ditatoriais de repressão que manipulam a memória dos brasileiros impondo o esquecimento de um breve período (entre 1946 e 1964) no qual se vive o sistema democrático. Esse assunto é debatido dentro do próprio documentário, quando são apresentadas as ações dos militares, cuja finalidade é afastar Kubitschek da vida pública e, consequentemente, forçar seu isolamento político.

Em outro texto publicado na revista Filme Cultura, também de agosto de 1980, intitulado "De Getúlio a Juscelino, o Brasil no cinema", Sérvulo Siqueira aproveita o debate sobre o resgate da história do Brasil para propor, como modelo governamental para a redemocratização, o estilo populista de JK, seu espírito de negociação e conciliação com as diferentes lideranças civis da sociedade. Vencedor do prêmio especial do júri e do prêmio de melhor montagem no Festival de Gramado de 1980, Os Anos JK inquieta não somente a crítica especializada em cinema, mas a intelectualidade que, no início dos anos 1980, se encontra engajada no processo de redefinição política do país.

Nota
1 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Cinema, historiografia e análise política. Filme Cultura, n. 38/39, ago.-nov. 1981.

Ficha Técnica da obra Os Anos JK: uma trajetória política:

  • Data de lançamento
    • 1980

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • OS Anos JK: uma trajetória política. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra66576/os-anos-jk-uma-trajetoria-politica>. Acesso em: 25 de Mar. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7