Artigo da seção obras Os Trinta Valérios

Os Trinta Valérios

Artigo da seção obras
Artes visuais  
Data de criaçãoOs Trinta Valérios: 1901 | Valério Vieira
Fotografia
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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Análise

A fotomontagem elaborada por Valério Vieira (1862-1941), em 1901, é considerada um dos marcos da fotografia brasileira. Apesar de existirem registros de outras manipulações, recortes e colagens de matrizes fotográficas em período anterior1, a obra rompe com a noção de que a fotografia é mero registro do real. De maneira inovadora e irônica, explicita as novas possibilidades abertas pela técnica. Trata-se de uma cena construída para parecer natural, um arranjo contraditório que opõe realidade e ilusão com o intuito de provocar riso, estranhamento e empatia no observador.

Fotógrafo e músico carioca radicado em São Paulo, Vieira parte de um estratagema simples: constrói uma cena reproduzindo um sarau, mas substitui todos os personagens por seu próprio retrato. Assim, garçom, pianista, plateia, o homem que chega por último à reunião e sobe as escadas, todos são o fotógrafo, que se registra em diferentes poses e as remonta de maneira verossímil. A brincadeira vai mais longe: Valério também dá sua fisionomia à escultura situada no pedestal à esquerda da imagem, que se vira para a plateia com um meneio de cabeça, e aos retratos que decoram a cena, ao fundo. Como que explicitando o jogo com as normas da fotografia, esses retratos na parede apresentam sua fisionomia nas clássicas poses de frente e nos perfis esquerdo e direito. Estão emoldurados e alinhados no centro superior da imagem. Os retratos das extremidades se entreolham, como se estivessem se divertindo com a cena insólita de rostos idênticos.

Destaca-se também em primeiro plano um retrato no qual Vieira aparece em tamanho maior. A figura faz um gesto com as mãos como se estivesse apresentando a cena, estabelecendo relação maior com um observador fora do plano da representação, ou seja, não inserido na fotografia. 

São 30 Valérios que se repetem, muitas vezes com o mesmo clichê. Há casos de repetição como, por exemplo, o terceiro e o sétimo homem na segunda fila (da esquerda para a direita). Se a preocupação em criar um todo diverso e coeso é respeitada, nota-se certa dificuldade em se obter uma perspectiva harmônica convincente, com as figuras variando de tamanho em alguns casos. Tais desvios não são problema para Valério Vieira. Sua intenção não parece ser apenas a de demonstrar virtuosismo na técnica da fotomontagem, mas a de criar uma peça que destaca, com bom humor, qualidade e inventividade.

É importante lembrar que Valério Vieira não é exclusivamente fotógrafo. É também músico e chega a usar Os Trinta Valérios para ilustrar uma de suas composições, como confirma a publicação de agradecimento no jornal O Estado de S. Paulo, em janeiro de 1902, citada por Ricardo Mendes: “Do photographo sr. Valério Vieira recebemos a sua composição musical ‘Photovalsa’ com uma capa representando o sr. Valério em diversas posições e tocando vários instrumentos, em uma sala de concerto”2. Outras publicações da época também louvam seu trabalho. “O seu cartão bouquet, reproduzindo a mesma pessoa sete vezes em sete posições diversas, com sete diversos vestuários, formando a mesma pessoa um grupo de sete figuras é inteiramente original”, afirma Antonio Bandeira Jr3. Boris Kossoy (1941) também coleta em seu Dicionário Histórico-Fotográfico4 comentário favorável, publicado no jornal O Commercio de São Paulo sobre a exposição de março de 1902. Mostra a cena em questão e afirma que “o artista Valério (...) tem revolucionado a photographia ultimamente, apresentando ao público trabalhos de primeira ordem e novos no gênero”.

Valério Vieira usa conscientemente esse recurso de aproximação entre obra e pessoa. O título inicial de Os Trinta Valérios era “Valério Fregoli”, em referência a um ator italiano com grande versatilidade de papéis, que contribui para enfatizar o caráter performático de sua obra. O fotógrafo elimina o sobrenome do ator e deixa em aberto uma interpretação ambígua, que enfatiza sua presença como autor e modelo da imagem. Outra de suas composições ganha o título de Valeriopolka

Sabe-se que a divulgação de sua obra em diferentes circuitos só lhe traz dividendos. Envia o material para jornais e exposições e obtém medalha de prata na St. Louis Purchase Exposition, realizada nos Estados Unidos em 1904, com Os Trinta Valérios. Procura agradar aqueles que podem ajudá-lo no trabalho de difusão, dedicando, por exemplo, Valeriopolka à imprensa paulista5

Tais estratégias de divulgação e aproximação entre autor e obra – destacando-se a transformação de Valério Vieira em “persona” de seu trabalho – fazem com que seja apontado por Tadeu Chiarelli (1956) como espécie de performer avant la lettre. O crítico vê Os Trinta Valérios como “uma mescla de autorretrato e tableau-vivant”6, constituindo obra narcísica e irônica, precursora de pesquisas em torno da imagem e da própria identidade na arte, tema muito explorado ao longo do século XX. 

Notas

1 Tal informação é dada por Ricardo Mendes em O Valério cumprimenta-vos: persona e invenção na virada do século. Disponível em: < http://www.fotoplus.com/download/20060500-Valerio%20Vieira-MIS%20SP.pdf >. O autor refere-se à prática, comum na São Paulo da época, de criar imagens nas quais o mesmo rosto se multiplica “em bouquets” (um arranjo no qual as flores são substituídas por diferentes retratos do modelo) e distribuídas como cartões de ano-novo e boas festas. Ver a esse respeito a imagem O Valério a seus fregueses, de 1903, reproduzida neste site.

2 Idem, p. 1 e 2.

3 O trecho, publicado originalmente em BANDEIRA JR., Antonio Francisco. A indústria no estado de São Paulo em 1901, São Paulo: Typ do ‘Diario Official”, 1901, p. 116-117. Apud MENDES, Ricardo. Op. cit., p. 3.

4 KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980, p. 319.

5 MENDES, Ricardo. Op. cit., p. 4.

6 CHIARELLI, Tadeu. A fotografia contaminada. In: Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos Editorial, 2002, p. 115.

Ficha Técnica da obra Os Trinta Valérios:

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (5)

  • BALADY, Sônia Umburanas. Valério Vieira: um dos pioneiros da experimentação fotográfica no Brasil. 2012. 197f. Dissertação (Mestrado - Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. p. 156
  • KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.
  • KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p. p. 86-90
  • MEMÓRIA Paulistana: exposição. São Paulo: MIS, 1975. 170 p. : il. p&b, color
  • MENDES, Ricardo. O Valério cumprimenta-vos: persona e invenção na virada do século. 2006. Disponível em: < http://www.fotoplus.com/download/20060500-Valerio%20Vieira-MIS%20SP.pdf >. Acesso em: 15 maio 2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • OS Trinta Valérios. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra5802/os-trinta-valerios>. Acesso em: 20 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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