Artigo da seção obras Pau Brasil

Pau Brasil

Artigo da seção obras
 
Data de criaçãoPau Brasil: 1925 | Oswald de Andrade
Livro

Análise
Estreia de Oswald de Andrade (1890-1954) na poesia, Pau Brasil (1925) é considerado um dos mais importantes livros do modernismo brasileiro, pois propõe uma nova linguagem para a literatura brasileira. Curtos e objetivos, os poemas procuram se aproximar da língua falada, isto é, uma poética avessa a modelos ou convenções.

O livro divide-se em nove partes, antecedidas por dois poemas: “Escapulário”, oração profana em favor da “poesia de cada dia”, e “Falação”, que recorta trechos do “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, publicado no ano anterior. A posição de destaque deste texto não é gratuita, já que o livro pode ser visto como realização de suas propostas, como sugere um dos mais famosos trechos: “A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros”.

A primeira parte, “História do Brasil”, recorta textos de cronistas europeus sobre o país. A partir da carta de Pero Vaz Caminha ao rei de Portugal D. Manuel I (1469-1521), por exemplo, Oswald de Andrade compõe um de seus mais conhecidos poemas, “As Meninas da Gare”. O procedimento é exemplar: com fidelidade, reproduz um fragmento da carta de 1500, seccionando-o em versos. Para produzir ironia, atribui um novo título, que desloca o texto para outro contexto. Como resultado, passa-se da reação do homem branco diante das mulheres indígenas a um poema jocoso que retrata uma cena contemporânea de prostituição em espaço urbano.

O deslocamento da matéria original remonta às técnicas da vanguarda europeia (em especial o cubismo e o futurismo) e à inocência construtiva – à perspectiva “sentimental, intelectual, irônica, ingênua”, nas palavras do manifesto. O efeito de surpresa, ademais, está relacionado ao que Haroldo Campos (1929-2003) identifica como o principal recurso crítico da poesia do autor. Os “poemas-comprimidos” de Oswald recortam matéria bruta e a reapresentam ao leitor, a quem cabe reconstituir essas relações, agora incluídas no processo artístico. A partir do que chama de “ready made linguístico” o crítico identifica um movimento de “dessacralização da poesia”.

O procedimento remete à proximidade das técnicas oswaldianas com o cinema, o que pode ser exemplificado pelas seções seguintes. “Poemas da Colonização” e “São Martinho” recortam quadros da vida contemporânea, com foco, no primeiro caso, nas relações escravocratas que permanecem na sociedade brasileira e, no segundo, os elementos rurais da vida brasileira.

Já em “RP1”, é a cidade que emerge segundo um forte desejo de objetividade que o poema pode se fazer a partir da colagem de nomes de estabelecimentos comerciais, como em “Nova Iguaçu”:

Confeitaria Três Nações
Importação e Exportação
Açougue Ideal
Leiteria Moderna
Café do Papagaio
Armarinho União
No país sem pecados.

Cenas da festa popular ocupam os poemas de “Carnaval”, enquanto as composições curtas de “Secretário dos Amantes” assemelham-se a fragmentos de cartas enamoradas.

De “Postes da Light” faz parte o poema “Pronominais”, notabilizado como síntese da busca por uma linguagem tipicamente brasileira – da “contribuição milionária de todos os erros”:

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Nesta seção está também “Pobre Alimária”, poema a partir do qual Roberto Schwarz (1938), contestando a leitura de Haroldo de Campos, mostra que a objetividade de Oswald não é tão verdadeira. No quadro em que apresenta o atravancamento do trilho do bonde pela carroça – fazendo-o alegoria da convivência entre o arcaico e o moderno no Brasil –, há, também, apreciação crítica. Condescendente com o jogo de poder entre os personagens do episódio, o olhar do poeta acaba por se revelar condescendente com a situação que procura ressaltar. Não existe, assim, o anti-ilusionismo identificado por Campos, mas o reforço de uma “visão encantada do Brasil”, matizada pelo humor.

A proposta de fazer uma poesia “de exportação”, conforme o “Manifesto Pau Brasil”, assume aspecto mais evidente em “Roteiro das Minas”. O poema convida a um redescobrimento do Brasil, análogo à experiência biográfica do autor, com a excursão modernista pelas cidades históricas de Minas Gerais.

Ide a São João del Rei
De trem
Como os paulistas foram
A pé de ferro

conforme o primeiro poema; ou conforme o último:

As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte de meu país
Onde ninguém mais subiu.

O tema da viagem está também na seção final, “Loide Brasileiro”: o percurso descrito pelos poemas parte da Europa e chega, de navio, ao porto de Santos, após visitar o nordeste brasileiro. Promete-se, assim, cumprir o desejo do eu lírico, que em “Canto do Regresso à Pátria” havia pedido, numa paródia da “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias (1823-1864):

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

Em prefácio ao romance experimental Serafim Ponte Grande (1933), concluído em 1928, Oswald, encantado com as ideias comunistas, renega os valores da “poesia pau brasil” – reduzindo-a a obra de um “brasileiro à-toa na maré alta da última etapa do capitalismo”. Mesmo quando não contradiz a rigorosa autoavaliação, a crítica lhe reserva papel fundamental no movimento modernista.

Ficha Técnica da obra Pau Brasil:

Fontes de pesquisa (6)

  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 32. ed. rev. e aum. São Paulo: Cultrix, 1994. 528 p.
  • CAMPOS, Haroldo de. Uma Poética da Radicalidade. In: ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 1990.
  • CANDIDO, Antonio. Os dois Oswalds; Oswaldo, Oswáld, Ôswald; O diário de bordo. Recortes. 3. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004. p. 34-54.
  • NUNES, Benedito. Antropofagia ao alcance de todos. In: ANDRADE, Oswald. Do Pau-Brasil à Antropofagia e às utopias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
  • PRADO, Paulo. Poesia Pau-Brasil. In: ANDRADE, Oswald de. Poesia Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 1990.
  • SCHWARZ, Roberto. A carroça, o bonde e o poeta modernista. In: ______. Que horas são? : ensaios. São Paulo : Rio, 1987. 180 p.

Como citar?

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  • PAU Brasil. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra59349/pau-brasil>. Acesso em: 26 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7