Artigo da seção obras São João Evangelista

São João Evangelista

Artigo da seção obras
Artes visuais  
Data de criaçãoSão João Evangelista: 1801 | Data de término da criação 1812 | Mestre Valentim
Escultura
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Registro fotográfico Romulo Fialdini

A imagem de São João Evangelista feita por Mestre Valentim (ca.1745-1813) para ocupar um dos nichos superiores da fachada da igreja Santa Cruz dos Militares, no Rio de Janeiro, é uma das suas obras-primas, prova do exímio trabalho como escultor e entalhador, e muitas vezes citada como exemplo da direção classicizante tomada por ele. A obra revela um estilo mais sóbrio, ligado ao modelo pombalino português, de simplificação das formas e abandono das volutas e rocalhas que marcam o barroco e o rococó, estilos predominantes no território brasileiro na época.

Destaca-se na representação do jovem imberbe, em tamanho equivalente ao de um homem real (a escultura mede 1,88 metro de altura), um movimento ondular de moderada intensidade, dado pela linha sinuosa do corpo e de seus trajes, que dão volume à figura. Apesar do sedutor jogo de curvas e contracurvas – evidente sobretudo no impressionante drapejado das vestes que Valentim consegue extrair do cedro –, a leveza dos movimentos e a delicadeza dos traços atribuídos à fisionomia do santo sugerem uma forte contenção e uma preocupação do artista-artesão com a busca do equilíbrio e da simetria.

Essa preocupação se reflete também na figura da águia – símbolo do santo –, aos pés da escultura. Com a postura altaneira, as asas levemente arqueadas e os pés firmemente apoiados no chão, a ave assume uma forma extremamente sintética, sem tornar-se veículo para expressão de emoções intensas nem servir de suporte para ornamentos e artifícios de sedução do olhar. O leve inclinar da cabeça em direção ao corpo do evangelista, aliado a um ligeiro afastamento do rapaz em direção ao pássaro, é suficiente para garantir coesão e leveza ao conjunto.

A cabeça e o joelho do evangelista, por sua vez, fazem uma leve curvatura para o lado esquerdo, enquanto o torso e os quadris parecem compensar o movimento, deslocando-se de forma sutil para o lado direito. Trata-se de um leve jogo de peso e contrapeso – o que na tradição se chama contraposto –, seguindo o modelo clássico notabilizado por Michelangelo Buonarroti (1475-1564) em seu David, construído no Renascimento. Ao mesmo tempo em que garante vivacidade ao santo, esse leve flexionar de joelhos e cabeça lhe dá movimentos harmônicos, em sintonia com a sutileza de seu rosto.

Percebe-se na fisionomia do evangelista uma retidão de traços, o nariz perfilado, as generosas ondas do cabelo. É notável o esforço em dar-lhe uma face elegante e delicada, a ponto de ser possível detectar certa indefinição de gênero, na presença de um ar feminino no rosto do rapaz que deixa de ser menino mas ainda não é homem. A opção por representar São João ainda jovem (segundo a crença, ele é o mais moço dos apóstolos, designado como o "apóstolo virgem" e o preferido de Jesus) segue a tradição da arte ocidental. No Oriente costuma-se figurá-lo como um velho, partido seguido por Donatello (ca.1386-1466) na Itália, em referência a sua longevidade, já que morre com mais de 90 anos.

São João forma conjunto com outra figura de cedro, representando outro evangelista, São Mateus. Originalmente são quatro esculturas, mas os outros dois, são Marcos e são Lucas, que completariam a fachada ocupando os nichos inferiores, não chegam a ser entalhados pelo mestre. A figura de São Mateus mostra um homem maduro, de barba e cabelos ondulados, e tem a seu lado, como símbolo, um menino, em referência a Jesus Cristo criança.

Colocados nos nichos superiores da fachada, os santos provavelmente convergem seus olhares estabelecendo nexo de relação com seu par e enfatizando a entrada central da igreja, também ela uma transição entre o clássico e o barroco, tendo como um de seus modelos a igreja romana do século XVI, Il Gesù.

Ambos ocupam por longo tempo seus nichos, até ser retirados no início do século XX para evitar que sofram mais estragos. A exposição ao tempo leva à perda dos braços das figuras. Em seu lugar são colocadas quatro esculturas de mármore, de autoria do acadêmico italiano Jean-Louis Despré. Hoje continuam juntos, no acervo do Museu Histórico Nacional (MHN), constituindo um valioso conjunto de referência sobre a produção artística colonial.

Quando Mestre Valentim entalha essas peças, em inícios do século XIX, já é uma das figuras de grande destaque na cena artística do vice-reino, mas muitas obras de sua autoria – tanto de caráter religioso como civil – acabam sendo destroçadas ou desvirtuadas por intervenções posteriores. Isso também ocorre com trabalhos vinculados de forma mais direta ao São João analisado aqui. Além dos santos da fachada, o mestre realiza as talhas internas da igreja situada na Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, que são destruídas num incêndio ocorrido na década de 1930.

Ficha Técnica da obra São João Evangelista:

Fontes de pesquisa (5)

  • BRÉSIL baroque, entre ciel et terre. Paris: Musée du Petit Palais, 1999. 518 p., il., color.
  • CARVALHO, Anna Maria Fausto Monteiro de. Mestre Valentim. São Paulo: Cosac & Naify, 1999. 122 p. , il. color. (Espaço da arte brasileira).
  • CONDURU, Roberto. Araras Gregas. 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume III, n. 2, abril de 2008. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/19e20/
  • O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. Curadoria Emanoel Araújo. São Paulo: Sesi, 1998. 405 p., il. color. Exposição realizada na Galeria de Arte do SESI, no período de 30 mar. a 3 ago. 1998.
  • OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 343 p., 221 il. p&b.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SÃO João Evangelista. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra65540/sao-joao-evangelista>. Acesso em: 22 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7