Artigo da seção obras Baú de Ossos

Baú de Ossos

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoBaú de Ossos: 1972 | Pedro Nava
Livro

Baú de Ossos, estreia de Pedro Nava (1903-1984) na prosa, é saudado desde seu lançamento como um livro único na literatura brasileira. Aos 64 anos, e até então poeta bissexto, o autor inicia uma obra bastante particular: uma autobiografia que ultrapassa os limites confessionais e individuais, apresentando um panorama de sua época e memórias que se revelam a partir do tratamento ficcional, mesclando e expandindo gêneros tradicionais.

Trata-se do primeiro volume das Memórias do autor, compostas de seis títulos e ainda um sétimo, incompleto quando de sua morte. Dedicado à infância e aos antepassados, é considerado, ao lado do segundo, Balão Cativo (1973), o livro mais consistente do conjunto pela força e expressividade com que convoca o passado, numa clara tentativa de torná-lo presente, sem, no entanto, apresentar traços de saudosismo ou sentimentalismo, e ainda propondo reflexões gerais sobre a importância e o funcionamento da memória.

Para esse conjunto de livros, não há, nas palavras do crítico Davi Arrigucci Jr. (1943), um antecedente claro ou obra assemelhada na literatura brasileira. Diferentemente de Cyro dos Anjos (1906-1994), por exemplo, que em Explorações no Tempo (1963) e A Menina do Sobrado (1979) mantém-se nos limites da autobiografia, ou de Murilo Mendes (1901-1975), que reconstitui o passado de modo poético e fragmentado em A Idade do Serrote (1968), Nava conjuga a preocupação em retomar a cronologia com a transfiguração da matéria biográfica.

As páginas iniciais do livro são já um exemplo do sentido dessa transfiguração: a breve apresentação do nascimento é associada à descrição da cidade natal, Juiz de Fora. Dividida ao meio (tendo como eixo a Rua Halfeld), a geografia local, simplificada e esquematizada, constitui o acesso à história pessoal do autor. As "duas direções" espaciais tornam-se símbolo das duas tendências entre as quais sua vida "hesitou" - uma séria e conservadora, outra alegre e permissiva.

Essa divisão, que dá "leste e oeste para a escolha do destino", remete a aspectos fundamentais da obra. É, em primeiro lugar, resultado do olhar criativo do autor, que faz dados reais parecerem produto da imaginação. O esquema serve ainda de ponto de identificação entre a autobiografia e a vida da cidade: ao lado conservador Nava identifica a família materna; ao outro, a família paterna - revelando-se assim o movimento de uma biografia que constantemente amplia seus limites para uma história, mais que individual, coletiva.

Essa tensão básica é o que constitui, para Antonio Candido (1918), a força da obra de Pedro Nava. O crítico o considera um dos grandes autores de sua época - equiparando-o a Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) -, e vê como marca da narrativa a universalização do traço particular, alcançada por procedimentos estilísticos que conferem à matéria biográfica tratamento ficcional.

Ao elaborar longas listas de nomes, objetos e sentimentos, Nava, por força do acúmulo dos elementos, cria uma atmosfera insólita, lançando o leitor em um ambiente imaginativo e cuidadosamente construído. Ao aplicar lugares-comuns aos eventos narrados (o que faz com frequência), transforma-os em algo tão exemplar quanto um dito popular. Também alusões literárias e metáforas tendendo ao exagero acabam por embaralhar fantasia e realidade, de modo que o leitor passe a ler ambas da mesma maneira, sem diferenciá-las, e portanto deixando-se levar pelo universo da ficção.

Esses procedimentos preparam o leitor para os trechos em que a imaginação do autor claramente constrói o relato. Pois, embora a riqueza e a variedade do material que colecionou a respeito da família despertem comparações com Gilberto Freyre (1900-1987) e sua antropologia erigida sobre fontes diversas, Nava não se restringe a reproduzir informações, muitas vezes efetuando um trabalho que compara ao do arqueólogo, "que da curva de um pedaço de jarro conclui de sua forma restante, de sua altura, de suas asas, que ele vai reconstruir em gesso para nele encastoar o pedaço de louça que o completa e nele se completa".

Um "esqueleto de verdade" que Nava reconstitui com a poesia, juntando "à verdade o verossímil", é a descrição do trajeto cumprido todos os dias pelo avô paterno de casa para o trabalho: o humor com que deixava a casa, o clima predominante na residência naquela hora da manhã, o vestuário, a direção do olhar de quem viajava no carril, o aspecto das praças e ruas do Rio de Janeiro, o movimento das pessoas, os cumprimentos - inúmeros detalhes são convocados, de modo que ao conhecimento objetivo dos hábitos do avô e da história da cidade Nava soma o trabalho ficcional, desenhando uma personagem e uma realidade como se as conhecesse desde o interior.

A capacidade de definir aspectos psicológicos dos familiares para além da exterioridade conhecida a partir de depoimentos, documentos e fotografias é uma das qualidades do autor mais destacadas pela crítica. Carlos Drummond de Andrade, leitor e amigo de Nava, elogia o seu pendor retratista: "A minúcia descritiva e a aguda propriedade vocabular são recursos para identificar, através de cada pormenor, o sentido específico da coisa".1

O percurso cumprido pelo avô, integrante do capítulo Setentrião, é ainda exemplo do papel mediador da ficção. É a partir da construção romanesca - neste caso estruturada com a rotina da personagem - que se compõe o retrato de uma época. A reconstituição do Rio de Janeiro, com seus teatros, redações de jornais, prostíbulos; com trabalhadores de ramos e origens diversas; com meios de transporte como tílburis e gôndolas, está subordinada à narrativa, em vez de surgir como mero relato informativo.

O mesmo se pode dizer, aliás, da família do autor. As casas em que viveram, minuciosamente descritas, os hábitos diariamente cultivados, como as refeições, o vestuário, a divisão de trabalho entre homens e mulheres, patrões e empregados, apresentam ao leitor um painel do país no século XIX. A estrutura doméstica e suas implicações para a formação da sociedade brasileira estão subjacentes às recordações pessoais do autor.

Desse modo, ao exumar os esqueletos de seus antepassados e reconstituí-los em personagens por meio dos recursos da ficção - conforme o estudioso Joaquim Alves de Aguiar interpreta o título Baú de Ossos -, Pedro Nava, como um antigo contador de histórias, procura cativar o leitor pelo olhar ao mesmo tempo amplo e minucioso, sempre empenhado em trazer a matéria narrada para perto do leitor. Num texto semelhante ao romance, afinal, oferece um retrato cotidiano de uma sociedade brasileira em formação.

Notas
1 DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Baú de surpresas. In: NAVA, Pedro. Baú de ossos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Ficha Técnica da obra Baú de Ossos:

  • Data de publicação
    • 1972
  • Tiragem
    • 168/200 | Tiragem
  • Autores

Fontes de pesquisa (17)

  • AGUIAR, Joaquim Alves de. Espaços da memória. Um estudo sobre Pedro Nava. São Paulo: Edusp, 1998.
  • ANDRADE, Mário de. Correspondente contumaz: cartas a Pedro Nava, 1925-1944. Edição preparada por Fernando da Rocha Peres. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
  • ARRIGUCCI Jr., David. Móbile da memória. Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 67-111.
  • BANDEIRA, Manuel. Nava. Poesia completa e prosa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990.
  • BOTELHO, André. As Memórias de Pedro Nava: autorretrato e interpretação do Brasil. In: NAVA, Pedro. Baú de ossos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • CAMPOS, Marta. O desejo e a morte nas memórias de Pedro Nava. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 1992.
  • CANÇADO, José Maria. Memórias videntes do Brasil: a obra de Pedro Nava. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
  • DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Baú de surpresas. In: NAVA, Pedro. Baú de ossos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • GARCIA, Celina Fontenele. A escrita Frankestein de Pedro Nava. Fortaleza: UFC Edições, 1997.
  • GUIMARÃES, Raquel. Pedro Nava, leitor de Drummond. Campinas: Pontes, 2002.
  • LE MOING, Monique. A solidão povoada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
  • NUNES, Raimundo. Pedro Nava: memória. São Paulo: Ateniense, 1987.
  • PANICHI, Edina. Pedro Nava e a construção do texto. Londrina: Eduel: São Paulo: Ateliê, 2003.
  • SAVIETTO, Maria do Carmo. Baú de madeleines: o intertexto proustiano nas memórias de Pedro Nava. São Paulo: Nankin, 2002.
  • SOUZA, Eneida Maria de. Pedro Nava, o risco da memória. Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2004.
  • CANDIDO, Antonio. Poesia e ficção na autobiografia. In: ______. A educação pela noite & outros ensaios. 2.ed. São Paulo: Ática, 1989. 223 p. (Temas, 1) 
  • MEDINA, Cremilda de Araújo. Pedro Nava. In: ______. A posse da terra: escritor brasileiro hoje. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda; São Paulo: Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, 1985.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BAÚ de Ossos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra44010/bau-de-ossos>. Acesso em: 16 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7