Artigo da seção obras Manera, Fru Fru, Manera

Manera, Fru Fru, Manera

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoManera, Fru Fru, Manera: 1973
Discografia

Análise
Manera, Fru Fru, Manera é o primeiro LP do compositor, cantor, instrumentista e produtor musical cearense Raimundo Fagner (1949). Lançado em 15 de maio de 1973, o disco tem a participação de músicos então já consagrados, como o percussionista Naná Vasconcelos (1944), a cantora Nara Leão (1942 - 1989), Roberto Menescal (1937), que assina a produção, e Paulinho Tapajós (1945 - 2013). A direção musical é do próprio Fagner, autor ou coautor da maioria das faixas.

Fagner grava neste trabalho três canções conhecidas do público: Nasci para Chorar (versão de Erasmo Carlos para Born to Cry, de Dion DiMucci), de 1964, sucesso na voz de Roberto Carlos (1939); Último Pau de Arara (1956), de Venâncio, Corumba e José Guimarães; e Mucuripe, parceria sua com Belchior (1946), vencedora do Festival de Música Jovem do Centro Estudantil da Universidade de Brasília (UnB), em 1971. Lançada pela cantora Elis Regina (1945 - 1982) em maio de 1972, Mucuripe abre as portas para o compositor no eixo Rio–São Paulo – onde se concentram as principais gravadoras e emissoras de rádio e TV. Registrada por Fagner em compacto dividido com Caetano Veloso (1942), da coleção Discos de Bolso do Pasquim, em junho, recebe arranjos de Ivan Lins (1945) no LP.

A frase estampada na capa, “Último Pau de Arara, se justifica pela necessidade de a gravadora Philips assimilar a obra de um repertório popular de compositores nordestinos. Reforça esse aspecto a ilustração, aludindo às xilogravuras da literatura de cordel, que disputa espaço com uma publicidade de cigarro. Já o título do disco é uma escolha feita pelo próprio compositor e refere-se à última faixa do disco. A inusitada canção Manera Fru Fru, Manera, uma parceria com Ricardo Bezerra, cuja letra enigmática valoriza a sonoridade das palavras, ritmadas pelo derbak. Segundo Bezerra, a música segue a tendência à metalinguagem da época. Ela hibridiza elementos como catimbó – conjunto de práticas mágico-religiosas –, Icó, cidade do interior do Ceará, com citações à música urbana: Take It Easy My Brother Charles, de Jorge Benjor, transformada pelo letrista em “têc têc têc ri, brode brode brode chá”.

Apesar de músicos famosos chancelando a qualidade do trabalho, do repertório conhecido e do timbre original, rascante do cantor, a vendagem inicial não é expressiva: fica na casa de 5 mil cópias. Para promover o disco, a Philips distribui às emissoras de rádio um compacto com depoimentos de músicos como Chico Buarque (1944) e Ronaldo Bôscoli (1929 - 1994), falando sobre a obra. Entretanto, o disco não emplaca e a gravadora o retira de catálogo. É a partir do sucesso alcançado por Fagner nos anos seguintes que as rádios passam a difundir o LP, relançado em junho de 1976, e a canção Canteiros transforma-se num hit. Divulgada até então como sendo de sua autoria, no release do show Orós (1977), é creditada a coautoria à poetisa Cecília Meireles (1901 - 1964).

Em 1979 as filhas da poetisa entram na Justiça, processando o cantor por violação de direitos autorais e plágio dos poemas Marcha e Motivo, musicado por ele em 1978, no disco Eu Canto – Quem Viver Chorará. Canteiros cita ainda trechos de Águas de Março, de Tom Jobim (1927 - 1994), e Na Hora do Almoço, de Belchior, que aparece como coautor na segunda tiragem. Com esses dois compositores, parece não haver problemas. Já com as herdeiras de Cecília Meireles, o processo se estende até 1999, quando a Sony Music faz acordo para sua regravação no disco Raimundo Fagner – Ao Vivo (2000). Apreendidos os discos e proibida a veiculação da canção, ela é substituída em 1980 por Cavalo-Ferro, parceria de Fagner com Ricardo Bezerra.

Nos anos 1990 é a vez de Penas do Tiê entrar em litígio. De autoria de Heckel Tavares (1896 - 1969) e Nair Mesquita, a seresta originalmente chamada Você (1928), consta no álbum de 1972 como adaptação de uma música de domínio público. E a canção Sina, parceria com Bezerra, apropria-se de versos do poema O Vaquêro, de Patativa do Assaré (1909 - 2002), cuja autoria é reconhecida no relançamento do disco. Além do acréscimo de informações, a segunda edição traz nova distribuição das faixas, na qual Moto 1 e Sina, respectivamente no lado A e lado B, invertem de posição. Quando lançado em CD, em 1991, são mantidas as faixas da segunda edição.

A polêmica sobre o disco muitas vezes ofusca seu conteúdo arrojado. Aspecto marcante é a versatilidade do repertório, no qual tradição e experimentalismo convivem lado a lado. Além da simplicidade – em canções como Sina, Último Pau de Arara e Serenou na Madrugada –, o disco trava um diálogo com o legado da música popular pós-bossa nova, perceptível na marcha Pé de Sonhos (Petrúcio Maia/Brandão), tanto pela instrumentação como pelo dueto com Nara Leão. A canção contrasta com o aspecto introspectivo de Tambores (Jovem Também Tem Saudade), parceria com Ronaldo Bastos (1948), e Como Se Fosse, com Capinan (1941), músicas que fogem ao padrão radiofônico e dos festivais.

Serenou na Madrugada, moda de viola adaptada do folclore, conta com a participação do baixista norte-americano Bruce Henry no vocal. Último Pau de Arara, originalmente um baião, emprega a instrumentação própria ao gênero, mas assume andamento mais lento, criando um xote com modernos arranjos, na qual a métrica do canto é mais livre em relação às gravações anteriores. O compositor faz ainda uma releitura da jovem guarda em Nasci para Chorar, cuja interpretação e a presença de guitarras distorcidas imprimem certa rebeldia, mais próximo ao rock setentista. Assim como em Moto 1, parceria com Belchior. Nesta faixa, se identificam tanto influências do conjunto britânico The Who (See Me, Fell Me, 1969) – que certamente integra a escuta de sua geração –, como do funk-rock, na levada da segunda parte. Apropriando-se de múltiplas referências, Manera Fru Fru, Manera consiste num trabalho bastante original, a despeito das controvérsias que o rondam.

Ficha Técnica da obra Manera, Fru Fru, Manera:

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MANERA, Fru Fru, Manera. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra43856/manera-fru-fru-manera>. Acesso em: 24 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7