Artigo da seção obras Edifício do Masp

Edifício do Masp

Artigo da seção obras
Artes visuais  
Data de criaçãoEdifício do Masp: 1968 | Lina Bo Bardi
Imagem representativa do artigo

Masp , 1969 , Hans Günter Flieg

Histórico
O edifício do Museu de Arte de São Paulo (Masp) é de autoria da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992). Localizado na Avenida Paulista, em São Paulo, o projeto da sede tem início em 1957 e, inaugurado mais de uma década depois, em 7 de novembro de 1968. Ocupa o terreno do antigo Clube Belvedere Trianon (1916), local de encontro da elite paulistana e sede da 1ª Bienal de Arte de São Paulo (1951). Sua demolição ocorre em 1953 para dar lugar a uma edificação permanente destinada à arte.

O Masp é fundado em 1947, por iniciativa do jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968), que chama o museólogo, crítico e historiador da arte italiano Pietro Maria Bardi (1990-1999) para ocupar o cargo de diretor. Em 2 de outubro de 1947, inaugura-se a primeira sede do Museu na Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo, em um andar do edifício do jornal Diários Associados, pertencente a Chateaubriand.

Bardi define a concepção seminal do Masp como um “antimuseu”¹, um lugar que não se limita à seleção e guarda de relíquias da humanidade, empenhado na transmissão de conhecimento, inserido no cotidiano da população como ambiente de convívio social.

Nós não queríamos a arte guardada num velho museu do século XVIII, do jeito que nós todos conhecemos, mas num museu escola de vida, onde as coisas da arte deveriam ser representadas pelo que elas contêm de clássico, ou seja, de verdadeiro, de persuasivo, de moderno, de eterno. O extraordinário conjunto de ensinamentos que a arte passada e em desenvolvimento contém em si mesma deveria desempenhar um papel preponderante na educação moral de cada cidadão2.

Nos primeiros anos, o caráter pedagógico do Masp reflete-se em iniciativas que têm a participação do Museu ou ações específicas do casal Pietro Maria e Lina Bo Bardi, como o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), as revistas Habitat e Mirante das Artes, os Seminários de Cinema, os cursos pioneiros no Brasil de desenho industrial, propaganda e moda, além de exposições de Alexander Calder (1898-1976), Max Bill (1908-1994), Saul Steinberg (1914-1999), Le Corbusier (1987-1965), entre outras, acompanhadas de conferências com a presença de especialistas internacionais. Por isso, o Masp constrói um meio cultural moderno ainda incipiente na São Paulo da década de 1950. Esta proposta institucional é decisiva para a definição programática da segunda sede com projeto de Lina Bo Bardi.

A prefeitura de São Paulo cede o terreno na Avenida Paulista exigindo a manutenção da vista existente no antigo Trianon para o vale da Avenida 9 de Julho3. Esta condição transforma-se marco do projeto: da relação com a Avenida Paulista faz-se um intervalo – um vazio – entre os dois corpos que constituem os interiores do museu. Lina Bo Bardi não se limita a preservar a ambiência do belvedere do Trianon, transforma-a no vão livre, o qual é qualificado pelo compositor norte-americano John Cage (1912-1992) como “arquitetura da liberdade4”. Segundo Cage, liberdade diz respeito a indeterminação e a abertura aos acontecimentos corriqueiros do cotidiano. Sob o vão de 74 metros do Masp, portanto, o cidadão livre para perceber o ambiente que o envolve da maneira como ele é, um lugar privilegiado para a percepção da vida, da coletividade, da metrópole paulistana, do mundo.

Incrustado no solo e só avistável externamente pela Avenida 9 de Julho, o volume inferior abriga o Hall Cívico – um salão de baile no projeto original da prefeitura, porém sempre destinado a exposições temporárias: o teatro, a biblioteca, o restaurante e a bilheteria com acesso original6 do museu.

Por sua vez, o volume suspenso constitui a imagem expressiva e facilmente assimilável do Masp visto pela Avenida Paulista: o enorme esforço estrutural dos quatro grandes pilares ligados por duas longas vigas de concreto estendidas por cima da laje de cobertura – dando origem à imagem de duplo pórtico pintado em vermelho desde a década de 1990 – e por outras quatro vigas que sustentam o piso da pinacoteca do acervo permanente e, por meio de tirantes - atualmente escondidos – o pavimento abaixo com área de exposição temporária e escritórios.

Diretamente oriundo da ideia de “antimuseu” e destinado à exibição do acervo permanente do museu. A pinacoteca do andar superior é pensada como uma planta totalmente livre de estruturas no interior do grande espaço, no qual os quadros são sustentados por painéis-cavaletes de lâmina de vidro sobre base em concreto. Os visitantes movimentam-se por entre as obras de arte suspensas nos suportes transparentes, criando uma coreografia entre homens e obras de arte. O interior do salão integra-se visualmente à cidade em virtude dos planos em vidro que envolvem a fachada. Com isso, Bo Bardi quebra a hierarquia expográfica dos museus tradicionais que ressaltam o estatuto de caráter especial – a "aura"7 – do objeto de arte. Segundo a arquiteta, dessacraliza-se o museu8 quando a arte sai da moldura pendurada na parede ou do pedestal para se mesclar com o espaço do cidadão comum. Tal estratégia é potencializada com as legendas de informações sobre a obra e o pintor posicionadas no verso do quadro. A disposição das obras não é submetida a critérios cronológicos ou temáticos, tampouco a percursos lineares ou direções delimitadas9. Esculturas e quadros distintos, segundo aspectos históricos e estéticos são dispostos lado a lado, provocando uma inquietude que desperta o interesse do visitante, liberando-o de organizações intelectuais que possam subjugar sua experiência direta com a arte. A coleção do Masp é exposta de forma que passado e presente coexistam no “agora”10.

Esta proposta expográfica mantém-se até a polêmica reforma do edifício executada entre 1996 e 2001. Por iniciativa da administração do museu, sob a presidência do arquiteto Julio Neves (1932) entre os anos de 1994 e 2008, os painéis-cavaletes de vidro são substituídos por divisórias, que transformaram o último andar em um convencional conjunto de salas sem relação visual com a cidade. A justificativa é proteger as obras de arte da incidência direta de luz natural. Também sob argumento conservacionista, foi substituído o piso de pedra mineira do projeto original por placas de borracha escura. O período da administração de Júlio Neves é marcado por graves problemas financeiros, pelo assalto, em 2007, aos quadros do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962) e do pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973), e pela inconclusa transformação do edifício vizinho, Edifício Dumont-Adams, em um anexo do museu segundo um controverso projeto do próprio administrador.  

Em 2014, a diretoria da instituição é reestruturada, designando a curadoria a Adriano Pedrosa (1965). Atribuindo a responsabilidade da expografia ao arquiteto Martin Corullon (1973), o Masp retoma os suportes expográficos projetados por Lina Bo Bardi e, em 2015, restitui o projeto original da pinacoteca com os painéis-cavaletes e a transparência nos planos laterais da grande sala do último andar.

 

Notas
1 BARDI, Pietro Maria. Musées hors des limites. Habitat, São Paulo, setembro 1951. apud TENTORI, Francesco. P.M. Bardi. São Paulo: Imprensa Oficial, 2000. p.190.
2 Ibidem. p.189.
3 BO BARDI, Lina. Uma aula de arquitetura. In: RUBINO, Silvana; GRINOVER, Marina (Org.) Lina por escrito. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 175.
4 Ibidem. p. 166.
5 PERROTTA-BOSCH, Francesco. A Arquitetura dos intervalos. Serrote, São Paulo, n. 15, p.9, nov. 2013. 
6 Na década de 1990, as bilheterias e o controle de acesso são deslocados para cabines implantadas no vão livre do Masp, que não correspondem ao projeto original de Lina Bo Bardi.
7 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
8 ANELLI, Renato Luiz Sobral. O Museu de Arte de São Paulo: o museu transparente e a dessacralização da arte. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 112.01, set. 2009. Disponível em:  < http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.112/22 >. Acesso em:
9 “Mas o tempo linear é uma invenção do Ocidente, o tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim.” BO BARDI, Lina. In: FERRAZ, Marcelo Carvalho (Org.). Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993, p.327.
10 OLIVEIRA, Olívia de. Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura. São Paulo: Romano Guerra Editora; Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. p. 354.

Ficha Técnica da obra Edifício do Masp:

Representação (1)

Fontes de pesquisa (18)

  • MARQUES, Luiz (Org.). Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. São Paulo: Prêmio, 1998.
  • MIYOSHI, Alex. O edifício do MASP como sujeito de estudo. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 084.02, maio 2007. Disponível em: < http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.084/245 >.
  • PERROTTA-BOSCH, Francesco. A Arquitetura dos intervalos. Serrote, São Paulo, n. 15, novembro 2013. Disponível em: < http://www.revistaserrote.com.br/2013/12/a-arquitetura-dos-intervalos-por-francesco-perrotta-bosch/ >
  • ANELLI, Renato Luiz Sobral. O Museu de Arte de São Paulo: o museu transparente e a dessacralização da arte. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 112.01, set. 2009. Disponível em: Vitruvius,  < http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.112/22 >. 
  • ARQUITETURAS: Sesc Pompéia. Direção: Paulo Markun e Sergio Roizenblit. Produção: Marina Puech Leão, Denise Resende e Carime Franco. Roteiro: Paulo Markun e Ana Roxo. São Paulo: Miração Filmes e Revanche Produções, 2013.
  • BARDI, Pietro Maria. A atuação do Masp. In: Um certo ponto de vista – Pietro Maria Bardi – 100 anos. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2000.
  • BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
  • CABRAL, Maria Cristina Nascentes. O Racionalismo arquitetônico de Lina Bo Bardi. Dissertação (Mestrado em História). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,1996.
  • CAGE, John. Silence: conférences et écrits. Genebra: Héros-Limite, 2003. 
  • FERRAZ, Marcelo Carvalho (Org.). Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1993.
  • FERRAZ, Marcelo Carvalho. Minha experiência com Lina Bo Bardi. Revista AU, São Paulo: Editora Pini, n.40, 1992.
  • OLIVEIRA, Olivia de. Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura. São Paulo: Romano Guerra Editora; Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006.
  • PERROTTA-BOSCH, Francesco. A "desformalização" da arquitetura de Lina Bo Bardi. A "desformalização" do MASP. Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 165.00, fev. 2014. Disponível em: < http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.165/5063 >
  • RUBINO, Silvana; GRINOVER, Marina (Orgs.). Lina por escrito. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
  • SESC POMPÉIA 30 ANOS. Produção Sesc São Paulo. São Paulo: Sesc, 2013.
  • TENTORI, Francesco. P.M. Bardi. São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.
  • WISNIK, Guilherme. Antropofagia a la inversa. In: Lisette Lagnado (Org.). Desvíos de la deriva: experiencias, travesías y morfologías. Madri: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2010.
  • WISNIK, Guilherme. O projeto lúdico-construtivo de Lina Bo Bardi. Texto apresentado no Seminário Desvios de la Deriva. Espanha, 2010. (mime)

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EDIFÍCIO do Masp. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra44000/edificio-do-masp>. Acesso em: 14 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7