Artigo da seção obras Arrufos

Arrufos

Artigo da seção obras
Artes visuais  
Data de criaçãoArrufos: 1887 | Belmiro de Almeida
Pintura
Imagem representativa do artigo

Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Exposta pela primeira vez em 1885, premiada na Exposição Geral de Belas Artes de 1890 e, em seguida, adquirida pela Escola Nacional de Belas Artes (Enba), a tela Arrufos é uma das mais conhecidas realizações de Belmiro de Almeida (1858-1935). A cena doméstica é retratada segundo as convenções clássicas da pintura acadêmica do século XIX, que ele pratica na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba) e nas congêneres francesas: as linhas precisas e limpas do desenho combinam com o equilíbrio da composição, da distribuição dos elementos e do uso das cores. Em relação à temática tratada – um episódio prosaico e cotidiano –, o artista se afasta da dicção elevada das pinturas históricas dominantes na academia brasileira, dando continuidade aos temas urbanos e burgueses trabalhados por Rodolfo Amoedo (1857-1941). O interesse pela vida das cidades, pela transformação dos costumes na família e pelo lugar da mulher na sociedade é despertado pela literatura de Émile Zola (1840-1902) e Gustave Flaubert (1821-1880), da qual se aproxima no período francês. As figurações de Paris de Édouard Manet (1832-1883) e Edgar Degas (1834-1917) deixam também suas marcas no universo do pintor brasileiro. Ainda que a influência do naturalismo francês seja evidente na tela, nota-se um tom característico da pintura vitoriana inglesa, que visa à educação moral do público.1

Em Arrufos a forma clássica é empregada de modo apropriado para realçar o desentendimento do casal. A composição estrutura-se em duas partes nitidamente delimitadas: do lado esquerdo, o corpo da mulher sobre o qual incide a luz se encontra em posição rebaixada; a relativa desordem do sofá e das cortinas, assim como as flores caídas ao chão, enfatizam seu estado psicológico, atestando a briga recente dos cônjuges. À direita, a sobriedade das cores e das vestimentas do personagem masculino – para o qual o crítico Gonzaga Duque (1863-1911) serve de modelo – estabelece um contraponto ao tumulto feminino. O homem, composto nas vestimentas e na pose, olhar pousado sobre um charuto, mostra-se relativamente indiferente ao arroubo da mulher. A habilidade do pintor no campo do retrato, gênero que desenvolve e pelo qual se torna conhecido, se faz notar na representação das figuras, sobretudo na masculina.

O talento do caricaturista importante que é Belmiro de Almeida – colaborador dos principais jornais e revistas nos primeiros tempos do Rio de Janeiro republicano – é perceptível na cena representada em Arrufos, e nos retratos que realiza nessa mesma época (por exemplo, Retrato de Palmira de Almeida, 1887, e Retrato de Senhora, 1889). A atenção detida na descrição de acontecimentos rotineiros e o humor que imprime à representação da vida diária se fazem presentes na tela de 1887, sobretudo na ironia que atravessa a cena e é responsável pelo seu tom peculiar. Nos termos da professora Gilda de Mello e Souza, “o que faz com que esta obra, de rigorosa fatura acadêmica, não naufrague no anedótico e no convencional é o tom docemente irônico com que a cena é focalizada. A pruderie da crítica a tomou sempre como uma disputa conjugal, mas na verdade ela representa a introdução revolucionária na pintura da época do tema do adultério, tão explorado pelo vaudeville, pelo folhetim e pela caricatura de costumes”.2

Arrufos escandaliza a sociedade de seu tempo por situar-se na contramão do repertório da pintura nacional, imiscuindo-se nos domínios privados da vida burguesa. A ousadia temática da tela aliada ao tratamento realista “arrepiou a caseira aristocracia do Império e agastou muitos dos mestres de nossa academia, sacudindo-lhes o preconceito e abalando-lhes o prestígio”.3 O que não elimina as reações favoráveis de Angelo Agostini (1843-1910) – que, na Revista Ilustrada de 13 de agosto, se refere à obra como “um dos mais belos quadros de que se tem notícia” – e as de Gonzaga Duque, que saúda o trabalho no momento em que é exposto pela primeira vez: “Ainda no Rio de Janeiro não se fez um quadro tão importante como é este”.  A produção de Belmiro de Almeida tem em Gonzaga Duque um comentador entusiasmado. O crítico examina essa obra no contexto da figura do dândi que o pintor representa em sua época, alertando para a equivalência entre seu modo de vestir, de pintar e de tocar nos assuntos. Muitos anos depois, as inovações trazidas pela tela de 1887 e pela obra posterior de Belmiro de Almeida – que acompanha as experimentações técnicas do impressionismo, do divisionismo e do pontilhismo – são reconhecidas pelas críticas Aracy Amaral e Gilda de Mello e Souza, que o colocam como um dos precursores da pintura moderna e modernista brasileira, a despeito das considerações críticas dos modernistas sobre o seu trabalho.

Notas
1 O ponto é sublinhado pelo historiador Luciano Migliaccio. O século XIX. In: MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte do século XIX. Curadoria geral Nelson Aguilar; curadoria Luciano Migliaccio, Pedro Martins Caldas Xexéo; tradução Roberta Barni, Christopher Ainsbury, John Norman. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 223 p., il. color.
2 SOUZA, Gilda de Mello e. Pintura brasileira contemporânea: os precursores. In: ______. Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2009. 368 p., il. (Espírito Crítico). p.244.
3 REIS JÚNIOR. Belmiro de Almeida 1858-1935. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1984. 120 p., il. p&b. color. (Série prata, 10). p.31.

Ficha Técnica da obra Arrufos:

  • Data de criação
    • 1887
  • Autores
  • Técnica utilizada para produzir a obra:
    • óleo sobre tela
  • Local de assinatura (onde está localizada a assinatura do artista na tela da obra:
    • c.i.d.
  • Dimensões
    • 89.10 cm x 116.10 cm
  • Acervo

Fontes de pesquisa (6)

  • 30 Mestres da pintura no Brasil: 30 anos Credicard. São Paulo: MASP, 2001. 176 p., il. p&b, color.
  • ALVARADO, Daisy Valle Machado Peccinini de. Pintura no Brasil: um olhar no século XX. Edição Fábio Avila; coordenação Dulce Soares. São Paulo, SP: Nobel, 2000. 153 p., il color.
  • AMARAL, Aracy. Artes plásticas na Semana de 22. 2.ed.rev. São Paulo: Perspectiva, 1972, 333 pp. il p&b. (Debates, 27)
  • REIS JÚNIOR. Belmiro de Almeida 1858-1935. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1984. 120 p., il. p&b. color. (Série prata, 10).
  • AYALA, Walmir. Dicionário de pintores brasileiros. Organização André Seffrin. 2. ed. rev. e ampl. Curitiba: Ed. UFPR, 1997. 428 p.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte do século XIX. Curadoria geral Nelson Aguilar; curadoria Luciano Migliaccio, Pedro Martins Caldas Xexéo; tradução Roberta Barni, Christopher Ainsbury, John Norman. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 223 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ARRUFOS . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra6374/arrufos>. Acesso em: 22 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7